A mídia e a construção de uma consciência negra

Por Luiz Oliveira e Larissa Lins

Vinte de novembro é a data que se comemora o dia da Consciência negra no Brasil. Os grandes veículos de comunicação, que durante o ano inteiro negligenciaram pessoas negras em seus espaços midiáticos, os trazem em pauta nesse dia. É comum que em seus programas o assunto seja o tema principal, quase sempre trazendo-as para falar sobre temas raciais. Isso causa uma reflexão sobre qual é o papel da mídia na construção de uma identidade negra.

A partir do que pode ser observado nas grandes emissoras de televisão, torna-se necessária uma reflexão sobre o quanto a mídia é  responsável por construir no imaginário da população o que é ser negro e, principalmente, os lugares que esse povo é permitido a ocupar. Seja pela forma como os representa, ou, na maioria das vezes, não representa. É o caso da ausência em seus programas, novelas, séries, propagandas; mas também pela forma na qual os personagens são construídos, quando existem nas narrativas.

Por exemplo, a forma como homem negro é representado pelos diversos meios audiovisuais, principalmente na TV aberta, é altamente prejudicial e estereotipada, pois, é construída e validada a partir de uma visão racista e, infelizmente, hegemônica. Esses homens são objetificados, transformados em “animais” sexuais. Disto surge a figura do “negrão”, aquele que é bom de cama, viril, forte, másculo, com pênis grande, mas que só serve pra ser amante ou o bandido, miserável, perigoso, vagabundo e violento.

Portanto, essa dita representatividade se mostra extremamente negativa e questionável. É raro encontrar personagens masculinos que fujam desses estereótipos. Um exemplo de tentativa de mudança, foi feito pela Rede Globo, na novela Insensato Coração, onde havia o personagem André Gurgel, interpretado por Lázaro Ramos, que é descrito como um “Don Juan”, um homem bem sucedido, que se relaciona com diversas mulheres, mas que não quer um relacionamento fixo. Em outras palavras, ele era o galã mulherengo da novela.

Grande parte do público o rejeitou. De acordo com o portal Terra, “o personagem teve o maior índice de rejeição no grupo de discussão realizado pela emissora”. Deram como justificativa o fato de acharem que “ele não é um galã para conquistar tantas mulheres”.   

Essa rejeição evidencia o quanto a sociedade está  habituada a nunca associar a imagem de negros em posições diferentes daquela já estabelecida pela visão racista. Bell Hooks, escritora e ativista negra norte-americana, explica que essa perpetuação de estereótipos negativos à negritude existe e, muitas vezes não é questionada, porque, “dentro do contexto da supremacia branca, os negros são frequentemente recompensados por pessoas brancas e racistas quando internalizam o pensamento racista como uma maneira de assimilar a cultura dominante”. Ou seja, a persistência de imagens racistas afeta diretamente como os negros passam a se enxergar e, consequentemente, os fazem reproduzir tais visões sobre seus corpos.

Falando sobre o estigma relacionado ao corpo negro, os corpos femininos são tão ou ainda mais violentados pela ação midiática. As mulheres com peles mais escuras são, muitas vezes, excluídas do campo romântico, por exemplo. São as serviçais, as empregadas e subordinadas, mas nunca as protagonistas desejadas. Seus corpos estão designados a cuidar de filhos que não são seus, a limpar a casa que não é sua e a ocupar o único espaço em que podem ser inseridas: as comunidades. Mesmo em campos de hipersexualização, essas mulheres são excluídas.

Nayara Justino, eleita Globeleza em 2014, foi retirada da vinheta dias depois de ser escolhida após diversas críticas pela sua pele ser “escura demais”. Em entrevista à revista Veja, ela afirmou: “Até hoje, eu choro e dói demais. Mas eu não quero passar essa imagem. Eu acho muito importante o negro ter orgulho de si, ter orgulho da sua cor”. Tempos depois do ocorrido, Nayara foi recrutada pela Rede Record e assumiu um papel de destaque como coadjuvante  na novela A Escrava Mãe.

Trazendo a problemática para outro tom, as mulheres negras de pele mais clara ocupam mais espaço na mídia, de fato. O espaço de mulher desejada, mas apenas isso. Os corpos dessas mulheres são vistos como algo acessível, um corpo provocante, sexual e “da cor do pecado” – termo que até já foi usado de título de uma novela da Rede Globo. A visão da negra mulata vem dos tempos da escravidão onde essa palavra era direcionada a filhos resultados da mistura de pais brancos e negros e faz referência à mula, animal híbrido produto do cruzamento do cavalo com a jumenta.

Tal variação, que se deu a partir de estupro das escravas negras pelos senhores de engenho, surgiu com o estigma de sexualização e violência que ainda é perpetuada e exaltada principalmente no carnaval pela grande mídia brasileira. Um exemplo disso é a figura já citada da Globeleza, mulher negra que samba nua para louvar a cultura de miscigenação que surgiu da violência contra as mulheres de sua etnia.

Cedendo às diversas críticas sobre a hipersexualização da mulher negra nessa vinheta carnavalesca, a Rede Globo a repaginou e, desde o ano de 2017, mostrou a personagem vestida. A emissora foi aplaudida mesmo fazendo o mínimo que poderiam, visto que perpetuam essa sexualização desde 1990, ano em que a vinheta teve início. Isso não isenta a emissora ou a transforma em não racista, tendo em mente que a tal vinheta nunca deveria ter existido.

De acordo com o livro Salvação: pessoas negras e amor, de Bell Hooks, “Um foco excessivo em imagens ‘realistas’ levou os meios de comunicação a identificar a experiência negra apenas com aquilo que é mais violentamente depravado, empobrecido e brutal. No entanto, essas imagens são apenas um aspecto da vida negra. Mesmo que constituam a norma em bairros subclassificados, eles não representam a verdadeira realidade da experiência negra, que é complexa, multidimensional e diversa”.

É preciso romper com esse lugar de aprisionamento que os veículos de comunicação colocam diariamente o povo negro. Pois, como diz a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, em seu livro Quem tem medo do feminismo negro? “não podemos mais aceitar que a mídia nos reduza a essas possibilidades”. A vivência e sobrevivência negra é algo que deve e é celebrado todos os dias na pele de quem, apesar das diversas formas de racismo, ocupa espaços que transpõem o pensamento supremacista e aclamam a cultura negra. É transgressor.

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