De novelas a jornais: como a mídia retrata adoção?

Veículos de comunicação influenciam a discussão sobre o tema

Por Dayanne Soares

A temática adoção vem sendo abordada na mídia de diferentes formas. Há forte tendência para o debate por meio de filmes, telenovelas, séries de TV e de serviços de streaming, como Netflix, e até mesmo com personagens de histórias em quadrinhos. O aumento da exposição do tema na mídia influencia nas mudanças que ocorrem na sociedade quanto ao tratamento sobre o assunto.

É possível observar com mais frequência a discussão na TV brasileira desde que adoção foi o ponto de partida para o núcleo central da novela Páginas da Vida (2006/2007), da Rede Globo, com a história de adoção de uma criança com Síndrome de Down rejeitada pela família. A questão foi retomada em outros folhetins da mesma emissora, como Salve Jorge (2012/2013), Amor à Vida (2013), Totalmente Demais (2016) e atualmente, é uma das camadas de construção da personagem Manuela, interpretada por Luisa Arraes em Segundo Sol, atração do horário nobre.

De forma semelhante, tem crescido o número de seriados que representam a formação de uma família não tradicional com adoção por casais homoafetivos, tais como em Modern Family, Brothers and Sisters e, mais recentemente, em 13 Reasons Why. A dinâmica das relações familiares nas séries citadas se diferencia das mostradas nas telenovelas brasileiras por não focar na questão da adoção, mas por explorar com mais naturalidade os dramas cotidianos dessa nova configuração familiar.

Há uma resistência na teledramaturgia brasileira em representar os problemas que afetam a vida de quem foi adotado sob uma determinada ótica, como se o fato de não conviverem com pais biológicos fosse a causa de seus problemas. Esse é um dos conflitos apresentados por Manuela. Ela também reflete o estigma do personagem que é rebelde porque vem de um lar desfeito. A utilização do arquétipo do jovem problemático para representar pessoas que foram adotadas, incluindo envolvimento com drogas e/ou violência, reflete o preconceito que ainda se impõe sobre esse grupo.

Meios de comunicação de massa propagam informações e atuam ditando padrões e pertinência de novas tendências. Portanto, é possível verificar o poder da mídia no crescimento do debate sobre adoção para além da maternidade de quem não consegue ou não deseja constituir família biologicamente, como era há alguns anos. A adoção tem crescido como “visão social”, e essa ideia é reforçada em forma de notícia quando é realizada por pessoas famosas.

É com base nesse poder de influência das novas mídias e no alcance das redes sociais que as Varas da Infância e Adolescência do Brasil desenvolveram um programa que busca dar visibilidade a crianças e adolescentes que aguardam na fila para receber um lar, segundo artigo sobre adoção tardia da BBC, de 31 de maio. A proposta consiste na divulgação de vídeos feitos pelas crianças com frases como “Você quer ser minha família?”.

Segundo esse artigo, o programa não tem intenção de “colocar as crianças em prateleiras” visto que tudo é realizado com o consentimento delas. A postagem dos vídeos nas redes sociais, tais como Facebook, Instagram e canais do Youtube, de Tribunais de Justiça de vários estados, conseguiu alcançar o objetivo, com diversos casos de adoção de crianças e jovens que não se encaixam no perfil médio dos inscritos no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). A ação tem modificado o padrão de pais cadastrados, que até o ano 2000 contava com uma procura maior por crianças de até três anos, tendo a média aumentado para oito anos.

Esse projeto tem alcançado resultados por quebrar o estereótipo de adolescentes problemáticos e com vícios, no caso de adoção tardia. Os vídeos evidenciam o desejo desses jovens de encontrar uma família. As conquistas do programa refletem que as redes sociais aproximam os jovens e adolescentes de futuros pais porque desperta a empatia e permite a identificação de sonhos em comum.

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Milton Nascimento, Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso participaram do Conversa com Bial no dia 25/05/2018 (Foto: Ramón Vasconcellos/TV Globo)

O dia 25 de maio é considerado no Brasil o Dia Nacional da Adoção, e na data, foram publicadas reportagens no site de vários jornais, como Folha de São Paulo e G1. As publicações expõem que a dificuldade no processo de adoção não está na falta de pais cadastrados – cinco vezes maior que o número de crianças, segundo o CNA –, mas nas condições para seleção. Os maiores entraves são a exigência de crianças mais novas, brancas, sem irmãos e que não possuam problemas de saúde. A pauta foi, inclusive, tema do Conversa com Bial, que foi ao ar no mesmo dia, com participação de Milton Nascimento, Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank.

As reportagens têm sido fundamentais para desconstruir os mitos que rodeiam o processo de adoção, com explicações sobre como realizar o cadastro e as dificuldades que as crianças enfrentam para ter um lar afetuoso e definitivo. Embora o tratamento do assunto em teledramaturgias ainda carregue arquétipos negativos, a divulgação em grandes veículos tem papel fundamental para voltar os olhos da sociedade para essa discussão. A influência das mídias pode não apenas acarretar uma transformação no perfil de quem busca acolher uma criança em sua família, mas em todo o processo de adoção no Brasil.

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