Amor comercial

Na data mais romântica do ano, empresas de publicidade fazem malabarismos para se esquivar do ódio

Por Marcos Braz

Com a proximidade do dia dos namorados, o comércio já está se organizando para realizar as vendas do dia e, para impulsioná-las, investe pesado em publicidade. Até porque o amor nunca foi tão rentável: no ano passado, a data movimentou 1,65 bilhão de reais, segundo o governo federal, sendo a terceira maior para o comércio varejista, perdendo apenas para o natal e dia das mães. Tendo em vista o potencial da comemoração, o mercado se adapta para alcançar o maior público possível e ter resultados positivos nos caixas.

No intuito de tocar um público mais abrangente, diversas marcas investem na diversidade em suas campanhas. Empresas como C&A e OBoticário trouxeram, em anos anteriores, temáticas bastante polêmicas, como a relação gay no mídia.  A empresa de vestuário trouxe, em sua publicidade, casais que trocavam de roupa ao se beijar — o homem ficava com a roupa da mulher e vice-versa, que alguns interpretaram como alusão à identidade de gênero. Junto ao vídeo, o slogan  “misture, ouse e divirta-se”. Já a marca de cosméticos trazia uma campanha que contemplava diversos tipos de casais, entre eles o de homossexuais — que apareciam no comercial trocando presentes e abraços. O conceito de representar a diversidade de relacionamentos, mesmo que de maneira sutil, gerou a revolta de classes mais conservadoras.

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Imagens do vídeo publicado por OBoticário .

O público dividiu opiniões sobre o assunto. “OBoticário perdeu a noção da realidade, empurrando essa propaganda que desrespeita a família brasileira. Não tenho preconceito, mas acho que a propaganda é inapropriada para a TV aberta! A partir de hoje não compro mais nem um só sabonete lá; e eu era cliente”, escreveu um consumidor no Reclame Aqui, site de reclamações sobre produtos e serviços. Já a apresentadora e ativista LGBT Selma Light  declarou: “Achei muito legal uma empresa como a OBoticário ter coragem de dar opinião sobre algo que há muito deveria ter sido abordado. A represália vem dos intolerantes, não tem justificação, não tem nada de agressivo no comercial. É ingênuo, sensível, mostra um abraço entre os casais, não tem beijo, nem apelo sexual. Mesmo com a represália a empresa não recuou, eles responderam muito bem às críticas”.

Líderes religiosos como Ana Paula Valadão e Silas Malafaia repudiaram a iniciativa das marcas. Sobre o comercial da empresa de cosméticos, disse o pastor em vídeo postado por ele em seu canal do YouTube: “Quero conclamar as pessoas de bem que não concordam com essa promoção de homossexualismo através de propaganda para boicotarem os produtos de OBoticário. Vai vender perfume para gay!”. Segundo ele, a propaganda incentiva a homossexualidade. A cantora gospel Ana Paula Valadão se pronunciou em seu Instagram contra a campanha da C&A. “Hoje decidi manifestar minha ‪#‎SantaIndignação‬ porque acredito que estão provocando para ver até onde a sociedade aceita passivamente a imposição da ideologia de gênero”, escreveu a artista com 1,7 milhão de seguidores.

Com o tom de abordagem diferente e para aproveitar a proximidade da copa, a C&A convidou Bruna Marquezine e Neymar Jr  para estrelar a campanha de dia dos namorados desse ano. Ambientado em uma sala de estar, o vídeo mostra o casal trocando caricias enquanto tiram fotos um do outro. Vestidos em roupas íntimas, a publicidade explora um teor  sexual dos dois, e, ao contrário do que aconteceu em outros anos, a campanha foi quase que unânime na aceitação do publico. “Estou muito apaixonada por essas fotos de melhor casal ‘br’ sim deu até vontade arruma um namorado QUE HINO”, escreveu uma internauta no Twitter.

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O público está cada vez mais sensível à desrespeito nesse tipo de mídia, mesmo entre casais heterossexuais há rejeição quando existe alguma irregularidade. Em publicidade para o dia dos namorados, a marca Reserva usou o Instagram para promover um vídeo com os dizeres “Eu sei o que você quer de presente” e quando o usuário aumentava o volume era surpreendido com o “gemidão do zap”, um áudio em alto volume de uma voz feminina gemendo em ato sexual. A marca se mostrou machista ao colocar o sexo vindo de uma mulher como moeda de troca. Na internet, houve manifestações contrárias, vindas de pessoas que se sentiram ofendidas, mas, também, teve quem defendesse alegando ser apenas uma “brincadeira dos publicitários”.

É importante lembrar que no Brasil há o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o CONAR. “Uma instituição que fiscaliza a ética da propaganda comercial veiculada no Brasil, norteando-se pelas disposições contidas no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária”, como se descrevem. Sempre que alguém se sentir incomodado com algum aspecto de uma campanha pode recorrer ao órgão, que irá julgar a adequação da peça publicitária. Foram feitas denúncias sobre a campanha “Casais” da O Boticário, mas o CONAR julgou não haver irregularidade ou obscenidade no anúncio

A grande questão enfrentada pelo mercado publicitário é representar os casais de maneira que impulsione as vendas mas não deixe de lado a responsabilidade social que as marcas têm com o seu público. As mídias publicitárias tem um papel muito importante na formação dos valores de uma sociedade, expor os mais diversos tipos de casais é criar um ambiente empático para que as pessoas sejam livres para amar e se sentir amadas, sem a sombra de uma sociedade preconceituosa julgando seus sentimentos.

 

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