Os humilhados estão sendo exaltados

 Personalidades de origem pobre ganham a empatia do Brasil
 
 

Por Marcos Braz 

Recentemente, o Brasil descobriu figuras icônicas muito diferentes do padrão  que está presente na mídia . Estávamos acostumados a ver artistas seguindo um modelo de estética e comportamento muito engessado, apenas os belos, segundo os moldes, assumiam protagonismo nas telas da TV ou no som das rádios. Porém, um processo de aceitação do brasileiro real, na sua essência e diversidade, tomou conta da mídia brasileira. O Brasil mostrou seu rosto e nem de longe se parecia a Gisele Bündchen.

 

A história começa  pela cantora mais influente do país atualmente. Nascida na cidade do Rio de Janeiro, Larissa de Macedo Machado, começou a cantar em um coral de igreja, encorajada por seu avô. Paralelo à música, ela se formou como técnica em  administração e conseguiu um estágio na mineradora multinacional Vale do Rio Doce. Após decidir que queria investir em sua carreira musical, deixou o estágio e começou seu caminho no funk. Passo a passo ela cresceu. Primeiro, gravou vídeos cantando  e postou em seu canal. Logo foi notada por um produtor que a preparou para uma nova fase de sua carreira. Gravou algumas músicas que ficaram muito populares no Rio e ganharam as rádios do Brasil. Mas a menina Larissa só se consagrou como  Anitta, fenômeno musical, em abril de 2012 com o super hit Show das Poderosas. Um dos maiores desafios da carioca em seu caminho foi a aceitação da mídia. Parecia que tudo pesava contra ela: mulher, periférica, cantando um ritmo que até aí ainda era muito rejeitado pelo grande público. Mas ela persistiu, e com muito trabalho e apoio popular, permeou as grandes veículos de comunicação. Jornais, revistas, TV, rádios, todos queriam mostrar Anitta.

A cantora cresceu e, como uma ironia do destino, cruzou o caminho de todos os personagens que assim como ela se tornaram ícones pop brasileiros. Logo no início da carreira, fez amizade com Leno Maycon, um desconhecido funkeiro. Ele trabalhou pesado em seus projetos e, degrau por degrau, consolidou um caminho de sucesso. Mas, para se colocar de maneira definitiva no mercado, ele ainda precisava de um sucesso que o tornasse conhecido em todo país. Nesse ponto entra Anitta, que nesse momento  já era uma realidade consolidada no cenário nacional, junto ao funkeiro e ao cantor Wesley Safadão, lançaram Você partiu meu coração, uma das  músicas mais tocadas de 2017. Assim, o Brasil conhecia Nego do Borel, garoto negro, vindo de favelas e com uma trajetória muito humilde. Ele ganhou a empatia do público não só com sua história mas também com seu carisma e performances de um humor inconfundível. A mídia se viu obrigada a falar de Nego, um personagem um tanto quanto estranho e longe de ser mais um dos galãs que normalmente estampam as capas de discos.

Em uma sociedade tão intolerante à diversidade, o surgimento e aceitação do próximo personagem  foi um processo surpreendente para a mídia e para o grande público .O país  que mais mata população LGBT, segundo o Grupo Gay da Bahia, viu uma Drag Queen despontar nas paradas musicais ainda como artista independente. Phabullo Rodrigues da Silva Araujo criou, como forma de expressão artística, Pabllo Vittar. Já aclamada pelo público LGBT, a artista começou a ganhar empatia da massa com o hit K.O, a música se tornou um viral e a revelou para o Brasil. O preconceito que ela enfrentou para se colocar no mercado foi ao mesmo tempo um marketing orgânico. Cada vez que Pabllo era citada, de forma positiva ou negativa, a visibilidade e os números da cantora aumentavam. A mídia receosa em divulgá-la e perder em relação aos “conservadores” precisava ainda de uma pauta que não pudesse ser ignorada. E tiveram. O grupo de DJs Major Lazer, integrada pelo produtor americano Diplo, convidou Anitta para participar de um trabalho que explorava a musicalidade  de diferentes lugares do mundo. Com uma sonoridade  turca, batida eletrônica europeia e vocais brasileiros em português, nasceu Sua Cara. Cantada pelas duas brasileiras, Anitta e Pabllo, a música foi um sucesso estrondoso no Brasil — e o clipe teve números grandiosos em contexto mundial. Quebrou o recorde de maior número de likes no YouTube após 24 horas de lançamento. Assim, não só o Brasil, mas o mundo conheceu Pabllo Vittar, a maior Drag Queen da atualidade em números na internet.

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As figuras icônicas que nascem no mundo das redes sociais se tornam cada vez mais numerosas. O segredo do sucesso é a autenticidade. Quanto mais único e original se é, maior o alcance. E não é sobre agradar a todos ou ditar padrões de beleza e comportamento. Os últimos dois personagens são o exemplo perfeito dessa tese. Uma mulher acima do peso, negra e sem papas na língua. Uma menina do interior de Pernambuco, um tanto quanto desengonçada e suas duas amigas gêmeas. O que essas mulheres  tem em comum? Todas tiveram a vida completamente mudadas pela fenômeno da empatia na internet.

Jojo Todynho, Mc Loma e as Gêmeas Lacração foram as grandes revelações musicais do último carnaval. Com o sucesso Que tiro foi esse, Jojo conseguiu a incrível marca de 182 milhões de visualizações no YouTube, além de vários shows e presenças pagas em eventos. Mc Loma e as Gêmeas Lacração tiveram seu clipe caseiro regravado e bateram a marca de 184 milhões de visualizações na nova versão de Envolvimento. Não conseguiriam nada, não fosse o talento e autenticidade que elas tem, mas uma madrinha de peso colaborou muito com essas artistas. Jojo teve sua divulgação mais intensa quando participou, à convite de Anitta, do clipe Vai malandra. Já Mc Loma teve seu clipe original promovido no Instagram de Anitta , a brasileira mais seguida na rede social, além da uma participação especial em um show da cantora.
 
Esse processo de reconhecimento de identidade é muito importante na formação cultural de um país, especialmente quando uma mulher que teve a carreira subjugada por explorar sua sexualidade se torna catalisadora de sucessos. Assim, figuras de origem pobre e periférica se inserem em um círculo muito restrito, como o da fama, criando-se uma mídia  mais representativa. Para o público, é importante se ver representado por modelos reais, em que os estereótipos são derrubados, dando espaço para que novos conceitos de aceitação sejam construídos.

 
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