A deslegitimação do jornalismo

Consequências do compromisso com a verdade no período eleitoral

Por Isabela Oliveira

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 137 agressões a jornalistas em âmbito político-eleitoral no decorrer do ano de 2018. Foram 75 ataques em meio digital, enquanto os outros 62 casos ocorreram de forma física. Em março, 26 jornalistas acompanhavam a caravana do ex-presidente Lula que saía de Quedas do Iguaçu (PR), quando foram atingidos por quatro tiros de um grupo contrário ao PT. Na época, a Abraji declarou que só o acaso evitou que uma tragédia acontecesse.

A maioria das agressões virtuais se devem ao fato de muitos comunicadores exporem suas opiniões políticas nas redes sociais e acabam sendo alvos de uma legião de pessoas que possuem ideias contrárias tanto no Twitter como no Facebook. O caso mais recente ocorreu com a jornalista Míriam Leitão que foi alvo de ataques de outro colega de profissão, Miranda Sá, devido a declarações contra o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL).

Além de ter sido atingida com diversas fake news no período eleitoral, a apresentadora da GloboNews comentou durante a exibição do Bom Dia Brasil na última segunda-feira, 08/10 que “Bolsonaro durante muito tempo criticou a democracia e fez a carreira em defesa da ditadura e da tortura.”

Sem título

Esse é o segundo ataque sofrido por ela em 2018, que também já tinha sido alvo de injúrias verbais de apoiadores do PT em 2017, durante um voo de Brasília para o Rio de Janeiro.

Alguns agressores online, por estarem envolvidos na mídia, se destacaram. Como o apresentador Danilo Gentilli – envolvido em três casos -, o político Kim Kataguiri – líder do Movimento Brasil Livre (MBL) – e a jornalista, e agora deputada federal, Joice Hasselmann, que assediou no Twitter outra colega de profissão. Hasselmann foi condenada por plágio em mais de 65 reportagens em 2015 e respondeu Amanda Audi, uma das pessoas que a denunciou, com insultos.

Sem título.png

A denúncia mais recente de agressão ocorreu com uma jornalista em Pernambuco no dia das eleições, 07/10. Segundo a associação, ela não foi identificada, porém ao sair do local de votação, foi abordada por dois homens, um deles usando uma camiseta escrito “Bolsonaro Presidente”. Eles proferiram discursos de ódio contra a mulher e um deles a ameaçou de estupro. Antes que isso pudesse acontecer, um carro assustou os dois homens, que feriram a jornalista com um pedaço de ferro que carregavam e saíram correndo assustados. De acordo com a Polícia Civil, todas as providências foram tomadas para identificar os suspeitos. A Abraji repudiou o ato e declarou que “a democracia é incompatível com atos de violência e intimidação contra comunicadores, especialmente em contexto político-eleitoral.” Os demais casos foram listados pela organização e podem ser visualizados aqui.

“Ofensas, assédio e ameaças a jornalistas com o objetivo de silenciá-los são sintomas de desprezo pela democracia. O direito à informação, essencial para toda a sociedade, fica comprometido quando profissionais da imprensa são impedidos de exercer seu ofício livremente”, relatou a Abraji, que se solidariza com todos os ataques.

Uma pequena solução foi pensada por jornalistas e pela associação. Uma cartilha foi lançada no mês de agosto com orientações para comunicadores lidarem com assédio online. São recomendações para um uso consciente das redes sociais e preservação da privacidade dos jornalistas, além de sensibilizar os veículos de comunicação para a gravidade dos assédios. Esses que interferem na liberdade de expressão e de imprensa, e em invés de deter seus direitos, o comunicador acaba se tornando alvo de uma sociedade que se esqueceu do próprio direito à informação e escolhe o repúdio como resposta.

O artigo 5º da Constituição, inciso III diz que ninguém será submetido a tratamento desumano. Mas por que comunicadores continuam sendo alvos se estão apenas garantindo que o compromisso com a verdade seja cumprido? Seu papel nada mais é que permitir o acesso à informação para qualquer ser humano. E se ele não pode executar sua função, para que caminho a sociedade segue?

Para uma ameaça à liberdade de imprensa. Em tempos de discussões políticas, é inevitável que posições contrárias se sobressaiam. Mas a intolerância não deveria provocar ataques entre jornalistas, e que os cidadãos ameaçassem seus próprios direitos. Direito de ir e vir sem ser vítima de agressão por executar seu trabalho.  Direito ao conhecimento para o exercício da democracia. E principalmente, direito de manifestação política sem ser rebatido com ódio.

 

Um comentário sobre “A deslegitimação do jornalismo

  1. Mario disse:

    Jornalistas que (eles sim) propagam a divisão de classes — ricos contra pobres, brancos e negros etc — que disseminam notícias falsas sobre o Bolsonaro ter feito caixa 2 no Whatsapp, entre outras mentiras, agora se fingem de vítimas. Vcs estão colhendo o que plantaram.
    Disseram que o Bolsonaro é racista. Provem. Contextualizem e provem. Disseram que era misógino. Provem. Disseram que era fascista. Provem. Cadê o fascismo? Veremos ações ditatoriais e fascistas a partir de primeiro de janeiro de 2019? É exatamente isso? Provem.
    Provem que o Bolsonaro fez caixa 2. Mostrem as provas da tal repórter Patrícia da Folha de SP, um jornal decadente.
    Disseram que o Bolsonaro era homofóbico. Vcs sabem o que é homofobia? Vou explicar: é quando um indívíduo detesta e persegue gays. Em muitos casos chega a ponto de assassinar. Quando o Bolsonaro perseguiu algum homossexual ou retirou algum direito?
    Se o Bolsonaro é homofóbico, por que TANTOS gays votaram nele?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s