Respeito: saudade do que a gente não viveu ainda

Como o caso Neymar contribui para a cultura do estupro 

Por Ingrid Ferrari

No último final de semana, o jogador do Paris Saint German, Neymar Júnior, se tornou o centro das atenções ao ter seu nome em um Boletim de Ocorrência, feito pela modelo Najila Trindade Mendes, no qual denunciava um estupro. Para se defender das acusações, Neymar foi às mídias sociais explicar-se e expôs a conversa do WhatsApp e fotos com o rosto da mulher no stories do Instagram. Além disso, afirmou que a denúncia era falsa e qualificou-a como mentirosa. Atitude similar a que outros famosos acusados de estupro também tomaram, entre eles o comediante Bill Cosby, o lutador de boxe Mike Tyson e o jogador de futebol Robinho, todos eles envolvidos em casos de violência sexual.

 

Esta exposição foi fator suficiente para que os papéis se invertessem: Neymar, o mocinho, e Najila, a vilã. Depois da grande repercussão do caso, os internautas se expressaram de diversas maneiras pelas redes sociais. O termo “Neymar” entrou como o assunto mais comentado nos Trending Topics do Twitter no dia da divulgação do B.O. Não demorou muito para que aparecessem  aqueles que exaltassem seu caráter. Por outro lado, a quantidade de memes que eufemizaram a situação foi espantosa, o que  trouxe à tona as discussões sobre educação sexual não ser um assunto para se “tirar onda”.

“Saudade do que a gente ainda não viveu” e “bom dia razão da minha libido” foram alguns dos trechos da conversa mais utilizados como memes. Além da rápida manifestação dos internautas, Neymar teve apoio de outras pessoas importantes no cenário brasileiro, como o pai do jogador, o técnico da seleção Tite, várias celebridades e até mesmo o presidente da República, Jair Bolsonaro. As personagens masculinas tomaram conta da cena. Mesmo que pareça apenas uma piada de internet, até que ponto um crime em fase de investigação pode ser considerado brincadeira?

 

Muitos disseram que ele é apenas um garoto, o “menino Ney”. Mas até quando as atitudes inconsequentes de um homem serão justificáveis por sua idade, em contrapartida às da mulher que não levam esse fator em questão ? O menino Ney tem 27 anos de idade, e é inclusive mais velho que Najila, que tem 26 anos. No júri da internet foram necessários poucos fatores para que se rotulasse a mulher como golpista.

 

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Machismo não só da boca para fora

O machismo não está só nas atitudes dos acusados de violência sexual, mas se faz presente também na sociedade, que tenta de várias maneiras relativizar os estupros e outros tipos de agressão. Também foram feitas brincadeiras, nas mídias sociais, que associavam esta situação ao caso do ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes, que foi condenado por sequestrar e assassinar brutalmente sua então namorada Eliza Samúdio. Dois casos relacionados à violência contra a mulher no país que ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). É importante mencionar que não se define, aqui, a veracidade dos testemunhos e das denúncias feitas pela comunicante, entretanto, não pode-se deixar de pontuar que os casos em que as alegações de estupros são verificadas como falsas são extremamente raros. O estudo As palavras desacreditadas das mulheres: falsas alegações na pesquisa sobre estupro na Europa registra que estas falsas alegações são menos frequentes que registros inverídicos de outros crimes, uma média que varia de 5% à 8%, mas mesmo assim as “piadas” sempre terão um personagem a quem se voltará a chacota: a culpa é da mulher. Até para a ex-namorada de Neymar, Bruna Marquezine, este caso trouxe resquícios. É aí que entra a cultura do estupro.

 

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“Agentes de segurança pública estão compartilhando esta imagem num grupo, sugerindo que Neymar deveria tratar sua ‘Maria Chuteira’ como o goleiro Bruno tratou a sua. Mas não é sério, claro, é só brincadeirinha, nós feministas é que não temos senso de humor quando não rimos de piadas sobre estupro e feminicídio. Depois o pessoal estranha por que uma mulher não denuncia a violência contra ela. Vai denunciar pra quem? Pro agente de segurança pública que ‘brinca’ com o caso de uma mulher que foi assassinada e cujo corpo foi devorado por cachorros?”, escreve Lola Aronovich, Professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), em seu blog Escreva Lola Escreva.

“Mas você aí que não viu a linha do impedimento e correu pro gol pra chamar Neymar de menino e a moça de vagabunda, você está ajudando a difundir o que nós chamamos de cultura de estupro”, disse Lola no Twitter.

De acordo com a ONU Mulheres, cultura do estupro é “o termo usado para abordar a maneira em que a sociedade culpa a vítima de assédio e normalizar o comportamento sexual e violento dos homens.” Ou seja, quando em uma sociedade a violência sexual é considerada normal por meio da culpabilização da vítima, isso significa que nesta sociedade existe uma cultura do estupro. Apesar de não ter uma resposta da polícia ou um veredito da Justiça, há uma tendência social de defender o jogador e atacar a moça. Sempre haverá algum fator que tentará justificar a culpabilização: um vestido curto, um decote, a cor do batom, o olhar, até mesmo a maneira de se mandar mensagem. E com a mesma intensidade, sempre terão os fatores que servirão de isenção da culpa do homem: seu caráter, o histórico, a fama, independente se ele possuir o mesmo estilo de vida da mulher. Pois isto parte da premissa que a mulher que demonstra ter desejos sexuais é vulgar, é desprezível e o homem que demonstra o mesmo comportamento não, é exaltado.  

 

Não é preciso mencionar que este tipo de atitude é machista e que está dentro do modelo patriarcal em que a sociedade brasileira está inserida. O que é, de fato, importante mencionar é que independente do resultado do julgamento, sabe-se que no futuro quem terá seu histórico manchado será Najila. Quem teve piadas sujas feitas com seu nome foi Nájila. Quem tem a veracidade de sua palavra questionada é Nájila. E quem levará consigo o trauma de uma exposição pública é Najila. Uma pesquisa norte-americana que analisou dez anos de dados conclui que 9 entre 10 relatos de estupros são verdadeiros. No Brasil, estima-se que apenas 35% dos casos de estupro são denunciados, nos EUA são 36%. Confirma-se então que existem mais casos sendo omitidos que inventados. 

 

Ele não é um garoto que ouviu o canto da sereia e o veredicto da situação de Najila foi perverso. Esteja a versão dele certa, esteja a versão dela certa, cabe à Justiça investigar. O que efetivamente não está certo é a maneira com que o julgamento nos meios digitais foi feito. Mulheres e homens criticaram o caso. Famosos e não famosos. O juízo feito sobre Najila é o mesmo que foi feito sobre Eliza Samúdio e de muitas outras mulheres. Espera-se que as outras 4,5 mil mulheres (apenas no Rio de Janeiro) também não tenham este final. O que pode ser feito? Respeito.

 

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