O papa que desceu do trono e corre o risco de não voltar mais

O papa Francisco está sob julgamento após acusações de heresia e a pergunta que fica é: estaríamos voltando à Idade Média?

Por Millena Campello

Após tantas medidas que visam o acolhimento de pessoas, independente do estado civil ou escolha sexual, o papa Francisco começou a ser mal visto pelos conservadores da igreja Católica. Em fevereiro de 2017, os bairros próximos ao Vaticano amanheceram cheios de cartazes criticando o pontífice. Poucos dias depois, os cardeais receberam uma versão falsa do jornal L’Osservatore Romano, com oposição ao papa.

Nas redes sociais como o Twitter são comuns os comentários contra e a favor De Francisco. Na igreja, as opiniões também estão bastante divididas. Neste ano de 2019, em vez de ataques anônimos, o papa foi acusado de heresia por cardeais da igreja, que afirmam que o pontífice não tem dado devida relevância a temas muito sérios.

Eleito no dia 13 de março de 2013, o atual Papa já começou seu mandato com certo ineditismo: pela primeira vez, a Igreja Católica tem um líder jesuíta, latino-americano e que adotou o nome de Francisco. As exceções não param por aí. Desde o primeiro dia como Papa, utilizou vários gestos simbólicos, ressaltando sua simplicidade. 

Na primeira missa depois de eleito, vestiu-se com as mesmas roupas dos cardeais, sem nada que o diferenciasse, além do título. No lugar de um anel de ouro, deu preferência a um de prata, folheado de dourado. Na hora da homilia, discurso em que faz reflexões sobre a leitura do dia, em vez de sentar-se no trono, discursou com poucas palavras e com uma frase deixou claro todas as mudanças que pretendia fazer: “Se não professamos Jesus Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do Senhor” . Após a missa, não foi em sua limusine para o hotel, preferiu ir de ônibus, na companhia dos cardeais.

Apesar do seu bom humor e gestos tão cordiais, Francisco assumiu o poder em um período nada favorável: além da Igreja Católica enfrentar vários escândalos de pedofilia dentro da instituição e perder aos poucos o número de fieis ao redor do mundo, houve a histórica abdicação do Papa Bento XVI.

Enfrentou grande resistência de pessoas do Clero, que possuíam uma cabeça mais fechada à mudanças. Contudo, nada foi capaz de deter as reformas que esse Papa quis fazer. Desde 2013, ano da sua posse, ele já criticou várias atitudes tidas como comuns dentro da ordem católica e com isso, polemizou muitos temas, o que o levou a receber uma denúncia de heresia, pela parte mais conservadora da Igreja Católica. 

Mães Solteiras

No dia 25 de maio de 2013, em uma homilia, o papa criticou, de certa forma, os que se negam a batizar o filho de uma mãe solteira, que segundo ele, teve a coragem de continuar uma gravidez: “Pensai numa mãe solteira que vai à Igreja, à paróquia, e diz ao secretário: quero batizar o meu menino. E quem a acolhe lhe diz: ‘não, você não pode porque não está casada’. Atentemos que esta mulher que teve a coragem de continuar com uma gravidez, o que é que encontra? Uma porta fechada. Isto não é zelo! Afasta as pessoas do Senhor! Não abre as portas! E assim quando nós seguimos este caminho e esta atitude, não prestamos o bem às pessoas, ao Povo de Deus. Jesus instituiu 7 sacramentos e nós, com esta atitude, instituímos o oitavo: o sacramento da alfândega pastoral.”

Em 2015, durante sua passagem pelos Estados Unidos, mandou uma mensagem para uma mãe solteira que buscava consolo, dizendo-a para andar de cabeça erguida, porque em vez de matar suas filhas no útero, ela resolveu trazê-las ao mundo.

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Aborto

Embora seja claramente contra o aborto, não o condena, como tantos outros membros da Igreja. Ao contrário, compreende a “angustiante” situação que passam as mulheres que abortam. Em novembro de 2016,  autorizou, de forma definitiva, os padres à absolverem mulheres que fizeram aborto, já que segundo ele, “não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir”.

“Para que nenhum obstáculo se interponha entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, de agora em diante concedo a todos os sacerdotes, em razão de seu ministério, a faculdade de absolver a quem tenha procurado o pecado do aborto”, escreveu em uma carta apostólica.

Disse ainda: “Quero enfatizar com todas as minhas forças que o aborto é um pecado grave, porque põe fim a uma vida humana inocente. Com a mesma força, no entanto, posso e devo afirmar que não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, ali onde se encontra um coração arrependido”. No dia 9 de abril de 2018, o papa alertou: “Lutar contra injustiça é tão importante quanto combater ao aborto”.

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Homossexualidade

Embora o papa não aprove o comportamento, ele critica a perseguição dentro da Igreja católica aos homossexuais: “Se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O Catecismo diz que não se deve marginalizar essas pessoas por isso. Elas devem ser integradas à sociedade. O problema não é ter esta tendência. Devemos ser irmãos.”, declarou ao jornal espanhol El mundo.

Ao que parece, o papa não acredita que as pessoas escolhem ser gays ou lésbicas, mas nascem assim. Juan Carlos Cruz, vítima de estupro, teve uma reunião privada com o papa Francisco, e em entrevista ao El país, ele contou:  “O Papa me disse: ‘Juan Carlos, que você é gay não importa. Deus te fez assim e te ama assim, e eu não me importo. O Papa te ama assim. Você precisa estar feliz com quem você é’”. Em 2017, o papa escreveu uma carta à um casal homossexual que batizou os filhos na Igreja Católica, parabenizando-os.

Abusos sexuais

No dia 9 deste mês, o papa aprovou uma lei que obriga os religiosos a denunciarem casos de abusos sexuais. Além de falar dicas de como proceder, o papa também admitiu histórico de abusos sexuais de padres e bispos contra freiras.

Sobre a pedofilia praticada dentro da igreja e encoberta por membros, como o caso do Juan Carlos, citado anteriormente, o papa pediu desculpas e falou que “jamais tentará acobertar ou minimizar nenhum caso”, levando a justiça para qualquer um.

Para o papa, “se um único caso de abuso é descoberto na Igreja – o que por si só já representa uma atrocidade –, ele será encarado com a maior seriedade”. Assim, o objetivo da Igreja, “será escutar, tutelar, proteger e cuidar dos menores abusados, explorados e esquecidos, onde quer que estejam”.

Divórcio

Para os conservadores católicos, o divórcio pode ser considerado um pecado. O papa Francisco, no entanto, declarou em uma homilia que às vezes “o casamento não funciona e é melhor se separar para evitar uma guerra mundial”.

Contudo, isso não significa que o pontífice apoie o divórcio, muito pelo contrário: “Nós nos esquecemos porque hoje está na moda nas revistas, nos jornais, falar assim: ‘Esse se divorciou desta’. Mas, por favor, isso é uma coisa ruim. Eu respeito todos, devemos respeitar as pessoas, mas o ideal não é o divórcio, o ideal não é separação, o ideal não é a destruição da família. O ideal é a família unida”, declarou.

Em 2015, o papa esclareceu uma grande questão dentro da igreja ao afirmar que “os divorciados não estão ex-comungados, fazem parte da igreja” e para concluir o raciocínio, completou: “A Igreja não tem as portas fechadas para ninguém.”.

Ataques 

O Papa Francisco tem um posicionamento de “quem sou eu para julgar” nos assuntos mais polêmicos, pregando sempre o acolhimento. Sua postura quebrou vários pensamentos conservadores, que levavam padres à não batizarem filhos de mulheres solteiras, ou de homossexuais, que não perdoavam mulheres que haviam cometido aborto ou se divorciado e ainda julgavam gays e lésbicas.

Justamente por essa forma de agir mais liberal, neste mês, o Papa foi acusado por 19 sacerdotes e teólogos de cometer heresia. Essa denúncia só prova ainda mais o embate vivido pelos seguidores do papa Francisco e pelos ultraconservadores católicos, que acreditam que o papa está suavizando demais assuntos sérios como divórcio, homossexualidade e aborto. A acusação será julgada por um grupo derivado da Santa Inquisição, a Congregação para a Doutrina da Fé.

Nas redes sociais, os fieis já se posicionam a respeito da denúncia:

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A grande pergunta é: e se o Papa for considerado um herege, quais seriam as consequências? O que será que os fieis iriam fazer?

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