Jordan Peele e a (não) representatividade negra no audiovisual

O papel da indústria cinematográfica em perpetuar e propagar o racismo

Por Luiz Oliveira

“Não me vejo lançando um ator branco como protagonista em um filme meu. Não que eu não goste de atores brancos, mas eu vi esse filme”, disse Jordan Peele, diretor do filme Nós, em  um evento na cidade de Los Angeles na semana passada. A repercussão sobre a declaração  de Peele tomou conta da mídia e, consequentemente, das redes sociais. Alguns compreenderam o que ele disse, outros, porém, o acusaram de ter cometido “racismo reverso”, utilizando como exemplo o argumento “e se fosse o contrário?”. No entanto, acredita-se que  muitos que evocaram essa ideia, certamente,  desconhecem que o contrário já existe, basta olhar os filmes de diretores como Woody Allen, Steven Spielberg, Tim Burton, Christopher Nolan, entre outros. Esses exemplos se assemelham pelo fato de que, além de todos serem brancos, não há questionamento por parte do público e da mídia pela falta de diversidade em seus elencos de atores que, na maioria das vezes, é majoritariamente branco. Basta dar uma rápida pesquisa para verificar.

IMG-20190403-WA0034       Elenco de Dunkirk – Christopher Nolan

IMG-20190403-WA0033   Elenco do Filme Alice no País das Maravilhas – Tim Burton

Portanto, a  pergunta que fica é: por que a fala de Peele incomodou tanto? Qual o porquê de ter sido tão difundida pela mídia, sendo que em outras situações não ocorrem o mesmo? Para discutir sobre esse assunto é necessário refletir o papel que a indústria cinematográfica tem em perpetuar e propagar o racismo.

Mas, antes, é importante esclarecer para aqueles que acreditam em racismo reverso o que é racismo. De acordo com a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, racismo é ” um sistema de opressão que nega oportunidade a grupos por conta da sua cor de pele, é algo estrutural”, pois ele se encontra de diversas maneiras em uma sociedade, sendo o cinema um desses espaços.

Quantos filmes produzidos são estrelados por atores negros? Quantos tem em sua direção, produção e roteiro pessoas negras? Como eles são representados? Essas são algumas perguntas que deveriam ser feitas.   

A professora e doutoranda Camila Biasotto de Araújo, escreve em artigo publicado, sobre a representação dos negros e negras no cinema em três momentos diferentes norte-americanos, a partir de três filmes que representassem cada época. O primeiro é Nasce uma Nação, de 1915, que traz como pano de fundo um momento onde o país  buscava a reconstrução após a Guerra de Secessão, união era a palavra. Segundo Araújo, a visão do diretor, D.W. Griffith, sobre o momento é refletido em seu filme, pois “Sabe-se que seu pai foi um soldado confederado, portanto esteve do lado perdedor da Guerra de Secessão, e sua impressão sobre os negros como pessoas inferiores foi fortemente influenciada por estas experiências. A magnitude de sua obra encontrou respaldo social, uma vez que o filme se tornou um enorme sucesso de bilheteria nos Estados Unidos e se tornou um marco na história do cinema com suas mensagens racistas que mostravam negros como animais – estes, no caso, eram atores brancos pintados – estupradores, sem senso de civilidade. Com a glorificação da Klu Klux Klan como salvadores de uma pátria com valores sulistas, mas devastada após a vitória do Norte e construindo heróis confederados”.

Avançando em sua análise, ela chega na década de 1960, que é marcada pela intensificação da luta pelos direitos civis, tendo como exemplo o movimento negro, que lutava contra a segregação racial que ocorria. O filme que ela destaca é O sol é para todos, de 1962, que traz a visão do branco sendo o salvador e o homem negro como animal, não a ser hostilizado e segregado, mas sim a ser defendido pelo bom homem branco que enxerga nele uma inocência e uma inferioridade intelectual. Há, sim, os raivosos, que compõem a maior parte da cidade sulista onde se passa o filme, decididos a condenar o personagem negro por um crime que ele não cometeu, mas o espectador é levado a crer na bondade e inocência do negro – mas não em sua inteligência – ao enxergá-lo sob a perspectiva infantil da personagem Scout, conta.

Por último, Biasotto fala de Pantera Negra e a era Obama. De acordo com ela, “Pantera Negra é um filme de 2018 que responde a clamores sociais e cinematográficos ao construir um elenco majoritariamente negro, com um diretor negro, cujo tema não é escravidão, colocando-os como super-heróis com uma personalidade exemplar a ser seguida. Trata-se ainda de um local fictício, o país Wakanda, bastante desenvolvido e localizado no continente africano. Os personagens negros não são inferiores ou animalizados, não precisam contar com a ajuda de um personagem branco para obterem sucesso”.

Seguindo ainda nessa perspectiva, é importante estar atento aos dados, pois segundo pesquisa feita pela Universidade do Sul da Califórnia, ao analisarem mais de 109 filmes e 305 programas de televisão e séries digitais lançados em 2014, apenas 28% dos personagens que aparecem nas obras são negros – 9% a menos do que o percentual de negros na população dos Estados Unidos.

Trazendo o ponto de vista para o Brasil a situação é muito pior. Segundo a pesquisa: “A cara do cinema nacional: perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012), realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, os filmes nacionais de maiores bilheterias exibidos entre 2002 e 2012 tinham em seu elenco principal 14% de homens negros e 4% de mulheres negras. Por trás das câmeras as circunstâncias não melhoram, tendo 4% de homens negros como roteiristas e 2% de diretores. De acordo com a pesquisa, nenhuma mulher negra dirigiu ou escreveu algum filme nesses anos. Não é necessário entender muito de matemática para compreender o quanto esses números estão desproporcionais com a representação da sociedade de seus países.

Talvez o motivo de tanta “polêmica” seja o sucesso que o filme tem feito, tendo em sua estreia a maior abertura de um filme de horror original nos Estados Unidos, com setenta milhões de dólares arrecadados, ou o fato de sua heroína ser negra? quantos filmes temos com mulheres negras liderando? De acordo com dados atualizados do Box Office, o filme já faturou mais de 174 milhões de dólares em bilheteria mundial, em apenas duas semanas de exibição.

Nós, filme de Jordan Peele, se encaixa em um mundo como o de Pantera Negra, onde negros reivindicam  o controle de suas próprias narrativas. Querem ser vistos, sim, mas da maneira mais diversa e potencializadora de seus corpos. Não querem ser mais meros coadjuvantes ou vistos através de uma visão branca sobre sua negritude.

Essas conquistas devem incomodar muito aqueles que ainda não compreenderam o quanto o mundo está progredindo, então o que os resta é atacar, mas atacar sem fundamento algum.

Por fim, que haja cada vez mais Spike Lee, Jordan Peele, Ava Duvernay, Barry Jenkins, Ryan Coogler… para que possam ocupar o cinema, e assim surjam as mais diversas e poderosas histórias com atores negros à frente.

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