ÉTICA DO ELEITOR

Por Luiz Martins da Silva 

Eleição, como qualquer evento ou temporada, tem o seu contexto e até justificativas morais. O futebol tem normas e, como diz um ilustre juiz e comentarista, a regra é clara. Ao que emendo: os lances, nem tanto. E as atitudes mudam com o tempo, ainda bem. Conta-se que Pelé vangloriava-se de ter feito gol com a mão, numa esperteza tal que o juiz não percebeu. Maradona, não só festejou, como sagrou seu logro como “a mão de Deus”. Fariam, o mesmo, hoje? Recomendariam a mesma conduta? Se você é o melhor, mas não é bom, qual é o mérito?

Hoje, noticiário, impactos: o Dalai Lama junta-se a mulheres no enfrentamento do abuso sexual – monges budistas envolvidos nessa prática. As instituições aprendem a ter vergonha de quadros imorais. A praxe corriqueira era negar e abafar. Quando a Igreja Católica faz mea culpa  e o Papa (Francisco) torna-se aliado contra a pedofilia, algo evolui, não só no plano espiritual, mas, mercadologicamente (gestão da imagem). No passado, a conduta era ‘roupa suja se lava em casa’. Mudou. Reputação é patrimônio e a melhor estratégia é prevenir desgastes; simular ocorrências; e ensaiar providências, ocorrendo. E o grande NEGÓCIO (em termos de imagem) é não ter escândalo, um foco infeccioso a ser evitado e, se detectado, tratado, ou extirpado. Publicar puder ser entendido como uma “boa prática”, proativa. Mesmo assim, pode haver leitura aberrante, tipo assim: deve ser disputa de poder entre facções’.

Não há uma lei, jurídica ou moral que isente de riscos as lides com a verdade. Helena Blavatsky: “Não há religião superior à verdade”. Vale para: indivíduo, família, igreja, empresa, instituição, partido, candidato e eleitor. Na história recente (governo FHC), um ministro confidenciou: “O que é bom eu mostro; o que é ruim eu escondo”. A lealdade não obriga denunciar o empregador, mas determina aperfeiçoar o imperfeito. Denunciar internamente é o primeiro passo; o segundo é sair se isto é método da corporação e, burrice. Se o escândalo vem a público o estrago é maior. Justifica-se precisar do emprego, mas não é válido concordar com tarefas desonestas. Nestes casos existe a “cláusula de consciência” (ampara convicções). Não é concebível demitir quem tem escrúpulos. Recorrer a advogados de sindicatos ou a defensorias públicas.

No contexto atual, você, leitor; simpatizante, militante; cabo eleitoral; ou o que seja, está disposto a trabalhos sujos para candidatos? Se eleitos, eles e você não prosseguirão com mesma índole? Há diferentes eleitores: o convicto; o emocional; torcedor (grita, xinga, acusa…); há manobras táticas (desqualificar os entrevistadores); e há baixarias fora e dentro das redes sociais. O pior dos mundos é difundir manipulações em favor ou contra. É como associar-se ao diabo, vencer a qualquer custo. Confortável, assistir ao jogo e prestar atenção nos craques que jogam bem e não precisam trapacear. Entristece ver um candidato bom, mas com para palavrões e intimidações. Mecanicamente, o instinto do atacado é o contra-ataque. Vi, por este dias, uma mesma pessoa, espalhando um áudio do Padre Marcelo. Depois, esclareceu: “É fake, mas fala a verdade”.

Questão de princípios: você está disposto a colocar pingos no is com métodos duvidosos? O Bem e a Verdade parecem precisar de muletas para andar. “Não apresse o rio, ele corre sozinho” (livro de Barry Stevens). E uma reflexão: ficaremos em paz com escusas, do tipo: fui abduzido; estava bêbado; perdi a cabeça; o Brasil estava à beira do precipício…? Em tempo: o extremo é atentar, com tiros e facadas. Cuidado para não ser atentado na microfísica do dia a dia: alfinetadas, estocadas, vírus, robôs… Pequenas malandragens são iscas para as grandes, em sentido contrário.

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