Xenofobia na Irlanda: ao contrário de duendes e leprechauns, racismo na terra da esmeralda não é lenda

Última onda de ataques violentos a imigrantes brasileiros no país repercutiu na mídia internacional, mas ainda ganha pouco destaque na discussão irlandesa e europeia

Por Luís Abrantes

Na primeira semana de março, trabalhadores dos aplicativo de entregas Deliveroo, Uber Eats e Just Eat reuniram-se para protestar no centro da capital irlandesa, Dublin. De maioria brasileiros, os entregadores clamam pelo fim da violência racial alavancada no país nos últimos meses. No mais recente desses eventos, as vítimas foram alvos de agressões físicas, verbais e furtos, tudo isso durante seus expedientes de trabalho.

O mais influente jornal Irlandês, The Irish Times, noticiou o ataque e realizou reportagens com brasileiros que participavam dos protestos. A publicação mostrou casos de jovens roubados e até espancados por grupos de adolescentes e gangues. Segundo a matéria, a polícia local declara não estar ciente do aumento dos casos de discriminação racial no país.

Em contraponto a essas declarações, um estudo de 2018 divulgado pelo Conselho de Direitos Civis da Irlanda, o ICCL, mostra que o país tem uma das maiores taxas de crimes de ódio da Europa. De acordo com o estudo, 21% da população advinda da África Subsaariana afirma ter sofrido 6 ou mais ataques nos últimos 5 anos, motivados pela sua origem. Além disso, 13% da comunidade trans relata abusos sexuais, ameaças e agressões. Em dissonância com grande parte dos países membros da União Europeia, a Irlanda não tem leis e diretrizes direcionadas aos crimes de ódio. 

Em tempos de mudança nas políticas migratórias, como exemplo a recente formalização do Brexit e a agenda de endurecimento a imigração do governo de Donald Trump, o discurso anti-imigração ganha cada vez mais respaldo na voz de diversos líderes mundiais. Como resultado, crimes de ódio se tornam cada vez mais comuns. O jornal britânico The Guardian mostrou em uma matéria de outubro do ano passado o aumento desse tipo de crime no Reino Unido: os índices mais que dobraram em cinco anos.

A violência contra imigrantes geralmente recebe mais atenção em casos extremos, como o do massacre às mesquitas no interior da Nova Zelândia. Entretanto, tragédias como essa não devem ser discutidas apenas como casos isolados promovidos por pessoas em surtos psicóticos, mas sim por cidadãos em perfeito estado mental, sustentados pelo discurso de ódio e muitas vezes aclamados nas redes sociais.

De certa forma, seria injusto comparar as agressões e furtos sofridos por brasileiros com massacres tão extremos. Entretanto, a baixa repercussão e a omissão das autoridades em situações de discriminação mostra o quanto o Estado irlandês e a imprensa ainda têm fechado os olhos para o racismo e a xenofobia. Não se fala sobre o assunto nas ruas, e a forma como o governo aborda o tema é, na maioria das vezes, superficial.

Apesar dos problemas, a Irlanda ainda continua sendo o destino para milhares de estudantes e profissionais brasileiros. Os altos salários e a qualidade de vida oferecida pelo país são os principais atrativos. Em todo caso, se espera que a Irlanda continue a ser um espaço repleto de oportunidades, com a garantia de segurança, respeito e dignidade.

*Foto: Reprodução Alan Betson/The Irish Times

Um comentário sobre “Xenofobia na Irlanda: ao contrário de duendes e leprechauns, racismo na terra da esmeralda não é lenda

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