Capitã Marvel e Hannah Arendt – Uma Heroína Contra O Extermínio

Um dos maiores sucessos de bilheteria da Marvel explora conceitos complexos como raça e violência

Por Luiz Berto Neto

O filme Capitã Marvel, o último do universo cinematográfico  Marvel, ultrapassou as expectativas dos fãs mais otimistas. A primeira protagonista de um filme solo da produtora bateu recorde atrás de recorde, passando de  meio bilhão de dólares em bilheteria. Abordando temas complexos com uma narrativa leve e divertida, é importante não deixar que a política da obra passe batida. Para isso, escolhemos uma autora cuja biografia e bibliografia se alinham de maneira interessantíssima ao filme. Se ainda não o viu, esteja ciente de que o texto a seguir contém muitos spoilers.

A história é a de Carol Danvers, pilota americana que se envolveu com uma cientista kree, raça alienígena de seres quase idênticos a humanos. Sua aparência semelhante à dos humanos acaba por despertar empatia do espectador. Segundo a protagonista, eles são uma “raça de guerreiros e heróis”. Há um tempo aparentemente sem fim, eles guerreavam com os skrulls, uma raça de humanoides verdes, com queixo estranho e com a habilidade de assumir a aparência de qualquer ser que tenham visto. A cópia é perfeita e eles têm acesso às memórias mais recentes dos seres imitados. Assim, são especialistas em infiltrações, espionagem e ações furtivas. A história se desenrola com a protagonista, Carol Danvers, lutando ao lado dos kree.

E onde é que Hannah Arendt se encaixa nisso?

Hannah Arendt foi uma cientista política judia do século XX, falecida em 1975. Ela saiu da Alemanha na década de 1930, pouco depois de ver o filósofo Heiddegger, com quem outrora trocara cartas de amor, tornar-se nazista. Temendo pela sua segurança em uma Alemanha cada vez mais totalitária, Arendt mudou-se para Paris e, após a captura da cidade pelo Terceiro Reich, fugiu pela  Espanha e Portugal, conseguindo alcançar a segurança nos Estados Unidos. Lá, desenvolveu-se academicamente como uma das mentes mais brilhantes da Ciência Política.

Já a Capitã Marvel descobriu em um aparente aliado, o guerreiro Yong-rogg, um inimigo desprezível. A mesma também é obrigada a buscar refúgio, mas a Capitã, por uma dádiva própria da ficção, tem o poder para lutar contra seus inimigos em um campo de batalha, e não no campo acadêmico.

A relação entre violência e poder foi central na produção de Arendt. Vítima de um Estado totalitário em que a manifestação mais organizada de violência da história da humanidade foi cometida, o assunto era uma questão pessoal. O que era verdadeiramente poder? E o que era verdadeiramente a violência? Foi pensando nisso que elaborou em seu livro ”Sobre A Violência” algumas definições como poder, vigor, força, autoridade e violência. A confusão costumeira entre estes conceitos a incomodava.

Poder era, para ela, algo próprio de um grupo. Ou seja, o potencial de uma equipe para realizar algo. Arendt chamava de autoridade, talvez um dos seus conceitos mais relevantes, o “reconhecimento inquestionável por aqueles a que se pedem que obedeçam”. Segundo Arendt, um pai pode perder a autoridade com o filho de duas formas: tratando-o como um igual ao colocar-se no mesmo nível que ele ou tratando-o tiranicamente, fazendo uso da violência. A violência teria um caráter instrumental, ou seja, uma forma de burlar a falta de poder.

Seguindo este vocabulário personalizado, a Capitã Marvel não seria superpoderosa, mas sim supervigorosa. Sua capacidade física e raios fotovoltaicos são individuais e pertencem apenas a ela. Mas e a violência?

Parece que podemos observar uma primeira cisma entre a visão de Hannah Arendt e a de Carol Danvers. Hannah Arendt, embora dificilmente possa ser considerada uma otimista, via a violência com grande desconfiança. Assim, para Hannah, o uso da violência deveria ser pontual, enquanto a super-heroína é a própria definição de extrema violência durante boa parte do filme. As forças militares kree e skrull foram, em momentos diferentes do filme, vitimizadas pelo vigor inabalável da Capitã, manifestado instrumentalmente como violência.

Perceba: os kree contavam com uma frota espacial, um Estado, recursos e tecnologia, ou seja, a própria definição de poder. Rohan, um dos vilões mais poderosos do Universo Cinematográfico Marvel, estava diante da Terra com suas espaçonaves armadas e mísseis preparados. A capitã destruiu seus mísseis, flutuou em frente à sua frota e fez uma única ameaça.

Ronan levou seu poderio embora.

Como Hannah Arendt explicaria esse fenômeno?

“A violência sempre pode destruir o poder; do cano de uma arma emerge o comando mais efetivo, resultando na mais perfeita e instantânea obediência.”, diz ela em Sobre A Violência.

Mas seria a Marvel uma defensora indefensável da violência, romantizando seu uso contra o poder da organização de grupos?

Difícil dizer que sim ao olhar a situação dos skrulls. Os mesmos foram tratados inicialmente como vilões, invasores, monstros verdes, feios, com poderes bizarros e infiltrados na verdadeira civilização. A narrativa continua e descobre-se  que a premissa estava equivocada. Os skrulls eram uma civilização descentralizada e vitimizada pelo expansionismo kree. O império kree baseava sua autoridade sobre seus cidadãos com base na mentira de que todo aquele esforço de guerra se tratava de autodefesa. Narrativa esta que foi perpetuada pela Inteligência Suprema, um supercomputador que comanda o governo kree. Quanto à verdade, Hannah Arendt diz: “A curva que descreve a atividade de pensar deve permanecer ligada ao acontecimento como o círculo permanece ligado ao seu centro.”

No momento em que Carol Danvers descobre que a sua lealdade para com seus antigos aliados era baseada em uma narrativa mentirosa, ela se desliga da organização, não apenas na esfera prática, como também na simbólica, mudando as cores de seu uniforme. Após descobrir que, na verdade, os skrull são refugiados espaciais, a sobrevivência deles torna-se a prioridade da protagonista.

Hannah Arendt bem soube o mal do racismo organizado pelo Estado. A judia, assim como os skrulls, era considerada pestilenta, inferior e perigosa por uma nação genocida. Antes de ser forçada a buscar refúgio em Portugal, devido à nazificação da Alemanha, Arendt era uma ardente defensora da organização armada dos judeus contra aqueles que queriam lhes fazer o mal.

Capitã Marvel não é a primeira investida da produtora contra o totalitarismo. O filme Capitão América: o Primeiro Vingador é repleto de críticas ao hitlerismo e presenteia a audiência com diversas imagens de violência cometida contra nazistas, considerados “valentões”. Pantera Negra, ganhador de três prêmios Óscar este ano, teve uma forte narrativa contra o revanchismo e a banalização das instituições. O próximo lançamento do Universo Cinematográfico Marvel, Vingadores: Ultimato, que será lançado no dia 25 de abril, promete lidar com questões como malthusianismo, traumas coletivos e genocídio intergalático.

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