Dois mil novecentos e oitenta e quatro

Crise de desinformação e seus perigos para a sociedade

Por Ana Laura Pinheiro

Em 1949, o escritor inglês George Orwell publicou o romance 1984. O livro retrata uma sociedade onde a democracia já não tem vez e o totalitarismo é mantido por um único partido que estrutura os seus governos em quatro ministérios. Um deles é o Ministério da Verdade, responsável pela falsificação de documentos e de notícias que circulam no universo do livro. Na  sociedade da obra literária, existe uma metáfora às classes mais baixas: os proletas, cuja participação política é inexistente, uma vez que eles não são capazes de pensar criticamente.

Quase 70 anos depois da publicação do livro e um pouco antes das eleições americanas, o chefe do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais da Universidade de Michigan, Aviv Ovadya, alertou para o risco de uma crise de desinformação generalizada. Essa situação traria à tona episódios como: áudios e vídeos de políticos com suas falas manipuladas, fotos e vídeos adulterados que “sugerem” a participação de determinado indivíduo em um evento polêmico, como uma manifestação e até a inverídica impressão de apoio popular através da utilização de robôs. A essa instabilidade, Ovadya dá o nome de “Infocalipse”: o apocalipse da informação.

É exatamente esse cenário que o Brasil enfrenta hoje. Tudo isso pode ser encontrado nas redes sociais, como o Facebook, WhatsApp e Twitter, frequentemente, com uma aparência realista: algo semelhante, ou igual a uma notícia. São as chamadas fake news, que podem colocar em risco diversas esferas da sociedade, como a saúde e a democracia.

Megan Molteni, escritora especialista em assuntos de saúde, explicou em seu estudo “When WhatsApp’s Fake News Problem Threatens Public Health” (Quando o Problema das Notícias Falsas no WhatsApp Ameaça a Saúde Pública) o porquê de a febre amarela ter se espalhado tão rápido no Brasil durante o último surto, ocorrido entre 2017 e 2018 (o mais mortal desde 1980). Foi tudo fruto de uma série de boatos que envolviam conspirações governamentais e falsos  efeitos colaterais da vacina difundidos no WhatsApp.

Aviv Ovadya ressalta o fato de que em um futuro próximo, com o avanço das fake news, haverá um profundo sentimento de dúvida incessante da realidade. Nesse contexto, as pessoas estarão sujeitas a uma fragmentação da realidade, causada por um sentimento de incompreensão dos fatos. Logo após isso Grande parte da população, em especial a menos mediatizada, estará fadada à apatia. Assim, os receptores da informação simplesmente não tentarão mais distinguir o que é verdade do que não é.

Essa apatia é prejudicial às relações entre os indivíduos, uma vez que as pessoas podem começar a achar tudo muito complicado de entender e desistirem de se importar com o que, de fato, acontece no mundo. Isso pode construir — e já está construindo — uma conjuntura na qual as pessoas tendem a se isolar, cada vez mais, em suas próprias bolhas e desqualificar os argumentos que elas discordam, além de não confiar em mais ninguém e, possivelmente, extinguir os debates.

Sendo assim, a democracia também pode ser prejudicada. Um governo popular só pode existir se os cidadãos que compõem a população forem capazes de tomar as próprias decisões com base no conhecimento de mundo adquirido a partir das suas experiências.

Dentre essas experiências estão conversas e absorção de informações. Se esses diálogos param de existir de forma crítica, ou seja, se eles apenas acontecem entre seres que concordam entre si, o conhecimento de mundo não pode ser renovado e dificilmente executará as mudanças que a sociedade tende a sofrer com o passar dos anos. Além disso, se as informações perdem a credibilidade e qualidade, devido ao fenômeno das fake news e à atual facilidade de difusão de mensagens nas redes sociais, essas informações se degradam e degradam também as ideias dos receptores, porque eles não terão no que se basear para tomar as decisões necessárias em uma eleição, por exemplo.

É estranho pensar que essa realidade pela qual o mundo inteiro tem passado não vem de um livro distópico ou de um filme de ficção, ela vem do meio digital, em que cada um está inserido, todos os dias, por meio de uma tela.

2 comentários sobre “Dois mil novecentos e oitenta e quatro

  1. Mario disse:

    Notícias falsas sobretudo de jornalões tradicionais, como Folha de SP. A mídia alternativa é a única forma que temos hoje pra nos informarmos sem a contaminação dos grandes veículos que se venderam por conchavos políticos. Os maiores jornais do Brasil são financiados por corruptos e organizações, como o próprio PT.

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