A lenda dessa paixão faz sorrir, chorar e esgotar ingressos

Dupla Sandy e Junior lança novos shows com repercussão gigantesca e alcançam, mais uma vez, atenção da mídia.

Por Marina Dalton

“Nossa história” é o nome da turnê anunciada por Sandy e Junior para 2019. O nome sugere algo bastante nostálgico e a promessa é de não haver músicas das carreiras solo. Fãs se empolgam com a notícia e a grande mídia diz que a separação da dupla nunca foi de fato superada. Estratégias os colocaram em posição de visibilidade antes e, agora, espertamente usaram técnicas para recuperar o sucesso. 

Em junho de 2007, foi anunciado o término de uma das parcerias mais queridas do Brasil. Os irmãos comunicaram o fim da dupla e fizeram sua última turnê, que acabou em dezembro. Em 17 de abril daquele ano, Sandy e Junior responderam perguntas numa coletiva de imprensa em São Paulo e declararam que o álbum “Acústico MTV” seria o marco de finalização. Diversos jornais, como o Estadão e o grupo Globo, já transmitiram a notícia bombástica no próprio dia. Incentivados pela ideia do “é agora ou nunca”, os fãs lotaram as plateias e os irmãos voltam a ser um assunto em alta. O final marcante e amplamente divulgado contribuiu, inclusive, para que os shows, declarados como os derradeiros da carreira, tivessem muito sucesso.

Porém, o reconhecimento dos dois já era de longa data. Tiveram diversos álbuns produzidos durante sua infância e adolescência. Vários receberam prêmios e muitos funcionaram como excelentes estratégias. “Pra dançar com você” e “Você é D+”, de 1994 e 1995 respectivamente, foram lançados com objetivo de consolidar o público, sair da sombra da raiz sertaneja do pai. “Dig-dig-joy”, de 1996, e “Sonho azul”, de 1997, foram perfeitos para firmar Sandy e Junior como estrelas do pop adolescente; essenciais para localizar, por fim, o estilo no qual a dupla estava inserida. Aconteceram shows marcantes durante essa longa trajetória, como a participação na terceira edição do Rock in Rio, em 2001, e a apresentação para 1,2 milhão de pessoas em João Pessoa no mesmo ano.

Essa febre nacional começou com dois álbuns ainda de tendências sertanejas (“Aniversário do Tatu” e “Sábado à noite”), que possivelmente visavam uma aprovação inicial do público já cativado pelo pai. Sandy e Junior são filhos de Xororó — da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó — e tiveram os primeiros discos produzidos pelo pai. Já foram lançados por quem estava na mira da mídia, o que certamente ajudou em sua ascensão.

A trajetória profissional musical dos pequenos começa com a aparição no programa Som Brasil, em 1989. Sandy e Junior cantaram a icônica música “Maria Chiquinha” e subiram ao palco anunciados por ninguém menos que Lima Duarte, ator já consagrado. Inclusive, a turnê de 2019 é justificada pelo aniversário de 30 anos desse lançamento dos dois.

Sandy e Junior tiveram a oportunidade de entrar no meio artístico diretamente através do topo ー seguiram a estrada já trilhada pelo pai e pelo tio. Ao iniciar em um programa de alta repercussão, cantando músicas que certamente agradariam o público do progenitor, os irmãos de cinco e seis anos abriram portas gigantescas para a futura carreira. Chitãozinho e Xororó estão em atividade desde 1970, são personalidades já reconhecidas. Apresentar novidades com credibilidade e influenciar gostos são capacidades de pessoas que já possuem posição de destaque. O peso da sugestão de um artista é grande.

Numa reportagem veiculada pelo Estadão, a dupla declarou que o responsável pelo retorno de 2019 também foi o pai, que os colocou no ar 30 anos atrás. Segundo Junior, foi quem mais incentivou a reunião dos filhos. “Finalmente nos sentimos prontos para isso”, disse Sandy. Após tantos anos separados, negando sempre os pedidos e questionamentos a respeito de uma possível volta do duo, o lançamento da turnê teve um sucesso monstruoso. Estão novamente no topo dos assuntos comentados. Filas gigantescas e ingressos esgotados em pouquíssimo tempo levaram ao anúncio de shows extras. Mas qual o motivo de tamanha repercussão?

Em uma análise veiculada em 23 de março, o jornal O Globo listou seis motivos para tentar explicar esse fenômeno. É dito que a internet pode ser responsável por manter a chama acesa ou que, devido aos 12 anos de separação, a “ausência só fez crescer expectativa”.  Porém, três motivos citados são realmente claros e significativos para tamanho sucesso.

O primeiro é a chamada Newstalgia, que traria a ideia de fugir da constante aceleração do mundo de hoje e retomar o ritmo lento da infância. A saudade de um passado conhecido motiva o público a comprar ingressos, ainda que estejam com preços caros.

O segundo é a carreira dos dois enquanto estiveram separados. Sandy lançou álbuns solo em 2010, 2013, 2016 e 2018. Foi considerada uma das cem mulheres mais influentes no Twitter pelo The Huffington Post, em 2015. Já foi capa de edições da Glamour, Vogue, RG, Manequim e Cosmopolitan. Sem contar que suas músicas tiveram mais aclamação da crítica nessa fase. Junior não obteve tanto sucesso no meio musical. Passou por projetos como Nove Mil Anjos, Dexterz e Manimal, mas nada muito impactante. Cresceu quando se tornou apresentador do canal de YouTube Pipocando Música, ao lado de Bruno Bock. Novos fãs foram conquistados e muitos foram atrás do passado da dupla.

No entanto, a maior razão desse sucesso estaria no terceiro grande motivo: a sábia escolha do público alvo. Quem conheceu o auge de Sandy e Junior está numa faixa etária entre 25 e 40 anos, o que significa que agora possuem o próprio dinheiro. Emocionalmente, os Millennials estão muito ligados às músicas que fizeram parte da sua época de crescimento e, agora, há a oportunidade de investir seus salários no que antes apenas sonhavam.

A dupla, ao longo de sua história, valeu-se de estratégias muito bem sucedidas. A aclamação, portanto, é produto de um aproveitamento inteligente dos media e o lucro se deve ao entendimento claro de como o capitalismo aproveita a produção cultural e o local de fala dos artistas. Sandy e Junior estão outra vez na “boca do povo” por conta dessa esperta colocação.

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