O Brasil ama odiar o funk

Por que a prisão do Dj Rennan da Penha deixa claro o preconceito com aquilo que vem da favela

Por Catarine Cavalcante Torres

Na quarta-feira, dia 20 de março, a justiça decretou a prisão do Dj Rennan da Penha, conhecido por ser o idealizador do maior baile funk carioca, o Baile da Gaiola. Acusado de associação ao tráfico, o produtor musical foi solto em 1ª instância por quantidade insuficiente de provas, mas o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ)  entrou com recurso e ele foi condenado.

A justiça o considerou culpado, já que há fotos do artista em suas redes sociais lamentando a morte de pessoas envolvidas com o tráfico, promovia festas em que havia uso de drogas e por, principalmente, avisar a população quando a polícia estava prestes a chegar. Este último lhe rendeu a alcunha de “olheiro”, pelo desembargador Antônio Carlos Nascimento Amado, que o sentenciou a  6 anos e 8 meses de reclusão em regime fechado. Acreditar que os moradores da comunidade que possuem qualquer ligação com alguém morto pelo tráfico é indício criminal, que o uso de substâncias ilícitas em festas só acontece no Baile da Gaiola e que alertar quem está próximo que a polícia está subindo o morro é comportamento de gente perigosa parece ser muita inocência do MP-RJ (e pelo visto, do STF também, que negou o pedido de habeas corpus), mas nada impede que também seja má fé.

A defesa do Dj considerou a acusação “estapafúrdia” e alegou que o músico está sendo acusado apenas por defender uma manifestação artística. Afirmou ainda que seu cliente não é um criminoso e ressaltou sua importância social para o Complexo da Penha, a exemplo do dia que distribuiu kits escolares para as crianças no início das aulas. A OAB-RJ divulgou uma nota de repúdio se posicionando contra a prisão e disse confiar no Poder Judiciário para reavaliar o caso e proteger os direitos e garantias fundamentais de Rennan.

Pouco foi noticiado sobre a prisão do jovem artista, não há muitas informações nos grandes portais e nos que constam algo trata-se o assunto de forma um pouco superficial, noticiando o ocorrido, mas sem atualizar os desdobramentos do caso, como por exemplo, no jornal Folha de S. Paulo, que ainda apresentou uma das reportagens mais complexas, contextualizando o baile: a cobertura foi melhor realizada em jornais locais, como o Extra.

A verdadeira movimentação se deu nas redes sociais. No Facebook, vários atos a favor de Rennan foram organizados, com a confirmação da presença de quase 5 mil pessoas, além de 10 mil interessados. No Twitter, a hashtag #LiberdadeRennanDaPenha chegou a ocupar os trending topics no dia em que o habeas corpus foi negado pelo STF.

Essa não foi a primeira vez que o funk, sofreu algum tipo de perseguição. No ano de 2013, o então governador Sérgio Cabral tentou proibir os bailes nas comunidades “pacificadas”, mas a medida não obteve sucesso. Vigorava, até pouco tempo, um decreto que eventos como esse só poderiam existir mediante aprovação prévia do prefeito Marcelo Crivella, mas foi tido como inconstitucional, já que categorizava censura.  Em 2017, o senador Romário Faria, com apoio popular, apresentou um projeto de lei que visava a criminalização do funk, inclusive o qualificando como um “crime de saúde pública”. Sobre o projeto de lei, a cantora Anitta, que iniciou sua carreira como funkeira, disse à BBC Brasil que o mensageiro não pode ser punido pelo teor da mensagem, e declarou:

“Se você quer mudar o funk ou o que está sendo falado ou a forma que ele entra na sociedade, você então deve mudar a raiz, as questões educacionais, as questões que fazem a criação do funk.”

Para Danilo Cymrot, doutor em criminologia pela Universidade de São Paulo (USP), a implicância com funk acontece por ele ser originário da cultura negra, periférica e pobre. Ele faz uma comparação ao samba, que também sofreu discriminação no passado. Os sambistas eram conhecidos como “vadios” e muitos deles foram presos. O professor de direito penal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Reinaldo Santos de Almeida, diz que a criminalização do funk é a forma pós-moderna de repressão penal da cultura popular marginal nos morros cariocas. A tese de doutorado de Reinaldo, que foi sobre a criminalização do samba, diz:

“Era tão racista quanto o sistema de Justiça criminal brasileiro, cujo critério determinante é a posição de classe do autor, ao lado da cor de pele e outros indicadores sociais negativos, tais como pobreza, desemprego e falta de moradia”

Isso dificulta muito a situação de Rennan da Penha, uma vez que é negro, morador da favela e produz música sobre a favela e para a favela.

O funk, muitas vezes, funciona como uma forma de resistência para a população marginalizada. Aqueles que são constantemente esquecidos pelas políticas públicas, que não se enxergam na mídia (com exceção das representações caricatas e recheadas de estigmas) são cantados pelo ritmo e, no momento em que são cantados, eles existem e são os protagonistas. Todos os incômodos e problemas que os moradores “do asfalto” e o próprio governo ignoram e fingem não acontecer, são escrachados em forma de música e o sucesso que faz é incontestável. A fama é tanta que, mesmo fora da favela, faz muita gente dançar.

Toca em todas as festas desde bailes dentro da comunidade, como em eventos fechados com ingressos de alto custo. A importância e o impacto desse tipo de mensagem sendo disseminada no Brasil (e por vezes fora dele) é muito grande e o criador do Baile da Gaiola é um de seus maiores expoentes na atualidade. A pergunta que ainda não foi feita é a quem interessa o fracasso do funk.

Em sua página no Facebook, Mc Carol escreveu:

“É isso que está acontecendo desde sempre com os funkeiros, pretos e favelados, estamos sendo seguidos, perseguidos, caçados, difamados, presos e mortos o tempo todo e ninguém faz nada. Sabe qual é nosso crime? Ganhar dinheiro falando sobre a realidade da favela, sendo preto”

 

Morador do complexo da Penha, dono de uma agenda de shows fechada até junho e agora pintado como criminoso, o Dj Rennan da Penha é também Rennan Santos da Silva, apenas mais um.

 

2 comentários sobre “O Brasil ama odiar o funk

  1. luizbertodf disse:

    Parabéns pelo excelente texto. Uma excelente análise da forma como a grande mídia (branca) peca por omissão nos crimes do Estado cometidos contra as populações vulneráveis no Brasil.

    Curtir

  2. Pingback: Eu sou o Rio

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