Para que servem as universidades

Pequena reflexão sobre o papel das Instituições de Ensino Superior

Por Alice Maria e Júlia Mano 

“O jovem no Brasil nunca é levado a sério”. Essa é uma frase dita por Negra Li na música Não é sério, publicada em 2000 com a banda Charlie Brown Jr.. Já se passaram 18 anos desde o lançamento do single e o jovem brasileiro continua sendo visto como imaturo, principalmente quando se trata de opiniões políticas. De modo paradoxal, a juventude é considerada “o futuro”, toda a responsabilidade de fazer do mundo um lugar melhor é largada nas mãos de quem é constantemente banalizado, e, junto com ela, os lugares que frequenta, especialmente as faculdades.

Como foi visto nos dias que antecederam o segundo turno das eleições, diversas universidades foram invadidas por agentes do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e das polícias Militar e Federal. Materiais políticos e ideológicos foram apreendidos e palestras, rodas de conversa e aulas abertas sobre fascismo foram interrompidas.

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Logo após a decisão do TRE, ministros do STF se posicionaram contra as interferências ocorridas nas faculdades do país e julgam incabíveis tais ações.

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Esse é um assunto antigo, já. Mas não deixa de ser importante pensá-lo a partir da própria universidade. Não é de agora que as universidades são vistas como distantes da sociedade. A população não sabe ao certo o que elas fazem e nem quais são as suas contribuições, no entendimento geral, seu único papel é a de graduar os discentes. Mas as instituições públicas de Ensino Superior têm três pilares que regem o seu funcionamento: Ensino; Pesquisa; Extensão. É na extensão que o ensino e as pesquisas desenvolvidas são disponibilizados ao público externo — como o projeto Comunicação Comunitária desenvolvido na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. As principais pesquisas brasileiras, de todas as áreas do saber, são realizadas no âmbito das universidades públicas — como o estudo mais recente, na área da saúde, da USP que identificou bactérias da Antártica que poderiam impedir o desenvolvimento de cânceres.

Por faltar entendimento sobre o funcionamento das universidades, elas são constantemente atacadas por políticos e pela população. Essas instituições causam incômodo pois seu objetivo é construir senso crítico, o que ameaça o status quo. Quando a população não entende o que acontece dentro de um campus fica muito fácil atacar e desmoralizar. Com isso, o pensamento de que o universitário é “vagabundo” e “baderneiro” aparece e todas as vezes que o estudante se levanta para protestar em defesa da sua instituição ele é ridicularizado e abandonado pela comunidade, que deveria apoiá-lo.

Quando planos de governo dizem que: “As universidades precisam gerar avanços técnicos para o Brasil, buscando formas de elevar a produtividade, a riqueza e o bem-estar da população. Devem desenvolver novos produtos, através de parcerias e pesquisas com a iniciativa privada. Fomentar o empreendedorismo para que o jovem saia da faculdade pensando em abrir uma empresa.” claramente não sabem o que acontece nos centros universitários, pois isso já é realidade, o que falta é valorização e investimentos. E, ao ter votado a favor da PEC 55 (que congela investimentos na educação e saúde por 20 anos), mostra que não tem interesse em melhorar as condições das universidades públicas.

A falta de importância que o governo vindouro dá às universidades, em seu plano governamental, e em seus discursos, é preocupante. Sua pretensão é a de reduzir os investimentos no ensino superior e, segundo a sua equipe — que formula o seu plano de governo — há, também, a intenção em cobrar mensalidades, nas instituições, dos discentes que têm alta renda, sendo inconstitucional e, segundo especialistas em economia, desnecessário. Essa rigidez que o presidenciável prega com as faculdades é dada por motivações políticas, pois se afirma que há uma grande influência do movimento esquerdista nos meios acadêmicos, demonstrando, assim, intolerância com ideologias contrárias às suas e atacando a soberania das universidades em poder se posicionar politicamente. Contudo, há o apoio de parte significativa da sociedade em relação às suas propostas.

Em conferência na UnB durante a Semana Universitária de 2018, a professora e filósofa Marilena Chauí afirmou que a universidade como organização deve exercitar a autonomia do saber e concebe-se a si mesma republicana, pública e laica. Ela precisa ser democrática para que consiga democratizar o saber. A educação é um direito, e mais do que passar conhecimento, a função de uma universidade é formar cidadãos porque quando a formação torna o exercício do saber algo para todos, podemos universalizar muitos outros direitos. A universidade precisa ser universal.

O SOS Imprensa repudia todas as afirmações difamatórias contra as universidades públicas brasileiras e a sua comunidade, bem como todas as formas de censura que foram cometidas contra as manifestações antifascismo e em prol da democracia. Temos o direito de nos colocarmos politicamente como oposição em relação à defesa de um período sombrio do Brasil, a Ditadura Militar, bem como contra argumentos que violam a liberdade de expressão e defendem a violência.

Estudantes precisam mostrar para a comunidade que a universidade também é dela, que deve ser defendida e não fechada, invadida ou privatizada, como muitos acreditam. É na comunidade acadêmica que o pensamento crítico é fomentado de maneira mais intensa, e essa é a maior arma contra o autoritarismo.

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