Déjà vu nas redes sociais

A repetição de padrões midiáticos e seus impactos psicológicos

Por Marina Dalton

No mundo digital, redes sociais são objeto de estudo de diversas análises. Há quem coloque em pauta a substituição das relações interpessoais frente a frente e quem investigue a mudança de personalidade dos indivíduos no meio virtual. Porém, é incomum que um usuário perceba o quanto é exposto às mesmas coisas diariamente: fotos quase idênticas, memes com estilos de humor análogos e textos com temáticas repetidas bombardeiam páginas iniciais.

Isso se deve, em especial, aos reforços  e punições que chegam em forma de curtidas, comentários e compartilhamentos. Segundo o behaviorismo de Skinner, autor e psicólogo norte-americano, toda ação é uma resposta a algum estímulo anterior, mas o que realmente modifica comportamentos do indivíduo é a consequência. Esse estímulo que sucede a atitude traz recompensas e castigos psicológicos capazes de modelar ou extinguir ações.

Portanto, quem desfruta desses meios está sujeito a certo tipo de controle social — inclusive, tende a passar adiante os impactos incorporados. Por exemplo, se um jovem compartilha duas fotos e uma delas recebe três vezes mais curtidas do que a outra, a tendência é que ele volte a postar imagens naquele estilo e reforce positivamente colegas que seguem tal linha. As redes acabam por direcionar um padrão do que é considerado interessante.

Esse molde criado no inconsciente dos usuários é responsável por uma série de repetições. Modelos de fotos consideradas bonitas pelas redes ficam registradas e, involuntariamente, são copiadas. O instagram @insta_repeat produziu compilados que mostram de forma clara essa padronização.  Fotos em linhas férreas, entradas de barracas, docas, pontes, florestas são destacadas e apresentadas lado a lado, de modo a enfatizar semelhanças. Pessoas distintas possuem postagens com poses muito parecidas devido à influência psicológica causada pelas mídias.

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O mesmo aconteceu com a plataforma Tumblr, que, quando surgiu, pretendia mostrar a naturalidade e o espontâneo. Depois de certo tempo de funcionamento, criou um estilo de beleza. Fotos “sem preparo” são forjadas exatamente para seguir a tendência. Existem tutoriais no Youtube e blogs que prometem ensinar a realizar imagens nesse gênero e não é incomum os jovens utilizarem ferramentas de pesquisas para criar um acervo de inspirações antes de fotografar.

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Entretanto, o mesmo público que é esculpido pelo esquema de reforço e punição também possui o poder de ditar o que é interessante. Através de curtidas em outras postagens ou mesmo formando audiência para certos programas ou canais, o indivíduo tem papel ativo nessa padronização.

A Netflix possui um sistema de porcentagens que mostra o quanto um filme ou série combina com o estilo de um determinado cliente. Assim, mais produtos semelhantes aparecem para o usuário e, ao mesmo tempo, a plataforma consegue estudar seu público. As produções originais Netflix são criadas seguindo modelos que já fizeram sucesso antes e, cada vez mais, um padrão é gerado.

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Esse impacto é previsto por diversos teóricos da comunicação. Lazarsfeld, por exemplo, aborda a repercussão que as mídias possuem sobre o gosto popular na teoria funcionalista: a planificação, segundo ele, é papel dos meios de comunicação de massa, que trabalham com um público considerado homogêneo em termos de comportamento. Nas redes sociais, não é diferente. A planificação tem impacto direto na perda de identidade dos indivíduos. Trata-se de um jogo de interesses, uma troca de curtidas, em que todos apontam para a mesma direção. 

Fica clara, dessa maneira, a participação do indivíduo, enquanto agente, na transmissão do padrão de interesse midiático. A sensação de repetição causada pelas redes sociais se deve ao fato de mostrar o que “não tem erro”. Seguir fórmulas e estilos que já funcionam são sempre o caminho mais fácil e, em geral, o modo escolhido por quem participa desse universo.

 

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