Jornalistas mulheres na Copa do Mundo

Sonho de trabalhar na cobertura da Copa do Mundo se torna dificuldade causada pelo assédio

por Kellen Barreto

Copa do Mundo, alegria, diversão, futebol, nações inteiras em festa. Para jornalistas: trabalho e emoção. Cobrir a copa não é para qualquer um. É para profissional competente, que sabe o que faz. Trabalhar em uma competição internacional de futebol é um sonho para milhares de jornalistas. Quando se é uma mulher, então, estar na cobertura de um evento desse escalão significa ainda mais, é a superação do pensamento de que apenas homens podem fazer jornalismo esportivo e entendem de futebol. É simbólico, é estar em um espaço tradicionalmente masculino.

Mas a Copa do Mundo de futebol 2018, reflete exatamente o universo dos homens, como pensam e agem diante de uma mulher. Antes da Copa, uma repórter russa, Julieth González Therán, enviada especialmente da Deutsche Welle,jjornal Alemão, Moscou, foi beijada no rosto à força, por um homem, durante a transmissão ao vivo  na cerimônia de abertura. Um torcedor islandês fantasiado ameaçou interromper a entrada ao vivo da repórter Agos Larocca, da ESPN, mas foi impedido por um produtor. Torcedores argentinos assediaram e tentaram roubar um beijo de uma jornalista, que se defendeu com o braço e com o microfone. Brasileiros protagonizaram o vídeo que rodou o mundo, em que debochavam da repórter russa que não entende português com palavras obscenas e depreciativas. Casos de assédio no mundial de futebol na Rússia não faltam.

A Copa do Mundono Brasil, em 2014, também não ficou para trás. A repórter da  Rede Globo, Sabina Simonato, foi assediada em dois momentos: primeiro ela foi beijada no rosto durante uma transmissão ao vivo na Avenida Paulista e, no outro, o beijo foi dado no Bairro da Liberdade, durante a partida entre Portugal e Alemanha. Antes de começar a Copa do Mundo de 2018, um caso chamou a atenção no México. Maria Fernanda Mora, da Fox Sports local, informava sobre a festa do título do Chivas Guadalajara na Concachampions e, durante o ao vivo, ela foi apalpada nas nádegas por um torcedor. Ela reagiu , golpeando com o microfone o agressor, que passou a insultá-la e, se não bastasse, muitos começaram a defender o  homem, chamando a jornalista de louca e exagerada, dizendo, até mesmo, frases como “merecia ser estuprada”.

Mas os casos não são de hoje. Ao redor de todo mundo, repórteres mulheres enfrentam dificuldades durante o trabalho. Em Brasília, no Congresso Nacional, parlamentares tomam liberdade para praticar a violência durante entrevistas e alguns  até fazem propostas indevidas para elas. Na rua, durante alguma apuração, personagens, entrevistados ou homens que passam no momento, ao se depararem com a jornalista ali, praticam essa violência com naturalidade e acreditam ser brincadeira.  Essas jornalistas batalharam, estudaram, buscaram se especializar para ganhar espaço. Mas, em coberturas dos jogos, a torcida masculina não pensa duas vezes antes de faltar com o respeito contra elas.

Recentemente, a repórter Bruna Dealtry, do Canal Esporte Interativo, foi beijada, à força, por um torcedor no Rio de Janeiro. Ao vivo, a repórter disse que aquilo não foi legal e continuou o trabalho. Renata Medeiros, da rádio Gaúcha, cobria uma partida entre Grêmio e Inter quando um torcedor se dirigiu  a ela com a seguintes palavras de baixo calão: “ Sai daqui, sua puta!”.

Mulheres são assediadas no trabalho. No caso das repórteres, elas carregam não apenas o desafio de realizar uma boa apuração, escrever um bom texto e transmitir informação de qualidade, como também, o peso do assédio em entradas ao vivo pela fonte, assim como, por todo o universo que a cerca. Campanhas como #DeixaElaTrabalhar foram criadas como formas de combate à violência vivida por jornalistas, não apenas esportivas, mas em todas as editorias. Não foi a primeira vez que elas se juntaram para combater os assédio sofrido na profissão. Em 2016, quando o ex-cantor Biel assediou uma repórter, um grupo de mulheres criou a campanha #JornalistasContraOAssédio.

Apesar da alegria do momento festivo de Copa do Mundo, depois de muito anos de preparação, jornalistas ainda encontram dificuldade para realizar a cobertura. Isso ocorre não por incompetência, mas por falta de respeito dos homens, criados desde crianças como donos do mundo, o que reflete, ainda hoje, na forma como tratam as mulheres. A cultura de que a figura feminina precisa se preservar ainda é forte. E a cultura de que os homens precisam aprender a respeitar as mulheres enquanto pessoas e profissionais, infelizmente, ainda parece longe de se estabelecer.

Ao longo da história, no Brasil e no mundo, mulheres morreram por lutar por direitos iguais. E quando se pensa que hoje a luta feminista é por direitos sociais, o dia a dia mostra que ainda é por direitos humanos, assim como diversas minorias. Mulheres lutam, ainda, para estar no mercado de trabalho e ser respeitadas e ouvidas da mesma forma que os homens. Mulheres ainda lutam por não ter o corpo sexualizado, para andar na rua sem medo.

 

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