Sequestro do ônibus na ponte Rio-Niterói e a irresponsabilidade midiática

Comportamento irresponsável da imprensa demonstra o despreparo da mídia na cobertura de crimes 

Por Amanda Cavalcante

Na última terça-feira, 20 de agosto, o Brasil acompanhou o drama do sequestro do ônibus na ponte Rio-Niterói durante a manhã. A ação durou cerca de três horas e meia, parando o trânsito das cidades. William Augusto da Silva, 20, sem motivação explícita até o momento, fez 39 reféns que iam de São Gonçalo à cidade do Rio, até ser baleado por um atirador de elite, encerrando o episódio criminoso.

Mas, o que se pode ver através da cobertura do caso, foi uma demonstração do quanto a mídia ainda tem muito a evoluir. Mesmo depois de coberturas desastrosas como no caso Eloá em 2008, em que um rapaz fez de refém a ex-namorada durante mais de 100 horas, enquanto a imprensa construía um circo em volta do caso, atrapalhando as negociações entre criminoso e policiais. Irresponsabilidades do gênero foram cometidas novamente durante a transmissão ao vivo do sequestro do ônibus carioca.

 

O sensacionalismo e a espetacularização de tragédia se sobressaíram à informação, enquanto a Globo, durante o Bom Dia Rio, filmava minuciosamente a posição estratégica dos atiradores de elite e a formação da polícia ao redor do ônibus. Não somente o Brasil inteiro acompanhava a estratégia da polícia, como o criminoso munido de celular dentro do veículo podia acompanhar também.

 

A Band, entre uma filmagem e outra do que acontecia do lado de fora do transporte, e os comentários repetitivos dos âncoras no estúdio da Band News, expuseram fotos que estavam sendo enviadas ao vivo pelos reféns do que se passava dentro do ônibus, colocando em risco a vida dos passageiros.

 

Na Record, apesar do cuidado em não aproximar tanto suas imagens aéreas, o programa matinal Balanço Geral passou vários minutos entrevistando um filho que havia recebido mensagens do pai, um dos reféns. A repórter fazia perguntas completamente invasivas, como: “Você costuma pegar esse ônibus todo dia? Fazer esse trajeto todo dia?”. Além disso, expunha o nome do rapaz e também apelava para a emoção como forma de prender a atenção do público, ao perguntar se a mãe estaria em pânico, se ele mesmo estava muito nervoso com o estado do pai. Ao final, a entrevista não trouxe informação alguma e apenas contribuiu para a construção de uma narrativa sensacionalista.

 

Felizmente, os reféns não saíram feridos e a polícia conseguiu encerrar o crime, mas o que se vê pelo comportamento da imprensa, ainda é um certo despreparo para cobertura de situações delicadas por parte dos veículos citados neste artigo. O que era para ser uma reportagem, atualização dos acontecimentos, acaba tendendo à um sensacionalismo desnecessário em que emoção do telespectador que é cativada e não a atenção para os fatos transmitidos de forma responsável e cuidadosa. 

 

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