Representatividade retroativa

A irresponsabilidade em usar a sexualidade de personagens como isca para atrair a comunidade LGBT

Por Victor Cesar Borges

Alvo Dumbledore era gay. Essa informação foi confirmada pela autora britânica J.K. Rowling em 2007. A última aparição do personagem na saga Harry Potter  foi em 2005, no livro O Enigma do Príncipe. Desde então, Rowling já revelou várias informações sobre diversidade na sua célebre série literária. No entanto, não há realmente nenhum indício dessa representatividade nos livros e Rowling confirmou que na franquia Animais Fantásticos seu relacionanento com Grindenwald, outro mago, supostamente seu interesse amoroso não será abordado.  Já Lando Calrissian foi introduzido no universo de Star Wars em 1980. Porém, só em maio de 2018 foi confirmado por Jonathan Kasdan, roteirista do filme Han Solo – Uma História Star Wars, que o personagem é pansexual.

Uma personagem LGBT ou uma trama que aborde questões características dessa comunidade pode causar sérios danos à recepção de um produto midiático, principalmente se destinado a crianças. A repercussão negativa em parte do público pode chegar ao boicote e assim prejudicar a faturação do produto. Mas a falta de diversidade também pode gerar a mesma reação. Por isso, autores e roteiristas procuram uma forma de agradar a todos.

Essa dinâmica é mais presente em filmes de franquias já estabelecidas de produtoras renomadas. Um dos melhores exemplos é a Companhia Walt Disney, proprietária das franquias Star Wars e do Universo Cinematográfico Marvel – UCM. As produções Disney são igualmente assistidas no mundo inteiro pelo público conservador e progressista, mas, de forma geral, a maior parte dos espectadores e dos valores da empresa são conservadores, logo, não colocam personagens ou tramas que possam desagradar essa parcela do público sem antes tentar prever a recepção que receberão.

Em HQs e romances do universo expandido de Star Wars já havia personagens descritos com uma implicita sexualidade não heteronormativa, como a almirante Holdo. Em um romance é sugerido que ela seria bissexual, mas no filme Star Wars – Episódio VIII: Os Últimos Jedi, o único em que a personagem aparece, isso não é mencionado em momento nenhum, apesar de produtores da franquia, como o diretor do primeiro filme da nova trilogia J.J. Abrahams, já terem expressado opiniões favoraveis à inclusão de personagens LGBT na franquia.

Já o UCM tem uma dinâmica diferente. Seus personagens, teoricamente, são reflexos diretos de suas contrapartes nos quadrinhos, mas a sexualidade de personagens importantes são omitidas. Fãs dos heróis frequentemente pedem a introdução de personagens LGBT nos filmes e o presidente da Marvel Studios, Kevin Feige, falou que a empresa está trabalhando nisso, contudo, já existem  personagens não heterossexuais nos filmes que têm sua sexualidade omitida. Em dois filmes diferentes, Thor: Ragnarok com Loki, Valquíria e Korg e Pantera Negra com Okoye e Ayo, cenas que explorariam a orientação sexual desses personagens foram cortadas ou não chegaram a ser filmadas. Dessa forma a representação LGBT da Marvel Studios está presente apenas nas séries para a TV e Netflix.

Gay & Lesbian Aliance Against Defamation – GLAAD, organização não governamental americana que monitora a forma como LGBTs são representados na mídia americana, divulgou em seu relatório anual a porcentagem de LGBTs em 109 filmes de 14 estúdios. Apenas 12,8% das produções de 2017 tinha personagens que se identificavam como não heterossexuais, uma queda de 5,6% em relação aos 125 filmes analisados em 2016. Esse relatório mostra estatisticamente a espécie de invisibilização sofrida pela comunidade. Personagens não heterossexuais são, na maior parte do tempo, usados como alívio cômico ou apenas para dar suporte a outros personagens.

Portanto, estúdios usam a diversidade apenas como uma espécie de isca para atrair o público LBGT e assim expandir seu mercado. Porém, na tentativa de  não despertar repercussões negativas de homofóbicos e conservadores, tornam-se irresponsáveis, ao se aproveitarem da falta de representantes da comunidade na mídia para obter maior lucro e engajamento, mas sem ter que se propor a fazer algo que realmente ajude de alguma forma uma minoria social. Dessa forma, fica claro que a responsabilidade social para com uma comunidade é irrelevante em comparação com o lucro que ela pode gerar.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s