O limite do humor: na Ucrânia, a presidência

Como um comediante foi eleito o próximo presidente no país da Europa oriental em sua primeira tentativa

Por Luís Abrantes

Após ter seu desabafo sobre o sistema político viralizado, o professor de história Vasyl Holoborodko acabou se tornando presidente da Ucrânia da noite para o dia. Essa é a introdução da série Servants of the People, estrelado pelo humorista e ator Volodymyr Zelensky desde 2015, que conta com 51 episódios. Na série, o protagonista é, essencialmente, um outsider, ou seja, não pertence ao meio político, anti-establishment (contrário a elite política) e principalmente anti-corrupção.

A partir do sucesso da série, o astro resolveu lançar sua candidatura a presidente não mais no campo fictício. De início, a empreitada parecia ser uma grande ironia ou parte de um experimento social do artista. Entretanto, Zelensky garantiu a seriedade de sua candidatura e passou a atuar de forma firme com discursos contundentes e, muitas vezes, surpreendentes para um novato na política.

Em poucos meses, a campanha ganhou força e Zelensky passou a ser favorito nas pesquisas presidenciais.  Com muita influência nas mídias sociais, o presidenciável sequer precisou ir a todos os debates ou se posicionar sobre alguns temas. A imagem de honestidade e sabedoria criada pelo personagem era praticamente indissociável do seu intérprete. O contexto vivido pelo país é importante para se entender os motivos pelos quais um ator ganharia tanto destaque em sua primeira experiência na política.

Crise de 2014 e o contexto atual

A história ucraniana é marcada por momentos de tensão. Dominada pela União Soviética durante toda a Guerra Fria, a nação, até hoje, tem dificuldades em se aproximar da Europa e ainda sofre com as pressões e intervenções do governo russo. O conflito mais conhecido dos últimos anos envolve a região da Crimeia, que foi anexada pela Rússia em 2014. A localidade é estratégica por se tratar de uma área rica em minérios e geração de energia.

Anteriormente, no final de 2013, o então presidente Viktor Yanukovytch havia sido derrubado após intensas manifestações populares. O ex-líder era acusado de ser um defensor dos interesses russos e da não-integração do Estado com a Zona Europeia, além de ser responsabilizado por diversos crimes contra os direitos humanos, que inclui a morte de manifestantes na capital Kiev. Nesse mesmo período, revolucionários pró Rússia iniciaram uma guerra civil na zona de Donbass. Como consequência, a economia do país contraiu 8% no ano de 2014 e a inflação alcançou quase 50% em 2015, de acordo com dados do Banco Mundial.

Esse foi o momento da Ucrânia nos três últimos anos, um território se recuperando de uma guerra civil, marcado por líderes corruptos e pela intervenção russa no governo. Dessa forma, não seria surpresa que em 2019 a população demonstrasse pouco interesse em políticos experientes, como é o caso do último presidente Petro Poroshenko. A análise dos fatos mostra que a presença de um outsider não seria um caminho inimaginável.

De toda forma, a pretensão de artistas na política não é nova. Há diversos exemplos tanto no Brasil quanto no mundo. Recentemente, o artista circense Tiririca se tornou o quarto deputado mais votado na história do Brasil. Mundo afora, o ator e fisiculturista Arnold Schwarzenegger foi eleito governador do estado da Califórnia de 2003 à 2011. De fato, o caso de Zelensky chama atenção por se tratar de um impacto definitivo da arte no cotidiano e imaginário de um povo, transpassando as bordas entre realidade e ficção.

“Fantoche de bilionário”

A série de Zelensky é exibida em um dos maiores canais de televisão ucranianos, cujo dono é o bilionário Ihor Kolomoisky, também atuante no setor bancário e de aviação. O empresário demonstrou total apoio ao candidato e durante a campanha eleitoral concedeu à estrela ainda mais espaço e tempo de televisão. Críticos afirmam que o candidato é, na verdade, apenas um fantoche dos oligarcas.

Apesar disso, as especulações não foram suficientes para derrubar a popularidade de Zelensky, que tem mais de 5 milhões de seguidores em sua conta pessoal do Instagram. Nas últimas pesquisas antes das eleições, a derrota de Poroshenko era quase certa, em que o próprio admitiu a derrota antes mesmo do resultado final.

Resultados e expectativas para o futuro

No dia 21 de abril, as expectativas se confirmaram e Zelensky foi eleito o novo presidente da Ucrânia com esmagadora vantagem sobre o rival, quase 75% dos votos. Como escolha de protesto ou não, o comediante será o mais novo representante do povo ucraniano a partir do início do próximo ano. Após esse ponto, a população saberá se o próximo líder será mesmo como o humilde e honesto professor de história Vasyl Holoborodko ou se é mais um defensor da elite oligárquica tão criticada em Servants of the People.

Para além das ironias do destino, a população espera do próximo líder menos entretenimento e mais ação. A comunidade, em sua maioria, deseja maior aproximação com a União Europeia e a retomada dos níveis de emprego e inflação na região. Dessa vez, o roteiro não está escrito e as atitudes dos personagens não poderão ser controladas. Para a Ucrânia, esperança; para a arte, mais uma imitação da vida.

*FOTO: REPRODUÇÃO QUARTZ

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s