Vidas negras importam

Quando um jornalista vê como bobagem um homicídio marcado pelo discurso de ódio, assume um papel na banalização do aumento das mortes de pessoas negras no país

Por Carla Moura e Luiz Oliveira

“Não vejo agressividade na campanha. Tem um capoeirista morto, mas somos 200 milhões de pessoas. Quantas pessoas morrem por dia? Temos 65 mil homicídios por ano. Aí cita uma morte como fenômeno de campanha? Aquilo é uma bobagem, minha gente. Temos 65 mil homicídios. Tivemos uma eleição sem incidentes. A vida seguiu e está seguindo, estamos indo para o segundo turno”, defendeu o jornalista Ricardo Boechat em seu programa, na rádio BandNews FM.

A morte em questão é de Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katendê, mestre de capoeira, compositor e dançarino baiano, que foi assassinado por Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos, após discussão política. Ao sair de um bar no Engenho Velho de Brotas, na região central de Salvador, com seu irmão, Mestre Moa levou 12 facadas de Paulo Sérgio, eleitor do candidato Jair Bolsonaro (PSL), após declarar voto no primeiro turno para o candidato Fernando Haddad (PT).

Ao classificar como uma bobagem, Boechat está dizendo que a morte de Moa, um homem negro, não tem  relevância, pois segundo ele, são mais de “65 mil homicídios por ano”, logo, representa apenas uma morte a mais.

Contudo, não deve ser de seu conhecimento que, segundo o Atlas da Violência de 2018, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 23,1% em relação a 2016, apontando que 71,5% das pessoas que foram assassinadas, no mesmo ano, eram negras, enquanto os homicídios de pessoas não negras diminuiu 6,8%.

Portanto, o assassinato do Mestre Moa representa o sistema estrutural que mata diariamente a população negra no Brasil: o racismo. Assim, é inadmissível que um jornalista com uma grande influência menospreze a morte de um homem negro. Ainda mais em um momento tão crucial como o que o país está passando.

No Brasil, tem se evidenciado um aumento de mortes por promoção política ou eleitoral, tendo um cenário de corrida presidencial, no qual Jair Bolsonaro, candidato com maior número de votos no primeiro turno, incita a violência, racismo, machismo, homofobia, intolerância religiosa, fazendo com que se instale uma onda de diversas violências praticadas por parte do seu eleitorado.

Em virtude de todos os casos acontecidos, o candidato foi questionado por um repórter sobre os atos de violência que tem ocorrido em seu nome e respondeu da seguinte maneira: “A pergunta deveria ser invertida. Quem levou a facada fui eu. Se um cara lá que tem uma camisa minha comete um excesso, o que tem a ver comigo? Eu lamento, e peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle. A violência e a intolerância vêm do outro lado e eu sou a prova disso”, defendeu.

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro, em seu livro Quem tem medo do feminismo negro, explica a seletividade que grande parte da mídia tem com pessoas negras. “As mortes de negros já estão tão naturalizadas que as pessoas agem como se fossem normal, o que acaba sendo mesmo num Estado racista”, afirma a autora. Por isso, esses casos tendem a ser vistos como menores pelos veículos de comunicação, fazendo com que apareçam falas como a de Boechat, que, infelizmente não é um caso isolado. Um exemplo disso é o programa jornalístico de maior audiência no país, o  Jornal Nacional, da TV Globo, que só noticiou a morte de Mestre Moa três dias depois do ocorrido.

Vidas negras numa lógica racista são inferiorizadas, e um dos maiores perpetuadores desse pensamento é a mídia que mediocriza diariamente a importância das mortes de pessoas negras, contrapondo o que está pautado no Código de Ética do Jornalistas Brasileiros, no Art. 6°, inciso XI: defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias.

A população negra no Brasil sobrevive todos os dias às diversas formas pelas quais o racismo se mostra e resistir é a palavra que define sua existência. Desta forma, as mortes de pessoas negras devem ser reconhecidas e cobradas diariamente  por aqueles que têm a responsabilidade de informar à população.

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