Cem dias de (des)governo

As trapalhadas, as polêmicas e a incompetência que circundam a nova gestão presidencial

por Catarine Cavalcante e Júlia Mano

O governo do presidente da república Jair Bolsonaro completou cem dias no dia 10 de abril. Esse período de mandato foi marcado mais por escândalos do que medidas realizadas em prol da população. O Planalto anunciou que foram cumpridas trinta e cinco metas prioritárias, entretanto, dezessete ainda estão em curso de aprovação — algumas, inclusive, paralisadas na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Por conta do mau relacionamento existente entre o executivo e o legislativo, o governo bolsonarista tem grandes dificuldades em ter suas pautas aprovadas.

Em tão pouco tempo, a atual administração já teve que lidar com problemas como: a demissão do ex-secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno; o uso de laranjas pelo partido do presidente (PSL) durante o período eleitoral; as investigações abertas direcionadas ao gabinete de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, por caixa dois, uso de laranjas, além de ações irregulares cometidas pelo seu ex-assessor Fabrício de Queiroz e sua filha, Nathália Queiroz. Além desses casos, também foi denunciado o envolvimento do clã Bolsonaro com milicianos cariocas. Para tirar o foco dos escândalos, era comum que alguma barbaridade acontecesse, como quando, no início das acusações de corrupção que os envolvia, a ministra Damares Alves roubou a cena dizendo que queria promover uma nova era em que meninos vestem azul e meninas vestem rosa.

A cortina de fumaça é uma alusão à estratégia militar de esconder suas forças ou veículos atrás de uma nuvem de fumaça, natural ou artificial, a fim de enganar e confundir o inimigo, facilitando o seu contra-ataque ou, caso necessário, fuga. Esse foi um método bastante utilizado pelos governos totalitários do século XX, atualmente é adotado pelo presidente Donald Trump e também por Jair Bolsonaro. Com o intuito de esconder as polêmicas relacionadas às ações corruptas e às trapalhadas que o envolvem não somente o presidente brasileiro, mas, também, os seus filhos que atuam como senador (Flávio), deputado federal (Eduardo) e vereador do Rio de Janeiro (Carlos).

A crise política instaurada sob o governo refletiu na avaliação dos três primeiros meses de seu mandato. O presidente teve a pior avaliação desde a redemocratização. Segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Datafolha, apenas um terço dos entrevistados (32%) consideram o governo ótimo ou bom, e 60% acreditam que o governante fez menos do que se esperava para esse período.

Em comparação aos antigos chefes do Estado brasileiro, Fernando Collor atingiu a marca de 36% daqueles que consideravam seu governo ótimo ou bom, FHC, 39%, Lula, 43% e Dilma, 47%. Quanto aos descontentes com Lula e Dilma, 45% e 39%, respectivamente, acreditaram que os ex-presidentes fizeram menos do que se era esperado para os primeiros 100 dias de mandato.

Quem é o brasileiro que aprova Bolsonaro?

De acordo com a pesquisa divulgada, o governo do atual presidente agrada, principalmente, aqueles que possuem uma renda familiar mensal mais alta, também, é mais bem visto entre os homens (38%), que entre as mulheres (28%). O que não é novidade, pois esse é o mesmo perfil de apoiadores que possuía no período eleitoral. A alta rejeição da região Nordeste ao capitão da reserva (única região em que foi derrotado no primeiro e segundo turno das eleições) também se manteve.

É necessário considerar que a maior parte da população ganha menos de cinco salários mínimos, e que, pelo menos em quantidade, o Brasil é um país mais feminino do que masculino. Conclui-se então, que Jair não tem a preocupação em promover um governo para todos, ele escolheu os poucos a quem precisa agradar. Afinal, mesmo não sendo maioria, os homens com alto poder aquisitivo são os que, para o bem ou para o mal, concentram maior poder político-social-econômico no país. O que parece é que ele quer colocar uns contra os outros.

Os jornalistas José Roberto de Toledo e Malu Gaspar, na penúltima edição do Foro de Teresina, podcast da rádio Piauí que trata sobre política, concluíram:

“Bolsonaro não quer a maioria, quer a maior minoria. A minoria mais engajada na ‘briga’, a que fizer mais barulho.”

Como Bolsonaro se comunica?

Foi declarada uma verdadeira guerra à imprensa. Desde o dia da posse presidencial, a classe jornalística sabia que os próximos anos não seriam fáceis. Durante a cobertura, foram submetidos a situações degradantes de espera e exigências absurdas, sendo desrespeitados como profissionais e seres humanos. Seus alimentos foram inspecionados, além da falta de acesso à água e banheiro. Ninguém devia ser obrigado a se sujeitar a tanto durante uma demanda profissional. Enquanto isso, youtubers e alguns jornalistas que demonstravam apoio a Bolsonaro receberam tratamento diferenciado e passe livre para posicionarem-se perto do novo chefe de Estado.

O jornal Folha de S. Paulo e a Rede Globo são considerados pelo capitão como seus principais “inimigos”, ele próprio fez esta declaração. Essa informação foi apresentada à população no escândalo de vazamento de áudios que foram enviados ao ex-secretário-geral da presidência, Gustavo Bebianno, via WhatsApp. O presidente declara que não quer nenhum desses veículos próximos ao Palácio do Planalto e nem obtendo informações com facilidade.

“Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto: eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se aproximando da Globo. Então não dá para ter esse tipo de relacionamento. Agora… Inimigo passivo, sim. Agora… Trazer o inimigo para dentro de casa é outra história.”. (Bolsonaro em mensagem de áudio enviada a Gustavo Bebianno)

Adotou um hábito de usar intensivamente as redes sociais, até mesmo os pronunciamentos oficiais são transmitidos ao vivo nas redes de forma extremamente amadora. Mas essa estratégia não é das mais bem sucedidas, durante o carnaval, o presidente postou em sua conta do Twitter um vídeo pornográfico com o intuito de criticar a maior festa tradicional do país. A atitude impensada foi o suficiente para que se fosse cogitado abrir processo de impeachment contra ele.

As idas e vindas do Governo Bolsonaro

Nove MP’s (medidas provisórias) foram enviadas ao Congresso Nacional, desde janeiro, mas nenhuma progrediu, algumas sequer tiveram relatores nomeados. Por conta do empacamento da Reforma da Previdência na CCJ, e a falta de articulações políticas de Jair, para que a mesma possa progredir, gerou  um descontentamento no presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o que ocasionou, há semanas atrás, troca de “farpas” entre eles, que intensificou ainda mais a crise que permeia o Planalto. A responsabilidade sobre sobre essa reforma está recaída sobre o “superministro” da fazenda, Paulo Guedes, visto que o presidente afirma que irá reproduzir em seu governo a nova política.

Outra reforma, que anda quase que arrastada, é o Pacote Anti-crime, do “superministro” da Justiça, Sérgio Moro, a figura presente no governo mais bem avaliada nestes três meses. O que se percebe, é que o presidente usa Moro para obter algum tipo de credibilidade. Graças a fama que o jurista alcançou durante a Operação Lava-Jato e por também ser o responsável pela expedição do mandado de prisão destinado ao ex-presidente Lula.

Para o brasileiro mais pessimista, a maior problemática da atual  gestão é da falta de atuação na economia. Segundo pesquisa do IBGE, a taxa de desemprego subiu para 12%, no trimestre finalizado em janeiro e atinge 12,7 milhões de brasileiros, com isso, há redução da circulação de dinheiro no mercado (ou seja, as compras feitas por pessoas comuns foram reduzidas). O grande interesse do mercado investidor estrangeiro é a Reforma da Previdência, mas a sua paralisação e crises administrativas e políticas envolvendo a mesma, colaborou para a a queda de investimentos na Ibovespa, o dólar comercial que acompanhou o mesmo ritmo da bolsa de valores e chegou a custar, R$3,954 reais

Como se educa no Governo Bolsonaro?

Algo que é impossível de se esquecer é que o Governo Bolsonaro desvaloriza a educação escancaradamente. Tem como “guru” Olavo de Carvalho, jornalista e astrólogo que também estudou filosofia por conta própria e está mais ocupado criticando o marxismo do que atento a questões reais. A sua estranha relação com o presidente lhe rendeu a alcunha de “Rasputin do subúrbio” pelo diplomata (afastado após essa declaração) Paulo Roberto de Almeida, que fazia alusão ao conselheiro do Czar no Império russo, historicamente culpado pelo seu fracasso. Olavo, opositor ferrenho da ideologia comunista, corrobora a neurose de que o comunismo é uma ameaça possível em pleno século XXI. Chegou até a indicar o ministro da educação (já demitido) Ricardo Vélez que achou de bom tom dizer que jornalistas que se opõem às suas medidas foram treinados pela KGB.

Enquanto isso, a paralisação de atividades essenciais no Ministério causou danos em vários setores da educação brasileira. Um exemplo, foi o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que está com a edição deste ano sob ameaça, o que prejudica o ingresso da população no Ensino Superior.

Pela primeira vez, o Brasil está vivendo um regime de extrema-direita, o que explica o percurso do atual representante do Estado ter sido incerto. Teme-se que se não mudar de postura, ele pode não completar seu mandato. Jair Bolsonaro precisa entender que é Chefe de Estado e precisa se comportar como tal. Sua campanha prometeu um salvador, mas na prática o que foi oferecido não é nada além de um um homem mediano e por isso se esconde sob uma guerra contra inimigos criados por ele mesmo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s