À Moda antiga

Como Marocas, personagem de O Tempo Não Para, é usada como ferramenta contra o machismo

Por Ingrid Ferrari

Não é novidade que o mundo é cheio de valores machistas enraizados na sociedade. As mulheres se habituaram a receber vários comentários que, de alguma forma, menosprezam-nas, mas elas são capazes de argumentar contra seus emissores. A personagem principal da novela transmitida às 19h na Rede Globo, O Tempo Não Para, é utilizada como instrumento de educação sutil contra práticas machistas veladas.

O movimento feminista surgiu no século XIX juntamente com o movimento sufragista, no qual as mulheres passaram a questionar o papel que lhes era imposto pela moral comum da época em relação à responsabilidade pela casa e família como única opção possível. Formado principalmente por mulheres inglesas, o sufrágio feminino lutou pelo direito do voto para esse grupo. Hoje, o mundo passa pela terceira onda do movimento feminista, um momento histórico relevante de efervescência militante e acadêmica onde determinadas pautas e questões das mulheres se insurgiram e dominaram o debate, que foi transformado ao longo do tempo, formando vários subgrupos, termos e pautas novas.

Nem sempre o melhor jeito de mostrar que alguma coisa está errada é sendo rude e radical, algumas situações necessitam de um pouco de calma e paciência. Assim é como O Tempo Não Para, a atual novela das sete, trata sobre o embate entre feminismo e machismo. A obra de Mário Teixeira trata de uma família do ano de 1886, que após um acidente de navio, congela no mar da Patagônia e reaparece 132 anos depois, em 2018, no litoral de São Paulo. Os congelados, como são chamados, sofrem um choque de cultura, mas é o processo de adaptação deles ao novo mundo que é o fator mais interessante. Desde o início da novela, vê-se que existem algumas temáticas que são polêmicas tais como racismo e questões de gênero, mas principalmente o machismo arraigado. Com uma personagem principal que defende a liberdade da mulher, Marocas (Juliana Paiva) é filha de um capitalista e fazendeiro do século XIX. Uma mulher abolicionista, republicana e, dentro do possível para o seu contexto histórico, feminista. Desde seu despertar, traz, em doses singelas e precisas, um discurso que contraria as atitudes machistas que rodeiam o cotidiano das mulheres e consegue mostrar ao público que o movimento feminista não é tão radical como muitas vezes parece ser.

Para muitos, o tema feminismo vem acompanhado de um discurso de ódio aos homens, estereótipos de mulheres que não se depilam, nem têm valores conservadores, como os exaltados na revista Veja em 2016, com a primeira dama Marcela Temer. Um grande engano. Mulheres que defendem a igualdade de gênero não têm rótulos, têm princípios morais, sociais e culturais, ou não. Mário Teixeira, ao compor Marocas, colocou-a como um deste tipo de mulher, que facilmente é vista como uma boneca de porcelana, contudo, é forte e decidida. Não odeia os homens, apenas os coloca dentro dos limites do respeito. Brigar com o pai para poder trabalhar e prover o próprio sustento foi uma atitude que a personagem em questão tomou para alcançar o cargo de sócia colaboradora da Samvita, uma empresa fictícia da novela.

O movimento feminista, acima de qualquer pauta, defende a liberdade de escolha da mulher. Ou seja, para ser feminista não é necessário que a mulher seja CEO de uma empresa, ela pode escolher cuidar da casa e da família e ser feminista. Com um modo novo de mostrar que o feminismo nada quer tirar das mulheres de valor e de família, apenas agregar que elas podem e devem escolher o próprio destino, esta novela abre, paulatinamente, os olhos do público ao mostrar que pequenas atitudes opressoras acontecem, mas também demonstra como lidar com elas sem perder seus princípios. O Tempo Não Para salienta que a vida não espera e como ela a ascensão das mulheres também não.

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Um comentário sobre “À Moda antiga

  1. larissa ribeiro disse:

    Parabéns pelo texto! Sou apaixonada pela Marocas justamente por isso. Pude notar com clareza todas as atitudes machistas que a rodeiam e concordo plenamente com absolutamente que foi imposto no texto. Perfeito!

    Curtir

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