Parintins para o mundo ver… mas o Brasil vê?

Os caminhos para trazer o Festival Folclórico, agora patrimônio cultural, aos olhos do país outra vez

Por Daniele Brandão

Em 2019, o Festival Folclórico de Parintins será realizado pela 54ª vez. O último fim de semana de junho é o período em que a cidade amazonense, localizada a 370 km de Manaus, torna-se quase a capital do Estado. São três dias – neste ano, de 28 a 30 – nos quais a disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido destaca-se entre as festas do Norte brasileiro e movimenta a ilha Tupinambarana. O Bumbódromo, centro nervoso da festa, está preparado para o espetáculo.

Este é o primeiro ano em que o Festival ocorrerá sob a marca de Patrimônio Cultural, como parte do chamado Complexo Cultural do Boi-Bumbá do Médio Amazonas e de Parintins, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A manifestação surgida nesta área do Amazonas é uma variação do auto do boi, tradicional no Nordeste, e se desenvolve há pouco mais de cem anos. Os bois de Parintins são os mais conhecidos, mas há outras associações folclóricas de boi-bumbá nos municípios próximos, como Barreirinha, e em seus distritos. As influências indígenas e caboclas na brincadeira do boi geraram, ao longo do tempo, uma identidade específica, que se reflete em outras festas da região.

Traçando uma breve linha do tempo, pode-se afirmar que o evento ganhou maior alcance nacional no decorrer da década de 1990, com as transmissões do canal via satélite Amazon Sat, pertencente ao Grupo Rede Amazônica, que era sintonizável por meio de antenas parabólicas e assim chegava a outros estados. Nessa mesma época, o grupo Carrapicho estourou nas paradas com a música “Tic tic tac” e os dois Bois também estiveram em programas de televisão, junto com suas maiores vozes, que eram, então, David Assayag, no lado vermelho, e Arlindo Júnior no azul. Foi também aí que a atenção de públicos de outros países, interessados em conhecer a Amazônia e seus costumes, voltou-se para a ilha Tupinambarana.

Mas o impacto do conhecimento repentino sobre a festa não foi acompanhado por um aprofundamento proporcional da mídia nas décadas seguintes. A experiência da Band, que transmitiu as edições entre 2008 e 2012, e a atual parceria da TV Cultura com a emissora amazonense A Crítica, iniciada em 2018, podem ser entendidas como tentativas distintas de nacionalizar o Festival. Por que, então, o alcance dentro do Brasil ainda não é tão significativo como deveria?

Análises de mídia têm fundo social amplo, em especial quando se trata da cultura. Não é coerente falar só de partes técnicas nessa temática. Se uma manifestação folclórica não é conhecida por uma parcela considerável da sociedade, ou se é alterada comercialmente de tal forma que dificulte o acesso de novos públicos a ela, é necessário mostrar as falhas e também as possíveis soluções.

É só recordar a existência da rivalidade centenária entre o boi da estrela e o do coração no mês de junho, por poucos minutos, não a fixa na memória das camadas que mais consomem televisão aberta, por exemplo. Neste ponto, é importante atentar a algumas questões que interferem negativamente: a influência comercial nas programações das emissoras de TV, as condições socioeconômicas da população que é público-alvo em potencial, a divulgação das próprias atividades pelas associações folclóricas e a regionalização da festa.

Para exemplificar a primeira delas, as empresas que compram espaço publicitário na grade de uma emissora e anunciam nas transmissões esperam retorno financeiro. A baixa divulgação de um evento para outros mercados faz dele um “produto” não atraente para os anunciantes que poderiam vincular suas marcas, especialmente na televisão, que regula a permanência de qualquer programa em sua faixa pelos números dos medidores de audiência, isso é decisivo.

Mas, ao mesmo tempo, é pouca a visibilidade dada ao Festival por parte dos patrocinadores. Por exemplo, duas grandes companhias fabricantes de bebidas estão entre as marcas apoiadoras, mas a publicidade feita por elas em refrigerantes e cervejas está restrita ao Amazonas. As latas de Brahma com os desenhos e as cores dos Bois são exceções que não alcançam outros rumos através de seus produtos vendidos nas demais regiões. A Coca-Cola chegou a abrir uma exceção no seu padrão cromático tradicional entre o final dos anos 90 e o início da década de 2000 para também vender latas azuis e se firmar junto à torcida do Caprichoso. Atualmente, não o faz mais.

Em seguida, o viés de reportagens que tratam determinados assuntos da Região Norte – feitas sempre por profissionais de outros lugares – acaba por reforçar os estereótipos existentes em relação a este bloco do Brasil, o que também afeta a percepção interna e externa sobre a cultura regional. A distância é usada como polo negativo, como se as dimensões do território brasileiro impedissem de conhecer mais o próprio país.

As matérias esporádicas que saem nas TVs e revistas fora do Norte focam apenas no exotismo do Festival e da região amazônica, impondo um olhar etnocentrista e enfraquecendo a personalidade do que acontece ali: uma série de apresentações de grande vigor artístico e estético em termos musicais, plásticos e coreográficos, que chamou a atenção de Jorge Aragão, Fafá de Belém e Joãosinho Trinta, entre outros, e abriu as portas do Carnaval do Rio e de São Paulo para os artistas parintinenses mostrarem seu talento em esculturas, pinturas, figurino e alegorias.

As grandes redes de comunicação ainda ignoram o Festival de Parintins ou o tratam como subcultura, incluindo-o em um nicho, não considerando seu impacto e ao mesmo tempo silenciando-o, enquanto o IPHAN o reconhece como parte de um núcleo culturalmente relevante. É um paradoxo estranho, mas normalizado – reflexo do comportamento do país como um todo.

Aliados à publicidade falha e aos estereótipos, o alto custo dos pacotes de viagem vendidos e o aumento dos preços na cidade durante a temporada também são barreiras sérias, o que aponta para a elitização. As empresas aéreas e a companhia que vende os ingressos para áreas especiais do Bumbódromo nas três noites embasam-se nas constantes mudanças econômicas para justificar os valores, o que é coerente, mas segrega quem não pode pagar.

Ao passo em que a regionalização é essencial para reforçar o orgulho do amazonense em relação às suas tradições, as associações folclóricas precisam “sair da casca” e inverter o processo. Para rebater a presença mínima na mídia nacional, os Bois têm reforçado sua presença nas redes sociais e a interação com os seguidores. No entanto, não há iniciativas que apresentem a festa e expliquem sua dinâmica para quem ainda não a conhece.

Atrair a atenção do povo passa por ir a outros estados, saindo das zonas de classe alta e não se restringindo ao eixo Rio-São Paulo. Nacionalizar-se não é perder a essência, mas fortalecê-la, levando em conta que esse movimento surgiu entre as camadas mais baixas da sociedade e não deve ficar restrito às elites.

Evidente que o momento é desfavorável para a cultura brasileira, com cortes que atingem todas as esferas imagináveis; o próprio Festival foi afetado com a redução do limite de verba a ser captada através da Lei de Incentivo à Cultura, e isso faz as associações cada vez mais dependentes de recursos publicitários dos patrocinadores.

Mas essa situação pode e deve ser transformada em favor dos Bois, usando a força da internet e das mídias independentes para se aproximar de novos públicos e atingir um campo que os veículos tradicionais não querem alcançar.

Como todas as festas sazonais do país, o Festival Folclórico de Parintins prova que é possível aliar tradição e inovação. Acima de tudo, manter Caprichoso e Garantido na linha de frente midiática durante todo o ano é reafirmar a valorização desse patrimônio cultural do Norte – que agora também é do Brasil.

(Um agradecimento especial aos amigos Welmer Sales, Mateus da Rosa, Dennys Ricardo, Isadora de Mélo, Larissa Assayag, Dihego Soulli e Gabriel Marinho pela “tempestade de ideias” que ajudou a fortalecer este texto)

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