Quebra do silêncio

*Ilustração por Camila Rosa

Mais de 300 mulheres enfrentarammedodenunciaram o líder espiritual João de Deus

Por Geovana Melo

Nas últimas semanas, um escândalo tomou conta das manchetes dos principais jornais do mundo. O médium João de Deus, reconhecido internacionalmente, está sendo acusado de estupro, assédio e pedofilia por centenas de mulheres. Até o momento, por 330 mulheres de várias idades e nacionalidades. O “orientador espiritual” usava da sua influência e da fragilidade emocional das vítimas para manter os casos em sigilo. Uma outra ação chamou atenção foi como a ação feminina fez com que décadas de violências fossem exteriorizadas.

 Os fatos foram relatados nos meios de comunicação pela primeira vez, no programa Conversa com Bial, no qual o apresentador Pedro Bial ouviu dez mulheres que relataram de maneira similar situações de assédio e estupro durante alguns tratamentos espirituais oferecidos pela casa Dom Inácio de Loyola, no município de Abadiânia, em Goiás.

No ano passado, outro caso de violência veio a público, dessa vez em Hollywood. O jornal The New York Times publicou uma reportagem sobre as denúncias contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, que foi acusado de agressões sexuais e psicológicas por muitas atrizes, e, após essa publicação, outras mulheres expuseram situações parecidas que vivenciaram com ele, dentre elas Angelina Jolie e Cara Delevingne.

Os casos ganharam bastante repercussão. Entretanto, uma dúvida constantemente permeia o acontecido: toda essa visibilidade se dá pela gravidade das acusações, pela posição que os acusados ocupam na sociedade ou pela a importância que os veículos deram para as denúncias ?

Após a exibição do programa da Rede Globo, alguns refutaram a veracidade dos relatos, fato comum em uma sociedade ainda patriarcal. Além disso, frequentemente,  mulheres são questionadas ao revelarem ocorrências de abuso sexual e muitos as fazem parecer que estão erradas. Entretanto, essas mulheres não são doidas, não estão delirando e muito menos são culpadas: elas são vítimas de uma violência.

Na novela de horário nobre, O outro lado do paraíso, a personagem Laura, interpretada pela atriz Bella Piero, foi abusada sexualmente pelo padrasto quando era criança e, ao revelar o abuso, foi contestada se realmente houve a violência, se não era fruto da imaginação. Infelizmente, existem muitas Lauras no mundo, mas, pouco a pouco, essas meninas estão se empoderamento e denunciando — representações como essas influenciam positivamente no número de denúncias.

Assim também, depois que o programa de Pedro Bial foi exibido, mais mulheres se sentiram encorajadas e incentivadas a denunciar as situações de vulnerabilidade que passaram com João de Deus. Nesse contexto, além da iniciativa feminina, a mídia foi extremamente necessária para que anos de silêncio fossem quebrados.

Esse movimento de mulheres se unindo por uma mesma causa é muito importante, pois mostra que elas vêm ganhando cada vez mais visibilidade na sociedade, em que historicamente predomina o machismo. Assim, a atualidade está marcada por manifestações feministas, como por exemplo o ato Ele Não, em que mulheres do mundo inteiro foram às ruas contra as proposições do Presidente eleito no Brasil. Houve também a hashtag #MeuAmigoSecreto, em que elas se uniram para expor os casos de assédios sofridos e outras situações que as incomodaram. Além disso, a hashtag #MexeuComUmaMexeuComTodas também se tornou popular, após a figurinista Susllem Tonani relatar assédios cometidos pelo ator José Mayer, no set de gravação dos estúdios Globo.

No caso João de Deus, o líder espiritual está preso e foi indiciado por crime sexual mediante fraude, mas nega todas as acusações. O delegado-geral responsável pelo inquérito, André Fernandes, acredita que haverá mais denúncias agora que o médium está preso, visto que as vítimas se sentirão mais encorajadas a denunciar.

Cada vez mais, as mulheres ganham voz e a sororidade vem ganhando força na sociedade. Dessa vez mais unidas e incentivadas a lutar por uma “guerra” em comum, a  que busca o respeito e a liberdade tão bem esclarecidos na nossa Constituição, mas que na prática deixam a desejar. Assim, como na música “Todxs Putxs”, de Ekena, nós, mulheres, queremos ganhar a luta que travamos e temos pressa, pois sabemos que a culpa não é nossa. Assim, as ocorrências apresentadas reverberam que a mídia aliada ao movimento feminino tem uma grande influência e pode ser capaz de ajudar a desconstruir comportamentos machistas enraizados no cotidiano, quebrando os esteriótipos de gêneros, representados pelos meios de comunicação.

 

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