Política de boa vizinhança

O jogo que envolve grandes veículos de mídia no mecanismo político

Por Marcos Braz e Lorena Fraga

No dia 2 de junho, a Agência de Fiscalização do Distrito Federal iniciou uma operação de retirada de placas publicitárias na região central de Brasília. A área do Setor Bancário Sul, que é tombada, assim como toda a região central da cidade, abrigava por volta de dez grandes suportes para anúncios. A medida tomada pela Agefis tinha como intuito retirar seis desses suportes, entre eles o painel de anúncios do jornal Metrópoles.

O jornal, que afirma ter todas as autorizações necessárias para instalar e utilizar o painel, declarou repúdio ao governador  do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, responsável por decretar a operação. Segundo o Metrópoles, a ação foi uma clara retaliação aos anúncios que o portal divulgava em sua página e no telão. Além de publicações que criticam e acusam o governo de má gestão, uma peça publicitária que envolvia o nome de Rollemberg foi veiculada pelo periódico, gerando desconforto no Palácio do Buriti.

No anúncio, que teria sido o gatilho para a indisposição com o governo, uma criança em um hospital é a imagem de fundo, enquanto o texto em destaque diz: “Governador Rollemberg, ajude a salvar o Mateus. Ele precisa de uma UTI urgentemente”.

A matéria tratava sobre Mateus Ferreira, que nasceu com má formação cardíaca e precisava de um leito de UTI. O direito à vaga foi concedido pela justiça mas ignorada pelo poder público. A mãe do garoto procurou o jornal em busca de alguma ajuda. Com a publicação no painel, o menino pôde ter acesso a um leito 40 horas depois.

Oito dias após o início da veiculação dessa campanha no grande telão, a operação foi acionada.

A mídia tem um papel decisivo no processo político e eleitoral em qualquer instância. No âmbito regional, especialmente no Distrito Federal, esse papel se torna ainda mais relevante. Para um governo que manteve sua popularidade abaixo de 10% durante tudo seu mandato, como foi o de Rollemberg, o apoio da mídia é essencial para tentar a reeleição. Nesse esquema, forças políticas muitas vezes estão por trás dos grandes veículos de comunicação, manipulando ou influenciando o conteúdo divulgado a fim de ter controle intelectual da massa.

Mídia e política

O jornal Metrópoles pertence ao senador cassado Luiz Estevão, que está cumprindo pena na Papuda. Em Alagoas, a família Collor é detentora da rede Gazeta de Alagoas, muito influente no estado, e, de maneira semelhante,  muitos outros políticos detêm grandes veículos de imprensa. A proximidade  entre a política e a mídia pode gerar perdas enormes no direito à democracia,  à liberdade de pensamento e expressão.

A República Velha foi o primeiro modelo republicano conhecido pelo Brasil após a independência, e o período entre 1889 e 1930 foi marcado por uma economia concentrada na produção rural. A elite era caracterizada pelos grandes fazendeiros e com sua influência e dinheiro, e os chamados “coronéis” eram os responsáveis por comandar o cenário político do país.

Por meio da compra de títulos militares, eles ampliavam seu poder político e conseguiam manter sob controle a tomada de decisões sociais e econômicas de uma determinada região, e esse sistema, claro, influenciava diretamente a vida da população mais pobre. Com a revolução de 1930 e a campanha iniciada por Getúlio Vargas, o modelo marcado pelo “voto de cabresto” começou a perder força no país.

Hoje, mais de cem anos após o início da República Velha, a nação ainda convive com vestígios do século 20 arraigados na sua política. “Coronelismo eletrônico” é um termo usado para definir o uso das concessões de radiodifusão no Brasil como moeda de troca para o jogo político, gerando impacto direto e sério no contexto social do país.

Apesar de atrasada, a lei que regulamenta a mídia no Brasil é bem clara quanto à concessão de canais de rádio e TV para políticos e grupos empresariais. O artigo 220 da constituição federal de 1988, que rege o país atualmente, é enfático quando diz, no inciso 5º, que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.

Quando a informação é tratada como moeda de troca e a mídia é posta como produto com valor alto de compra no mercado político, a democracia é ilusória. O jornalismo posto como o “cão da guarda” dos interesses sociais torna-se um animal de estimação adestrado que obedece aos interesses de seu dono.

Os malefícios desse jogo, às vezes, passam batidos no cotidiano, mas em horas nas quais a política é a principal pauta do país – como na época de eleições, que se aproxima – é possível notar na prática os prejuízos de colocar a mídia a serviço do governo e não do povo.

O caso do portal Metrópoles é, sem sombra de dúvidas, censura. O veículo possuía autorização para utilização do espaço para propaganda, apesar da área ser tombada. Como não foi agradável para o governador e sua imagem, o painel foi retirado. O GDF ainda exaltou, em nota, segundo o próprio portal, que o veículo não deveria se esquecer que só puderam usar aquele espaço após alguns favores concedidos pelo governo.

Mesmo com o apoio de vários jornalistas, o apelo do portal denunciando a censura passou desapercebida pelos moradores do DF. Talvez a população, recuperando-se aos poucos dos prejuízos ocasionados pela greve dos caminhoneiros, não tenha dimensionado a gravidade do ocorrido.

A política e a informação feitas nas elites, com concessões dadas por interesse de campanha, não têm apelo em uma sociedade anestesiada pelo tempo falho em que sua democracia vive. Sendo assim, não é de se esperar que a medida cause revolta, até mesmo entre os leitores do portal.

Enquanto esse panorama não for de alguma forma modificado, perde a mídia, perde o povo, perde a democracia e ganham os detentores do poder. Com a vasta história do Brasil, não há datado nenhum caso, em que a população tenha lutado em favor dos coronéis que estavam no poder. E a exemplo da greve dos caminhoneiros, percebemos que a política pode até ser feita nas elites, mas o Brasil de verdade acontece nas massas, que, quando resolvem lutar por aquilo que lhes é de direito, são capazes de deixar até mesmo o mais poderoso dos políticos de mãos atadas à espera de combustível para o seu avião.

 

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