Harry e Meghan: nova era na realeza britânica?

Casamento Real no último sábado (19) movimenta e encanta o mundo

Por Melissa Duarte

“O amor é o caminho”, disse o reverendo anglicano Michael Curry durante a celebração, em referência a Martin Luther King. É, também, a tatuagem da alma. (Re)inventa. Transforma. Deixa marca. Bate, soca, apanha. Além de tudo — como se fosse pouco —, ainda faz mais, maior e melhor de quem o sente. Por isso, esse sentimento se apresenta como um dos maiores valores-notícia do jornalismo, mas, neste caso, sua relevância também depende do fato de que ambos são mundialmente famosos e tem alto nível hierárquico social. Com o Duque e a Duquesa de Sussex não teria como ser diferente.

Quem não gostaria de ler sobre o conto de fadas da vida real que supera padrões e quebra protocolos? Ele é branco, príncipe, britânico, envolvido em polêmicas — de uso de álcool e drogas a traje nazista —, Capitão do Exército, ativista pela saúde mental e no combate à AIDS e tem 33 anos. Ela, afrodescendente, plebeia, estadunidense, ex-modelo, atriz, feminista, três anos mais velha e está em seu segundo casamento. Juntos, compartilham o amor que compartilham um pelo outro e pelas causas humanitárias, além de formarem a primeira união inter-racial da monarquia.

Do primeiro encontro à cerimônia na Capela de St. George, em Windsor, Inglaterra, um ano e 10 meses. Durante esse tempo, tudo foi notícia: boatos de namoro e de noivado, carreira e etnia da noiva. Por isso, segundo a Teoria do Agendamento, de Maxwell McCombs e Donald Shaw, quanto mais eles aparecem na imprensa, mais se tornam importantes e comentados pelo público. Cada tópico passou a ter forte apelo social e jornalístico, como as fotos oficiais de noivado — nas quais o foco da imprensa estava na ligeira transparência usada por Meghan — e a primeira entrevista do casal, já noivos, em novembro, à emissora BBC.

A cobertura desse veículo e do jornal The Guardian, ambos britânicos, se destaca. O portal TMZ e a revista People trouxeram furos de reportagem, principalmente sobre a conturbada relação de Meghan com a família paterna. Já no Brasil, o G1 dedicou uma seção do site ao casamento, com informações e atualizações mais recentes. Enquanto Globo e GNT transmitiram ao vivo a cerimônia, o blogueiro Hugo Gloss — um dos comentaristas do canal de TV a cabo para o evento — também cobria pelo Instagram, além de ter publicado inúmeras matérias sobre o casal em seu blog no Uol.

Mais que noticiar fatos, a mídia sexualizou Meghan e a transformou no centro das atenções. A paixão enquanto valor-notícia se tornou sensacionalismo e forte assédio. Diversas reportagens focavam em quem era a atriz — afro-americana, divorciada e feminista — que se casaria com o Príncipe, o que a reduzia a seu relacionamento e esquecia sua carreira de sucesso e seu ativismo. No entanto, nada parecido ocorreu com Harry: seu passado festeiro e polêmico, que já lhe conferiu apelido de “ovelha negra” da família real, deu lugar à imagem de príncipe irrevogavelmente apaixonado.

Contudo, infelizmente, o que mais se destaca na cobertura sobre o casal é o racismo sofrido por Meghan. Filha de pai branco, o diretor de fotografia Thomas Markle, e de mãe negra, a assistente social Doria Ragland, ela foge a todos os padrões que se esperam de uma integrante da Coroa e sua herança birracial — além dos conflitos familiares com o pai e o meio-irmão — passa a ser holofote nas manchetes.

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Manchetes sobre o racismo sofrido pela Duquesa de Sussex, Meghan. (Reprodução: Christopher Furlong/Staff/Getty Images)

Que foi amor à primeira vista mesmo que num encontro às cegas —, o príncipe já contou. Agora, se são as diferenças que os unem, não se sabe. O banquete da mídia se encontra justamente nelas, não por ser plebeia antes dela, vieram muitos outros, como Kate Middleton , mas afro-americana, divorciada, feminista e mais velha. Some isso às adequações que Meghan teve de fazer para entrar na família real e a sede por notícias só aumenta.

Raça, ascendência e idade não podem ser mudadas. Por isso, o casamento quebra padrões e rompe barreiras. Todavia, precisou se naturalizar britânica, se mudar para Londres e se converter ao Anglicanismo. Além disso, abandonou as mídias sociais, o blog The Tig e a carreira  ela era uma das protagonistas da série Suits (Homens de Terno, em português), como a estudante de Direito Rachel Zane — para se dedicar exclusivamente à filantropia e aos compromissos reaisSeria Meghan a Grace Kelly da Coroa Britânica ou a continuação do legado de Princesa Diana, que morreu aos 36 anos, idade em que, agora, a duquesa adentra à cena?

Devido a todas as mudanças pelas quais ela teve que passar, imprensa e mídias sociais questionam: como seu ativismo continuará agora que é membra da realeza? O artigo “O que Meghan Markle significa para os britânicos negros?”, do jornal O Globo, foge às matérias tradicionais sobre ela e traz à tona sua representatividade por superar padrões e, assim, inspirar quem também não se encaixa neles. Enquanto isso, o El País analisa vida e obra da “princesa americana”.

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Dois tuítes retratam diferentes opiniões acerca do ativismo de Meghan. Será que essas quebras de protocolo significam uma monarquia mais moderna? 

Ironia e sarcasmo dão o tom da matéria “Meghan Markle pode ser princesa e feminista ao mesmo tempo?”, de Tati Bernardi, para sua coluna para o jornal Folha de S. Paulo. Ao mesmo tempo que parece trazer à tona questionamentos sobre o ativismo da estrela de Suits, na verdade, renega e condena o feminismo dela. O site oficial da realeza, contudo, publicou a biografia da Duquesa de Sussex na qual ela declara que tem orgulho de ser mulher e feminista e que luta pelo empoderamento feminino.

Uma duquesa feminista e afro-americana terá voz no seu discurso ou será ferramenta de marketing para modernizar a imagem monárquica? A discussão é grande, mas necessária. Se Meghan seguir a linha da sogra, Princesa Diana, ela pode movimentar — e incomodar — a Coroa e, ainda, servir de imagem para quem não consegue se ver no espelho, construindo o próprio legado. Contudo, será que ela moldará suas causas aos interesses da Rainha, tendo papel mais simbólico do que efetivo? Isso só o casamento, dia após dia, irá dizer. 

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