Oito mulheres e um diretor mal humorado

Uma revisão, com spoilers, sobre um filme feminino dirigido e escrito por um homem

Por Marcos Braz

“Eu saí do Ocean’s 8 mais convencida do que nunca de que nenhuma quantidade de conjuntos femininos fantásticos e ferozes pode superar a mediocridade de um diretor masculino chato”, escreveu Emily Yoshida para Vulture, importante portal norte-americano sobre cultura pop.

Lançado na última semana, o filme é derivado do remake de 2001, estrelado por George Clooney, do clássico de 1960, 11 Homens e um Segredo. Ao mostrar a perspectiva feminina de um grande assalto, a trama de 2018 segue a mesma receita dos anteriores da franquia: Um dos Ocean planeja um grande roubo mirabolante.

O filme traz um elenco de peso, grandes nomes de Hollywood trouxeram seus talentos para abrilhantar o longa. A veterana Sandra Bullock vive, no filme, Debbie Ocean, irmã de Danny Ocean, protagonista das versões anteriores. A super estrela da música, Rihanna, vive Nine Ball, uma hacker capaz de invadir qualquer sistema. Cate Blanchett, Awkwafinca ,Sarah Paulson, Anne Hathaway, Mindy Kaling, Helena Bonham Carter completam o time das oito incríveis mulheres. Já a equipe técnica traz Gary Ross na direção e, junto com Olivia Milch, ele assina o roteiro.

Apesar de ter esse elenco e um enredo rico e dinâmico, como os de sequências de roubos, à sua disposição, o filme não inova e cai na mesmice de uma historia óbvia que diverte mas não surpreende.

A crítica ficou dividida sobre a qualidade da produção, mas a unanimidade é que o grande elenco, feminino e poderoso, foi subestimado por um diretor que não confiou nos talentos que tinha em mãos. Atrizes premiadas como Cate Blanchett, ganhadora de dois Oscar, e a cantora Rihanna, aclamada pela crítica são colocadas no filme de forma inferior, e perdem tempo de tela para personagens masculinos que pouco acrescentam à trama. O nome das grandes estrelas brilha mais que suas personagens. A capacidade de desenvolver um enredo denso e mostrar a qualidade de suas atuações lhes foi tirado pelo trabalho apático da direção.

Porém, o grande problema do filme está fora das telas. Em uma narrativa que traz uma perspectiva de feminismo e empoderamento, mesmo que de maneira sutil e implícita, o comando de produção ficou concentrado em homens. Olivia Minch foi colaboradora, mas em um filme sobre mulheres em papeis de destaque apenas uma mulher faz parte da direção criativa e ainda sim a divide com um homem.

É no mínimo controversa a situação em que a produção foi colocada, fazendo soar falsa a promessa e expectativa de um longa feminino e impactante. Caso semelhante ao remake feminino As caça fantasmas, que antes de ser lançado já era criticado pela ausência feminina nos cargos de direção.

Outro ponto de desalinhamento com a ideia de protagonismo feminino é o roteiro que reduz a motivação  do crime a um desejo de vingança contra um homem, ao invés de ambição das protagonistas. Diferente dos filmes anteriores da franquia, nos quais o interesse em poder era a motivação maior, mais uma vez colocando um homem como força motriz da narrativa. Debbie Ocean, interpretada por Sandra Bullock, planeja o assalto durante cinco anos, na intenção de se vingar de um ex amante ao incrimina-lo pelo crime milionário, assim, colocando Debbie apenas como uma mulher movida pela vingança a um homem.

No desfecho do longa, a resolução do problema final do assalto é feita por um personagem masculino, colocando todo o desenvolvimento das personagens e da trama como menos valiosos.

O filme deixa uma reflexão para as futuras produções de massa: ninguém conhece mais a força feminina do que as próprias mulheres. Mais papeis de destaque são necessários, porém não só nas telas, mas em todos os âmbitos de produção. Segundo o site Polygraph, a cada mulher trabalhando na indústria cinematográfica existem cinco homens empregados no mesmo setor. Garantir a ocupação desses cargos de destaque pelo gênero feminino se reflete não só no ambiente de trabalho mais igualitário, mas também na qualidade dos produtos de mídia que produzem.

 

 

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