Homecoming: a exaltação da arte e cultura negra

Como a maior artista da atualidade vem usando esse patamar para elevar a negritude e a sua ancestralidade

Por Luiz Oliveira e Larissa Lins

Em 17 de abril desse ano, a Netflix compartilhou para todos os assinantes o seu mais novo documentário original, Homecoming, dirigido e produzido pela cantora norte-americana Beyoncé Knowles-Carter. A produção traz os bastidores do seu show no festival Coachella, mas, também, de uma parte da sua vida e diversas reflexões sobre cultura e ancestralidade.

O Festival Coachella aconteceu em abril do ano passado nos Estados Unidos, e teve pela primeira vez uma mulher negra como atração principal desde a sua primeira edição em 1999. Mas a apresentação de Beyoncé não foi histórica apenas por isso. Desde seu último álbum, Lemonade, lançado em 2016, a artista vem levantando de forma muito significativa a bandeira do movimento negro e não foi diferente em seu show.

O “Beychella”, nome atribuído ao concerto, veio com a proposta de levar ao palco de um dos maiores festivais de música dos EUA a cultura das universidades negras norte-americanas. Foram citadas obras de pensadores negros, como Malcom-X e a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie também foi lembrada. Consequência do movimento segregacionista, as universidades negras são centros acadêmicos efervescentes de manifestações culturais através da dança, com os estilos Step e Hip-Hop.

Toda a beleza, força e resistência que essas universidades representam foram elevadas à maior potência em um espetáculo de mais de duas horas de duração, tendo espaço para todos aqueles que estavam presentes brilharem. Centenas de pessoas estavam envolvidas, cerca de 200 dançarinos, além da banda, orquestra e produção, cada um escolhido meticulosamente por Beyoncé. A artista conta no documentário que queria que todos aqueles que já se sentiram deslocados em algum momento da vida, pudessem se ver naquele momento.

A repercussão  do show foi enorme na mídia. A primeira apresentação foi transmitida ao vivo pelo canal do Youtube do festival; no dia posterior, foi o mais comentado assunto nas redes sociais e nos veículos de imprensa, atingindo o primeiro lugar nos trending topics mundiais do Twitter. O documentário também não deixou a desejar, a começar pela a sua divulgação misteriosa até com  outdoors que sequer tinham o nome da artista, algo já comum se tratando da cantora. O boca a boca foi grande na quarta-feira, 10 de abril, dia do lançamento. Muitos queriam assistir para poder comentar com os amigos, sem mencionar a aclamação da crítica. O documentário ganhou nota 92 no metacritic, site americano que reúne críticas de álbuns, filmes, séries, livros e videogames, e 98 pelo álbum que foi lançado junto em todas as plataformas de streaming.

O documentário mostrou não apenas a grande profissional que é  Beyoncé, mas também suas inseguranças e vulnerabilidades. Por um lado, estava uma mulher extremamente competente que acompanhou e realizou cada decisão, ensaio e roteiro. Por outro, uma mulher com duas crianças recém nascidas, uma filha um pouco mais velha e um marido. A artista estava escalada para a edição de 2017 do Coachella, mas logo descobriu a gravidez dos gêmeos Sir e Rumi. Então, por recomendações médicas, adiou o show para o ano seguinte.

A partir daí ela mostrou obstáculos e a pressão que sofreu para ter seu corpo em forma novamente depois do pós-parto. Falou da saudade que sentia da família e de o quanto se sentia perdida, de momentos nos quais não sabia quem era e achava que nunca seria novamente a mulher que era antes. A importância de mostrar suas inseguranças, para além da imagem impenetrável que passa, a aproximou de tantas outras mulheres que têm as mesmas dúvidas e inseguranças; que sentem e sofrem com a pressão de se manterem impecáveis, sem espaço pra erros.

Seu comprometimento com a valorização da cultura negra é verdadeiro e pulsante, podendo-se destacar que após a apresentação no Coachella, ela anunciou a doação de 100 mil dólares em bolsas de estudo para jovens entrarem em quatro universidades historicamente negras: Universidade Xavier, na Louisiana, Universidade Wilberforce, em Ohio, da Universidade Tuskegee, no Alabama, e Universidade Bethune-Cookman, na Flórida. Destaca-se o seu apreço em manter vivo o legado dessas instituições.  

Beyoncé se tornou uma das artistas mais influentes da atualidade e vem usando esse patamar para elevar a cultura negra e não deixar sua ancestralidade para trás. Ela traz, constantemente, homenagens e arquétipos de outros símbolos importantes, enaltecendo outras mulheres, como Nina Simone, explora também referências Iorubás, como a orixá Oxum no clipe musical do seu single Hold Up. Fala de violência policial e leva as mães pretas que perderam seus filhos a espaços de visibilidade, para que elas mostrem e falem sobre sua dor. Ela é, sem dúvidas, muito corajosa por dar uma guinada em sua carreira usando direitos civis negros como sua principal bandeira, pois o público branco estadunidense quase deixava passar despercebida sua identidade negra.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s