Memes e política

Será que é adequado misturar seriedade com descontração em momentos tão delicados quanto uma eleição?

Por Beatriz Teotônio

A linguagem dos memes, presente na vida de muitos brasileiros, possui importante papel de diversão e alívio cômico no cotidiano das pessoas. É comum ver esse tipo de expressão atrelado a assuntos como programas de TV, celebridades, música, atualidades e até mesmo teorias da conspiração. Porém, em época de eleições, os memes relacionados à política tomam proporções muito maiores do que o costume.

No segundo debate entre os candidatos à Presidência da República, realizado pela REDETV!, Marina Silva e Jair Bolsonaro abordaram temas como armamento, diferença salarial entre homens e mulheres, discriminação, aborto e castração química. É evidente que esses são assuntos significativos para diversas camadas sociais e que geram discussões de grande importância entre muitos brasileiros. No entanto, no Youtube é possível encontrar diversas paródias musicais feitas em cima do debate entre os presidenciáveis do REDE e do PSL.

Tudo bem que a criação de memes ocorre de forma inevitável e descontrolada. Isso até explica um dos porquês de eles serem tão efêmeros, não que necessariamente sejam algo ruim. Além disso, a espontaneidade e o fato de eles serem gerados por indivíduos comuns são o que confere tanta assimilação por diversos públicos. Porém, muitas pessoas se apegam excessivamente a memes relacionados a política, a ponto de desviar a atenção ou até mesmo ignorar assuntos sociais que merecem ser tratados com seriedade.

img_0041

Talvez para atrair eleitores, vários agentes responsáveis pelas imagens dos presidenciáveis tem optado por uma linguagem mais descontraída. No entanto, parte considerável dos usuários brasileiros do Twitter tem comentado sobre a falta de naturalidade desses memes, o que pode ter afastado alguns eleitores ao invés de aproximá-los. Caso um dos objetivos dessa estratégia seja, na verdade, amenizar a seriedade das figuras políticas, essa não deveria ser a melhor maneira de atingi-lo.

Em maio deste ano, a Assessoria de Comunicação da Presidência postou um vídeo no mesmo formato utilizado por youtubers para promover o Presidente Michel Temer que, na gravação, comenta sobre livros e séries. Os jovens, que julgaram a forma de abordagem forçada e exagerada, contribuíram para que a ação tivesse uma repercussão negativa. Já em setembro, para a campanha eleitoral do candidato à Presidência Fernando Haddad, foi postado um vídeo também com linguagem jovial e repleto de memes.  E o efeito foi bem parecido.

Nesse segundo semestre de 2018, o Brasil passa por uma eleição extremamente conturbada cujo cenário é de crise econômica, escândalos de corrupção e alta intenção de votos para um candidato que prega discurso de ódio contra mulheres, negros e a comunidade LGBT+. Talvez devêssemos questionar os limites dos memes quando tratados em contextos frágeis. Caso o limite exista ou não, os memes causam o impacto desejado na decisão do voto?

 

 

 

Publicidade

Um comentário sobre “Memes e política

  1. Alcides Barbosa Junior disse:

    Artigo bastante bem escrito e bastante crítico, que nos remete a pensar sobre nosso comportamento diante da política brasileira e da situação crítica por que passa a nossa nação. Memes são parte de nossas vidas e nos alegram com passagens hilárias ou nos entristecem com situações dramáticas ou até desagradáveis. Mas não devemos nos abater por isso, pois em qualquer situação, sempre haverá os dois lados da moeda.
    Contudo, discordo do final artigo em que cita “…prega discurso de ódio contra…”. Não podemos tomar a parte pelo todo, generalizando algo que pode ter sido pontual e fomentado por discussões acaloradas sobre questões polêmicas e/ou sensíveis. O candidato em questão não prega discurso de ódio. Ele manifesta restrições a determinadas questões como cotas, ideologia de gênero nas escolas e, de maneira alguma, manifestou-se contra mulheres, mas apenas a um episódio em que uma Deputada Federal se manifestou a favor de defender criminosos estupradores. Assim, não entendo que haja qualquer pregação de discurso de ódio.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s