Falando sobre suicídio

Porque é importante discutir o suicídio e qual o papel da mídia neste contexto?

Por Carlos Augusto Rocha

O suicídio é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) caso de saúde pública, visto que são cerca de 800 mil casos todos os anos, sem contar as tentativas. Estima-se que, para cada caso fatal, haja pelo menos 20 tentativas fracassadas. Para se ter uma ideia da magnitude desta problemática, o ainda de acordo com a OMS, o mesmo é responsável por mais mortes – entre jovens – do que o vírus HIV, sendo superado apenas por acidentes de trânsito. Mas por que um assunto tão relevante como este não tratado com mais relevância? E até é vetado pelos grandes veículos de comunicação? Isso acontece porque existe uma convenção extraoficial da categoria que determina que suicídios não serão noticiados pela imprensa, justificado que tanto pelo respeito a dor e a privacidade da família quanto pela ética jornalística que busca não influenciar novos casos.

A questão maior que cerca essa problemática é que ela sendo pauta de discussão possibilita criar estratégias de combate e campanhas que terão um alcance muito mais significativo, impulsionados pela grande mídia. A questão ética ainda precisa ser preservada, a pessoa que tira a própria vida deve ter a sua privacidade respeitada e as causas ou possíveis causas para o ocorrido não devem virar motivo de atração.
Cercado por tabus, o suicídio é um assunto que deve ser tratado com muita delicadeza e responsabilidade. Atualmente, entre a grande mídia, a série 13 Reasons Why da Netflix é uma das poucas produções que fala abertamente sobre o assunto. Muito controversa, a série não segue as recomendações da OMS que aconselha evitar que se romantize o ato, retratá-lo como resposta aceitável às dificuldades e que não se inclua detalhes sobre a pessoa que faleceu.
Talvez o grande erro da série em relação a como é retratado o suicídio seja não apontar em momento algum uma saída para sua protagonista e deixar a impressão de que pedir ajuda não é a solução, porque ninguém se importa. A segunda temporada que estreou recentemente traz no prólogo do episódio inicial uma mensagem falando sobre o conteúdo delicado da série, avisando não apenas sobre o suicídio, mas sobre outros temas relevantes. Ela aconselha que pessoas com tendências depressivas  não assistam a série devido ao seu conteúdo forte, e mais importante, deixa claro que a série quer estimular conversa sobre o tema, além de destacar o quão essencial é conversar com alguém, seja um familiar ou um especialista.
Muitos assuntos que já foram considerados tabu hoje são tratados de forma muito séria em produções que circulam na grande mídia. Um exemplo que podemos citar é a Aids, uma doença estereotipada e cercada de preconceitos, que precisou do apoio de muitos veículos para que houvesse esclarecimentos, quebra de estereótipos e consequentes campanhas eficazes para a prevenção. Nada disso seria possível se os meios de comunicação se mantivessem silenciosos.
No Brasil, o 8° país no ranking com maior quantidade de suicidas, as telenovelas são uma grande forma de se comunicar com  a população, as emissoras deveriam usar mais este instrumento a fim de fazer ações sociais e o assunto deveria ser evidenciado de forma muito bem trabalhada, com muita responsabilidade. As campanhas de prevenção não deveriam ganhar destaque somente no mês de setembro – mês de combate ao suicídio (Setembro Amarelo) – mas deveriam ser amplamente divulgadas, a fim de conscientizar, informar que existem soluções e que tirar a própria vida não é uma delas.
Fica clara a negligência ao vincular uma matéria sobre quem tira a própria vida, que não trate o assunto de forma ética e consciente.
A Associação Brasileira de Psiquiatria elaborou um manual que tem como intuito servir de referência para a mídia. Intitulado Comportamento Suicida: conhecer para prevenir, traz dados sobre os números suicidas, fala sobre o quão importante é a prevenção e aconselha em como se deve abordar este tipo de tragédia.
O Centro de Valorização da Vida (CVV), responsável pela campanha Setembro Amarelo, mantém contatos em seu site que buscam exclusivamente manter diálogos com a imprensa e colaborar com pautas ligadas à valorização e à prevenção do suicídio.
Os meios de comunicação, de forma geral, seja por meio de jornais, programas, novela ou filmes, tem o dever social de abordar este tema de forma séria e responsável, para contribuir para a compreensão e prevenção deste caso de saúde pública, e de lembrar que se abster de falar talvez não seja uma boa solução.

 

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