Alternativa ao preconceito

Por muito tempo sendo silenciados pelo Estado, pela população e pela mídia brasileira, jovens indígenas encontraram a oportunidade de falar sobre a cultura de seus povos em seus canais no YouTube

por Ana Luísa Corrêa

Desde criança, no Dia do Índio (19 de abril), somos ensinados nas escolas a “homenagear” os indígenas produzindo cocares e nos “fantasiando” com traços culturais de algumas etnias. No entanto, esta “homenagem” só serve para estabelecer e reafirmar preconceitos, além de difundir desinformação ao vender a ideia de que as culturas indígenas possuem características específicas, negando a sua imensa diversidade. O desconhecimento e a rejeição dos direitos dos povos indígenas encontram reforços tanto nas mídias tradicionais quanto no Congresso Nacional e no cargo mais alto do Poder Executivo, atualmente ocupado por Jair Bolsonaro.

Um caso recente de preconceito contra indígenas aconteceu em uma audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado Federal para debater a situação da saúde indígena. A sessão realizada no início deste mês, foi marcada pelo desrespeito e desconhecimento total em relação aos povos indígenas que foi sintetizada na fala da senadora Soraya Thronicke (PSL-MS). A senadora contestou o direito das terras indígenas e seu modo de vida, chamando-os de miseráveis. Thronicke foi respondida por uma das maiores lideranças indígenas do país e coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Sônia Guajajara, que deu uma aula sobre a relação dos povos indígenas com as terras deles. Sônia é do povo Guajajara/Tentehar que vive na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão.

A incompreensão e a desconsideração com os povos indígenas também é reforçada pelas mídias tradicionais. A pesquisa mais recente de monitoramento publicada sobre como os indígenas são retratados na mídia brasileira foi realizada pelo grupo Etnomídia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O resultado do estudo apontou que em um período de 19 meses, os 23 veículos de comunicação nacionais analisados, 1.411 reportagens se referiam a população indígena. Muitas dessas matérias são sobre conflitos de terra ou os indígenas como entrave para o desenvolvimento econômico. Entretanto, o fato mais importante revelado por este monitoramento é que na maioria das reportagens os indígenas raramente eram apontados como fonte de informação. Eles eram notícia, mas não tinham a sua versão do fato divulgada pela mídia.

Pensando nessas questões e em como as pessoas no Brasil desconhecem a diversidade das culturas dos povos originários, jovens indígenas começaram a criar canais no YouTube. A maioria do conteúdo publicado por esses jovens diz respeito à cultura de seus povos, desde rituais, o significado de algumas pinturas corporais à temáticas mais complexas. Um dos youtubers indígenas mais conhecidos é Cristian Wariu Tseremey’wa, ele é um indígena xavante com ascendência guarani. O canal de Wariu aborda diversos assuntos sobre a diversidade da cultura indígena, em alguns vídeos o jovem entrevista indígenas pertencentes a outras etnias.

No vídeo de apresentação de seu canal, que leva seu nome Wariu e conta com mais de 16 mil inscritos, ele fala sobre o que é ser indígena no século XXI.   

Hoje a tecnologia e, principalmente, a tecnologia da informação não está tirando nossa cultura como muitas pessoas acreditam. Pelo contrário, ela vem sendo uma grande ferramenta para que nós, indígenas, possamos mostrar a nossa realidade”, afirma.

Vídeo de apresentação do canal Wariu

Outra youtuber indígena que, segundo a descrição de seu canal, busca a desconstrução de estereótipos e a descolonização, é Katú Mirim, que tem ancestralidade Boe. Além de fazer vlogs, Katú também é cantora e compositora, suas músicas abordam não somente questões indígenas, mas elas são seu ponto principal. Uma de suas músicas mais reproduzidas no YouTube é Aguyjevete que contém um teor político e de resistência bem marcantes.

Música Aguyjevete de Katú Mirim

Os indígenas são considerados os povos originários desta terra, que hoje se chama Brasil, eles precedem 1500. Têm seus direitos previstos na Constituição de 1988 (Título VIII, Da Ordem Social, Capítulo VIII, Dos Índios) que incluem o direito à terra, respeito à sua organização social, aos seus costumes, línguas, crenças e tradições. Porém, o que é reforçado pelos meios de comunicação, pelos próprios dirigentes do Estado e pela sociedade brasileira é o preconceito e a desinformação. O que esses jovens indígenas trazem através do YouTube pode parecer algo pequeno, mas traz o que a mídia tradicional falha com esses povos e que é o bem mais precioso de qualquer democracia: a informação.  

2 comentários sobre “Alternativa ao preconceito

  1. Caroline Botelho Teixeira disse:

    Texto maravilhoso sobre um assunto às vezes muito esquecido ou abordado de forma muito generalizada! Não sabia sobre os youtubers indígenas e nunca nem tinha parado pra pensar que o youtube pudesse ser uma ferramenta tão boa nesse aspecto. Quando criança no máximo a minha turma da escola assistia documentários etnográficos, nunca algo inteiramente da perspectiva desses povos, tão íntimo e real como esses canais devem ser!

    Curtir

  2. Alessa disse:

    Muito bacana o texto! Em momentos de repressão e supressão da liberdade de expressão na mídia, encontramos essas alternativas maravilhosas! A título de informação, já que estamos falando de visibilidade de minorias, tem um projeto de educomunicação que visa o protagonismo das diferentes infâncias no Brasil, ele se chama Amoras! O projeto consiste basicamente em entregar câmeras para crianças e adolescentes de comunidades em situação de invisibilidade como, populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas para registrarem oque quiserem. O amoras entrega as câmeras pra garotada e o resultado é mara ❤

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s