Coisa mais linda e empoderada: a força feminina aliada à sororidade

Por que a série ambientada há sessenta anos traz debates mais que atuais e urgentes?

Por Letícia Mouhamad

Há quase um mês, estreou na Netflix a série brasileira Coisa Mais Linda, protagonizada pelas atrizes Maria Casadevall, Pathy Dejesus, Mel Lisboa e Fernanda Vasconcellos, que dão vida à Maria Luiza, Adélia, Thereza e Lígia, respectivamente. Ambientada no final dos anos 1950, no Rio de Janeiro, a história destaca a importância da sororidade e da luta pelo direito das mulheres em um contexto permeado pela violência e pela exclusão. Além disso, trata de questões como racismo estrutural e representatividade feminina no ambiente de trabalho. Apesar de retratar o início da segunda metade do século XX, essas abordagens são muito atuais, fato que chamou a atenção do público, da crítica e fez com a série tivesse uma boa avaliação pelos usuários do Internet Movie Database (IMDb).

A história inicia-se com a rica paulista Malu (Maria Casadevall), como fica conhecida ao longo da série, chegando ao Rio de Janeiro e descobrindo que foi abandonada pelo marido, que a traiu e fugiu com o seu dinheiro. No momento de maior desespero, ela conhece Adélia (Pathy Dejesus), mulher batalhadora e que trabalha como empregada doméstica para sustentar a filha pequena, Conceição. As duas tornam-se amigas e posteriormente sócias do clube de música Coisa Mais Linda. Malu também é amiga de longa data de Lígia (Fernanda Vasconcellos), conhecida por sua voz exuberante, mas que deixa de cantar por conta do marido, e por meio dela conhece Thereza (Mel Lisboa), que escreve para a revista feminina Ângela e lida com o machismo diário em seu trabalho.

As questões de relacionamento tóxico e de violência doméstica ficam mais evidentes na personagem Lígia, que em determinados momentos é agredida e até estuprada pelo marido. Ele a proíbe de cantar em público e exige que ela se comporte da forma estabelecida por ele. Essas situações são totalmente naturalizadas, tanto pelo marido, quanto pelos outros personagens, como foi demonstrado no momento em que Lígia conta à sogra a violência que sofreu e ela, por sua vez, afirma “você deve ter dado motivos para isso”. A própria personagem acredita ser a culpada por essas agressões, até ser acolhida pelas amigas, que ao considerarem absurda tal situação, a defendem. Essa história parece familiar?

Em matéria publicada pela BBC News Brasil, é possível analisar os últimos dados referentes à violência contra a mulher e o resultado continua longe de ser comemorado. Nos últimos 12 meses, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, sendo que 42% ocorreram no ambiente doméstico. Além disso, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda. Outro fator preocupante são os dados referentes ao estupro marital, abuso sexual cometido dentro do casamento. Em 2016, foram feitas 890 denúncias, quase sete vezes a mais que em 2009, quando esse crime foi reconhecido pela Lei 10.015.

Com esses dados, é chocante pensar que tanto tempo após a situação retratada na série, tais problemas sociais, gerados e reforçados pelo machismo, estão mais presentes do que se imagina. A Lei Maria da Penha, por exemplo, que visa punir com mais rigor os agressores contra a mulher no âmbito doméstico e familiar, foi criada somente em 2006, e a Lei do Feminicídio foi sancionada há apenas quatro anos. Quase tão entristecedor quanto esses dados são os discursos propagados pelas pessoas e até por instituições, como “briga de marido e mulher não se mete a colher” ou ainda de que esses conflitos devem ser discutidos somente entre os membros da família, que corroboram para a permanência dessas violências.

coisa mais linda 4Helô e Thereza, interpretadas por Thaila Ayala e Mel Lisboa, respectivamente, na redação da revista Ângela.

Diferente de Lígia, que é impedida de trabalhar pelo marido, Thereza consegue exercer sua profissão com mais liberdade. A personagem é a única redatora da revista feminina Ângela, e tenta convencer seu chefe a contratar outra mulher, utilizando como argumento para persuadi-lo a possibilidade dele poder pagar um salário menor do que pagaria para um homem desempenhar a mesma função. Como combinado, Helô é contratada e se choca ao descobrir que quase todos os textos da revista eram escritos por homens que assinavam com nomes femininos e, apesar de não compreenderem de fato questões ligadas ao “mundo das mulheres” por não terem a vivência, se achavam muito mais aptos a exercerem os cargos que ocupam.

Não há como negar que houve conquistas significativas ao longo dos anos no que diz respeito à posição da mulher no mercado de trabalho, de forma que muitas passaram a ocupar cadeiras até então reservadas a homens, especialmente em chefias. Ligado a isso, observou-se que a liderança do lar, por exemplo, deixou de ser predominantemente masculina, uma vez que os dados demonstram que o número de famílias chefiadas por mulheres mais que dobrou em uma década e meia. Apesar disso, os problemas com relação à desigualdade salarial estão longe se serem resolvidos. Segundo o site de empregos Catho, que possui quase 8 mil profissionais cadastrados, a diferença salarial entre homens e mulheres em todos os cargos e áreas de atuação chega a quase 53%. Além disso, mulheres em cargo de chefia chegam a ganhar um terço do salário pago a homens que desempenham a mesma função.

coisa mais linda 5Adélia e Malu (Pathy Dejesus e Maria Casadevall) na inauguração do clube de música Coisa Mais Linda.

Se com Lígia e Thereza, mulheres brancas e em posições elevadas da sociedade, as problemáticas da violência doméstica e da desigualdade no ambiente de trabalho chamam a atenção por ainda serem uma constante na atualidade, com a mulher negra todas essas porcentagens se agravam, já que o machismo está aliado ao racismo. Este último fator, se antes praticado de forma explícita, com a evidente segregação entre negros e brancos, seja pelas condições de moradia ou até mesmo pela música, como é mostrado na narrativa, hoje ocorre de forma mais velada, fato que não o torna mais brando. Segundo o balanço do Ligue 180, 58,86% das mulheres vítimas de violência doméstica são negras, e de acordo com o Diagnóstico de Homicídios, 68,8% são mortas por agressão e têm duas vezes mais chances de serem assassinadas que as brancas. Além disso, a diferença salarial é gritante: a mulher negra graduada recebe 43% a menos que um homem branco, também graduado, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.

Outro fator de destaque é a relação intrínseca entre o preconceito de raça e o de classe, situação vivida pela personagem Adélia. Junto com Malu, ambas representam mulheres muito fortes e decididas, porém, esta última, quando está ao lado da sócia, parece ser retratada de forma inocente e até um pouco caricata, já que mantém certos discursos egoístas ao longo da narrativa. Adélia, em contrapartida, é a primeira a colocar em prática as ideias da amiga e até por ela é vista muitas vezes como serviçal, pela cor da sua pele. Em um dos momentos mais icônicos da série, a protagonista rebate Malu, quando esta se lamenta pelas dificuldades que tem ao lutar pelo direito de trabalhar, ao afirmar “eu trabalho desde os meus 8 anos de idade; a minha avó nasceu numa senzala e é difícil, viu? Eu trabalhei seis, sete dias da semana, saí de casa às quatro horas da manhã, ficava mais de uma hora no ônibus na ida e mais de uma hora no ônibus na volta e chegava em casa a Conceição tava dormindo. Tudo isso pra por um prato de comida na mesa, isso sim é relevante! Seu filho já te pediu alguma coisa que você nunca pôde dar? A minha já. A gente não é igual, você sempre teve escolhas, eu não”.

Coisa Mais Linda ainda retrata, com menor destaque, a relação homoafetiva de Thereza e Helô, as problemáticas do aborto e a questão da maternidade, presente em todas as personagens. Apesar de ser muito bem construída, de fazer um retrato interessante dos anos 1950 e de contar com boas atuações, é possível notar que a série peca em alguns momentos contrastantes com a perspectiva transgressora dessas personagens. Durante o trunfo do clube de música carioca, observa-se que Malu, com os lucros adquiridos, consegue comprar um apartamento para morar com o filho e ainda devolve o dinheiro de um empréstimo feito pelo pai. Enquanto Adélia, que como sócia deveria receber 50% dos lucros, continua morando na mesma casa em uma comunidade do Rio, fato que desafia a questão da mobilidade social. Outro fator incômodo diz respeito ao foco dado ao corpo das atrizes durante as cenas de sexo, especialmente aos seios, algo que não acrescenta nada à cena.

De toda forma, esses fatores não diminuem o valor de Coisa Mais Linda, que não poderia ter surgido em momento mais apropriado, mostrando que em 60 anos progrediu-se pouco com relação aos direitos das mulheres, e mais ainda, que essa luta deve ser constante, para que as vitórias conquistadas não sejam perdidas.

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