Julgamento tardio

Por Marcos Braz

Exposição de casos de pedofilia e abusos supostos ou confirmados faz grandes nomes da indústria musical sofrerem consequências das acusações, até mesmo depois de mortos. Como o mundo está lidando com o legado desses artistas?

Nos últimos meses, dois documentários têm movimentado os bastidores da indústria fonográfica e chocado o mundo. As produções Leaving Neverland e Surviving R. Kelly acusam os cantores Michael Jackson e R. Kelly, respectivamente, de cometerem abuso sexual contra menores de idade. Em resposta às acusações, empresas e artistas têm promovido boicote aos acusados por meio de retirada de produtos e músicas de circulação, na tentativa de manter respeito às supostas vítimas e não se envolver na polêmica. Os documentários são baseados em depoimentos de pessoas que afirmam terem sido abusadas quando ainda crianças ou adolescentes. As declarações ganharam repercussão mundial e deixaram o questionamento: como lidar com o legado de artistas acusados ou condenados por crimes sexuais?

Catherine Strong, pesquisadora na área de mídia da Universidade RMIT, da Austrália, defendeu em um texto escrito para o portal The Conversation que a sociedade lide com o problema de frente. Separar o artista da obra não é o ponto, mas promover a discussão do problema de abuso sexual na indústria da música, que, segundo ela, “é sistêmico, contínuo, que não vai ser resolvido apenas apagando o legado musical”. Infelizmente, o problema ao qual Catherine se refere é comum em toda a rede de produção  do entretenimento. Nomes como Woody Allen e Harvey Weinstein, executivos de Hollywood,  foram expostos, trazendo a sensação de justiça às vitimas e à sociedade. Porém a punição não pode ser dada à pessoas mortas e o público se apega às maneiras possíveis de “punir” os envolvidos.

O apresentador britânico Scott Bryan, do podcast BBC Must Watch, assistiu ao documentário Leaving Neverland em sua estreia e disse que ao sair da sala de cinema excluiu todas as músicas de Michael de seu telefone. “Depois de alguns dias, eu estava com meu laptop em um café trabalhando, e por coincidência começou a tocar Michael Jackson”. Apesar de já ter sido fã do cantor, ele se sente desconfortável ao ouvir suas músicas e não consegue ignorar os relatos. “Eu tive de colocar o fone de ouvido e começar a escutar outra música, porque simplesmente não consegui me concentrar”, contou.

Assim como ele, grande parte daqueles que tem a imagem, de certa forma, atrelada aos envolvidos têm tentado se desvincular da reputação dos artistas boicotando suas obras. A gigante da moda, Louis Vuitton, retirou das lojas todas as peças da coleção outono-inverno com alusões à Michael. O seriado Os Simpsons também não tem mais Michael em um episódio em que o personagem dele aparecia. A Fox, emissora que transmite o desenho animado, excluiu o episódio da sua rede de streaming.

O legado musical desses artistas vem ganhando o mesmo tratamento, especialmente por suas obras fazerem referências  à suas vidas pessoais. Rádios ao redor do mundo retiraram a discografia de Michael Jackson da programação, assim como algumas rádios americanas fizeram com R. Kelly. A BBC Radio retirou Michael de todas as playlists oficiais. O rapper canadense Drake excluiu do show sua parceria póstuma com Jackson, assim como Lady Gaga retirou das platarformas digitais a música “Do What U Want (With My Body)” , parceria com R. Kelly. A cantora afirmou ainda acreditar “1000%” nas vítimas e se disse arrependida de escrever e gravar a faixa, criticada por fazer alusão a estupro.

Produções 

Em 2002, R. Kelly já havia sido acusado de filmar relações sexuais que manteve com uma garota de 14 anos, mas foi absolvido pelo júri em 2008. As denúncias voltaram à tona com o lançamento do documentário exibido pelo canal de assinatura Lifetime. Lançado em janeiro deste ano, a produção é dividida em seis episódios que contam com o depoimento de pessoas próximas ao cantor. Entre elas, ex backing vocals de Kelly, que afirmam ter testemunhado relações sexuais dele com três menores, entre elas a falecida cantora Aaliyah. A mãe da cantora, Diane Haughton, negou que a filha tenha sofrido abuso e acusou a backing vocal Jovante Cunningham de ser “uma mentirosa”, como escreveu em conta oficial.

O rancho Neverland, construído inspirado na história infantil Peter Pan, é onde James Safechuck e Wade Robson afirmam terem sido abusados por Michael Jackson  quando ainda eram crianças. Detalhes de como os supostos abusos ocorreram e depoimentos de familiares sobre como era conviver com o maior ícone pop dos anos 1990 guiam a história de quatro horas, dividida em dois longa metragem. Disponível no serviço de streaming HBO GO, o documentário resgata as denúncias feitas no início dos anos 2000, quando outro garoto de 14 anos denunciou Michael de tê-lo molestado.  Na época, Wade Robson testemunhou à favor de Michael, mas após ter tido um filho, declarou entender a gravidade do ocorrido.

Os herdeiros de Michael Jackson declararam que as denúncias são “ uma forma barata de ganhar dinheiro em cima da imagem do cantor”. As acusações são consideradas controversas por críticos pois, além da demora da denúncia, uma das supostas vítimas, Wade,  já tinha negado em depoimento qualquer abuso do cantor. 

Banir é suficiente?

Na situação das vítimas, é comum que se espere justiça por todo o sofrimento passado. E a punição, às vezes, não é como a desejada, especialmente no caso de morte. Porém o questionamento mais relevante que toda essa situação emblemática deixa é: E daqui pra frente, quais serão as atitudes tomadas por toda a comunidade do entretenimento, do ramo da música, para que situações como essa não se repitam nunca mais?

As ações de banimento podem trazer algum conforto pessoal à medida que os indivíduos se sentem tomando uma atitude concreta contra um suposto predador sexual. Ou até se safando de uma represália futura por se associar a um criminoso. Mas uma movimentação efetiva  e definitiva deve se iniciar na industria fonográfica, a exemplo de movimentos como time’s up, em defesa de atrizes em Hollywood, para que a arte e o glamour da fama não ofusque o sofrimento de vítimas invisibilizadas pelo poder de seus agressores.   

Um comentário sobre “Julgamento tardio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s