O confronto entre ideias no “mundo cão” da internet

A necessidade de reações rápidas a notícias tem ocasionado atitudes hostis e desentendimentos constantes

Por Letícia Mouhamad

É comum abrir o campo de comentários em alguma publicação do Facebook e ofender-se com opiniões que destilam ódio gratuito? Ou mesmo incomodar-se ao ler comentários de pessoas que demonstram conhecer pouco sobre o que estão argumentando? Se sim, é possível confirmar a tese proposta pelo psicólogo americano Devon Price, na qual afirma que a cultura do comentário, ou seja, a necessidade de inserir comentários em absolutamente tudo, está prejudicando conversas significativas e debates saudáveis. Segundo Price, esse problema social acarreta algumas consequências negativas como a promoção de pensamentos reacionários, a desvalorização do conhecimento, a distração, o enfurecimento e a exploração das emoções em detrimento do lucro.

Se antes a internet era um ambiente em que a leitura prevalecia, no qual a interação era mínima e reservada  a salas de bate-papo, hoje é possível acrescentar comentários em qualquer coisa, desde uma notícia de descoberta científica até uma foto de celebridade. Além disso, os emojis surgiram para alavancar as emoções nas redes sociais, incentivando discussões, demonstrando apoio a um posicionamento ou mesmo debochando de uma postagem. Rapidamente, esses espaços transformam-se em campos de batalha, vencendo aquele que obtiver mais likes, por mais que o seu argumento, muitas vezes, não seja tão brilhante assim. O ápice desse caos ocorre quando as pessoas começam a se agredir verbalmente e a disparar comentários carregados de intolerância que, em algumas situações, passam até despercebidos, já que o agressor esconde-se em discursos que já foram incorporadas pela sociedade. Menos pelas vítimas.

Esse clima de hostilidade intensificou-se no período do segundo turno das eleições do ano passado. Em matéria publicada pela BBC News Brasil, é possível observar como houve um salto nas denúncias relacionadas ao crime de ódio na internet, que foram encontradas especialmente no Facebook. Aquelas com teor de xenofobia cresceram 2.369,5%, de apologia e incitação a crimes contra a vida, 630,52%, de neonazismo, 548,4%, de homofobia, 350,2%, de racismo, 218,2%, e de intolerância religiosa, 145,13%. Observa-se, no entanto, que esses criminosos, ao praticarem tais atos, utilizam a desculpa de que estão dando apenas as suas opiniões, exercendo a liberdade de expressão, ainda que isso interfira na integridade das vítimas.

A mídia, em especial os jornais, se aproveita dessa movimentação em suas postagens, uma vez que os anunciantes – que mantêm a receita de muitas dessas empresas – lucram com a atenção do leitor, bem como com a quantidade de visitas que este faz ao site para comentar alguma notícia. Em resumo, nas palavras de Price, “quanto mais os leitores visitam um site, mais ‘globos oculares’ existem para os anúncios, e mais o anunciante pagará. Uma maneira de obter uma tonelada de visualizações em uma postagem é escrever algo com um título confuso ou provocativo. Muitas vezes, é melhor, em termos de opiniões recebidas, ter um título que seja ousado e desafiador do que ter um que seja nuançado e preciso”. Por isso, é tão comum, em matérias que tratam de questões polêmicas, utilizar nomes com tons sensacionalistas. Somada a essa constatação está a de que apenas uma minoria dos usuários leem as notícias completas; a maioria lê apenas o título.

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                          Notícia veiculada pelo jornal brasiliense no início do ano.

Recentemente, notam-se essas atitudes muito presentes em notícias relacionadas à educação, em especial acerca da educação pública. Em janeiro, o Correio Braziliense publicou uma notícia  em que relatava a prisão de um jovem por tráfico de drogas na Asa Norte. Chamou a atenção o fato de como o título foi escrito, no qual afirma-se que um estudante do curso de engenharia, da Universidade de Brasília (UnB), foi responsável por esse crime, ainda que não o tenha cometido dentro desse ambiente.

É curioso refletir sobre os objetivos do jornal ao ressaltar o nome da universidade, que já sofre com alguns estereótipos ligados ao consumo de drogas em suas dependências. A recepção desse fato não surpreendeu ninguém, no que diz respeito aos comentários negativos. Muitos leitores se diziam pouco chocados com o ocorrido, em vista do local em que o jovem estudava. Outros, sugeriram coisas absurdas, como exames toxicológicos para esses estudantes permanecerem em instituições públicas. Aí vai uma sugestão, mas dessa vez para o redator: por que não escrever simplesmente “jovem é preso por tráfico na Asa Norte”?

Não se pode negar que grandes realizações das universidades públicas, que recentemente têm passado por um processo de desmonte por parte do governo, também são ressaltadas em veículos de grande circulação. Pesquisas de relevância social, inovações e descobertas são divulgadas, a fim de que a população esteja a par das contribuições dessas instituições. Mas mesmo assim, os comentaristas de plantão não perdem a oportunidade de acrescentar opiniões que acabam por diminuir essas conquistas, além do fato de que muitos sequer abrem a notícia para compreender do que se trata esse conteúdo. O jornalista e professor Paulo Roberto Pires, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em seu artigo “A crítica da razão lacradora”, ironizou esses usuários, sedentos por likes e chamados por ele de “lacradores”. “O lacrador é um boxeador improvável, quicando sozinho num ringue e acreditando que é campeão em tudo, sobre todos, sempre por nocaute. No fundo é um coração simples, que se contenta com pouquíssimo”, afirma.

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O grupo trabalha na construção do carro, do tipo minibaja, para participarem de competições regionais e nacionais.

É importante ressaltar que a cultura do comentário é alimentada pela polarização cada vez mais intensa na sociedade e que é, como um espelho, refletida nas redes sociais. Em poucos momentos, o debate saudável é valorizado, bem como comentários que acrescentem informações relevantes. Apesar das redes sociais terem democratizado as possibilidades de comunicação, abarcando mais vozes, estas também permitiram que estereótipos e discursos de ódio fossem disseminados, compartilhados e aplaudidos. Atrás das telas, os diálogos se atenuam e os gritos se multiplicam. Talvez, uma das saídas para essa distopia virtual seja, de fato, sair desses ambientes de negatividade, evitando a leitura dessas seções de comentários e produzindo debates saudáveis em sites que não dependem da receita de anúncios.

 

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