Divino Amor: o que um olhar futurista nos diz sobre o presente?

Brasil vive uma distopia, com um povo conservador que espera pelo seu Senhor enquanto experimenta o puro amor em festivais retrô e cultos no longa-metragem nordestino “Divino Amor”

Por Christine Santos e Lucas Guaraldo

O mais recente filme do diretor Gabriel Mascavo está vindo para as telas. Após o reconhecimento trazido por Boi Neon (2017), o pernambucano lança Divino Amor depois de tê-lo exibido no Festival de Sundance e no Festival Internacional de Cinema de Berlim.  A obra promete um cenário futurístico e distópico para o Brasil de 2027 dentro deste longa-metragem. O primeiro trailer saiu na segunda-feira (13) pela Vitrine Filmes junto a uma sinopse que faz questionar a realidade política e social na atualidade.

A direção de arte, com o uso de tons neon para compor o tema retrô futurista, aproxima esteticamente Divino Amor de Boi Neon, muito por causa da influência do mexicano Diego Garcia, que participou dos dois projetos de Mascavo como diretor de fotografia. A escolha estética combina com a opção do filme de imaginar o futuro com base no presente e não apenas em sonhos utópicos, como costumam fazer as ficções científicas.

É possível notar que o filme utiliza de uma tecnologia para contar essa história, como a contagem e armazenamento de dados de mulheres grávidas, de casais, de fetos em formação e a montagem da festa que contrasta com o tradicionalismo imposto pelo contexto vivido. É bem claro que os personagens vivem em uma sociedade sem privacidade perante ao Estado, onde têm que viver seus relacionamentos em sigilo.

O filme tem como protagonista a atriz Dira Paes (Redemoinho, Ó Pai, Ó) que viverá Joana, uma escrivã de cartório muito religiosa que usa de seu poder para evitar que casais se divorciem, atraindo-os para o grupo de terapia religiosa de casal denominada “Divino Amor”. Ao mesmo tempo em que faz o possível para evitar essas separações, ela própria está vivendo uma crise em seu casamento. Nessa busca incessante pela aprovação divina e um reconciliamento com o marido, ela vai acabar se aproximando mais de Deus. O elenco também conta com Júlio Machado, Mariana Nunes, Emílio de Melo, Thalita Carauta e Teca Pereira.

Além disso, o Carnaval deixou de ser a festa mais comemorada no Brasil, sendo substituída pelo festival do ‘Amor Supremo’, onde se comemora “a espera pela vinda do Messias”, que mesmo sendo um festival religioso parece ter a cara de um festival de música secular ou até mesmo o próprio Carnaval, mantendo os tons retrofuturistas.

Apesar de se passar em um futuro distópico, o filme não foge dos temas atuais do Brasil, afirmando que para entendermos o futuro, precisamos olhar para o nosso presente. Temas como o teocentrismo crescente no cotidiano do país, radicalização de crenças religiosas e a participação da própria religião cristã em temas socioeconômicos são centrais não só para o filme, mas também para o atual governo.

Revistas especializadas, como a Variety, que cobriam o festival de Sundance, onde o filme foi exibido, ressaltaram essa relação de Divino Amor com a realidade do Brasil no últimos anos, especialmente no âmbito religioso, e como Mascavo usa a linguagem da ficção científica para criar um debate mais sério sobre as consequências dessa recente mudança social.

Com data de estréia prevista para o dia 15 de agosto, Divino Amor já começou a gerar debates dentro e fora da indústria cinematográfica brasileira, com fãs prevendo a volta de um cinema nacional engajado em causas sociais e com mais força nos festivais internacionais. Resta esperar o lançamento para analisar-se a real influência no público e a interação das igrejas neopentecostais com os temas polêmicos abordados pela obra.

Vale lembrar que no presente acontecem discussões frequentes, marcadas por ideais crescentemente radicais, sobre temas como sexualidade, aborto e a influência religiosa na política dentro do cenário político e religioso. É um filme para refletir sobre que caminho seguido pela sociedade e o impacto que as decisões tomadas hoje têm em uma possível regressão aos valores e direitos conquistados.

 

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s