FILANTROPIA ACADÊMICA

Por Luiz Martins da Silva

Um dos calafrios advindos das urnas de 2018 foi a admiração ardorosa do “nosso” principal eleito pelos Estados Unidos, leia-se Trump. Como seria bom se executivos brasileiros percebessem o quanto a sociedade norte-americana oferece paradigmas nos campos da cultura, da educação, e num particular neste momento em foco, a filantropia universitária. Esta faceta dos “americanos”, entretanto, é pouco lembrada.

Recobro, aqui, a declaração-epígrafe de um embaixador do Brasil em Washington, ao tempo do “nosso” presidente-marechal Castelo Branco. “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”: Juracy Magalhães. Na prática, entretanto, os políticos brasileiros entendem isto como: vamos propor e adotar o “alinhamento automático” com o xerife do mundo e pelo menos os últimos 50 anos demonstraram o quanto o procedimento “americano” foi desastroso e o quanto essa atitude dos governantes e diplomatas brasileiros foi simplesmente voluntariosa e ingênua.

Vamos separar, então, o que tem sido a política norte-americana do que tem caracterizado o espírito cívico e empreendedor do povo e de personalidades norte-americanas que passaram a incorporar na sua pretensa “ética protestante” não somente a riqueza honesta (e, portanto, abençoada), mas também a dádiva de uma parte dela.

A atuação internacional dos EUA é intervencionista e interesseira; golpista e estratégica. Nela, o planeta é um mapa-múndi sobre a mesa, tabuleiro de manipulações e movimento de peças na sempiterna busca pela hegemonia internacional e seus tentáculos, exuberantes e beligerantes o tempo todo: na política externa, no comércio, na militarização dos conflitos e no jogo sujo dos bastidores, a mitológica sigla, a CIA. Existe, no entanto, outros Estados Unidos, a despeito do conjunto da obra, que é um império.

Aqui, neste comentário, o recorte é o altruísmo com que personalidades norte-americanas dão suporte a causas, tanto sob a forma de capital simbólico (a força do prestígio) quanto sob a face de capital financeiro, sabendo que não se trata de “dinheiro perdido”, mas de investimento no futuro e na edificação de uma memória nela a se colocarem no panteão dos maiorais na prática da filantropia. Estou me referindo aos patronos que tendo alcançado em fortuna pessoal o que muitos países não têm em PIB, decidem ser restitutivos, ou seja, “doam” à sociedade uma parcela do que acumularam no talento para os negócios. É então quando se lembram da alma mater que lhes serviu de abrigo e ampliação de suas inteligências: a universidade.

Nos meus tempos de jornalista, integrei uma comitiva deles, a excursionar por organizações de imprensa e acadêmicas, no contexto de um curso sobre mídia nos Estados Unidos. Fiquei sabendo, então, que numerosos terrenos destinados a serem campi universitários tinham sido doados por fazendeiros. E que prédios monumentais subsequentes tinham sido edificados com dinheiro de magnatas. O próprio civic journalism, que teve origem nos EUA, foi originalmente patrocinado por um ricaço do petróleo: ele queria fortalecer financeiramente projetos relacionados com a democracia e com uma imprensa engajada no enfrentamento de problemas das comunidades, violência e drogas, entre eles. Paralelamente, campanhas em favor do voto consciente. Detalhe: exigiu anonimato.

É claro que alguém na leitura destas linhas fará a associação imperiosa do momento, o drama vivido pelas universidades públicas brasileiras, alvo de uma compreensão estranha, a serem punidas por suposta conivência com “balbúrdias”, visão corrigida e ampliada. Inicialmente, UnB e mais duas, como as ovelhas negras do pedaço e, por fim, o remendo desastroso: corte de vagas generalizado. A filantropia não diz respeito ao modelo brasileiro concebido originalmente, de ensino público gratuito e de qualidade ser tarefa constitucional do Estado. E filantropia será sempre algo suplementar. Entretanto, se olhamos tão atentamente para a maneira como os presidentes americanos fazem estilo (lembram-se de Kennedy?) e se consumimos tudo que está in no american way of life, por que não dar uma olhadinha no quanto os bill gates do Capitalismo fazem dos bolsos cornucópias de onde jorram fartos dólares para as universidades. Em outras palavras, quando o Estado é perverso e cruel, acariciar o ego das personalidades que vieram ao mundo milionárias sem precisar, necessariamente, ganhar na mega-sena acumulada pode ser uma jogada, e bem em sintonia com as mentalizações do best-seller O segredo.

Já pensaram no quanto os ex-alunos afortunados podem se voltar outra vez apaixonados pela sua universidade e serem imensamente gratos pelo quanto receberam em matéria de redimensionamento intelectual, espiritual e emocional? Quem saber venham aderir a campanha “UnB, sua linda!” Não seria lindo?

 

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