Eu sou o Rio

O funk se popularizou desviando de um enfoque constante de criminalização, vetorizado pelos meios de comunicação 

Por Maria Carolina Brito

A reportagem de sete minutos que o Fantástico exibiu no dia 31 de março deste ano, sobre a condenação do DJ Rennan da Penha por associação ao tráfico, foi mais um episódio do enquadramento que a imprensa vem dando ao segundo estilo musical mais ouvido no Brasil, atrás apenas do sertanejo: o funk. A narrativa que historicamente foi construída em torno dessa produção cultural, que tem rosto e território bem definidos, resultou em vários processos, entre eles, a divisão espacial que definiu lugares que deveriam ser evitados, por motivos de segurança no Rio de Janeiro (RJ) e  em uma construção discursiva de desigualdade.

A partir dos anos 1990, o funk passa a ser pautado nos cadernos policiais. Assim, a juventude que consome essa produção é associada a criminalidade. Algumas das matérias que foram veiculadas nessa época  traziam como ilustração mapas da cidade do Rio de Janeiro (RJ), apontando lugares de risco, construindo o que a professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ),  Adriana Carvalho Lopes, chama de cartografia do medo. Esses lugares eram os pontos onde eram realizados bailes. Na próxima década, o funk se tornou o culpado pela disseminação do HIV entre os jovens, pela gravidez de adolescentes e sinônimo de tráfico. Além disso, teve um imaginário construído em torno de arrastões, apresentados de forma sensacionalista ao  público como assaltos realizados por funkeiros moradores de favelas. 

Parece que as mídias criaram um consenso de que não era função do Estado oferecer políticas de saúde pública e de segurança. Em diversos momentos, essas abordagens fizeram acreditar que se os bailes funk deixassem de existir, todos os problemas do Rio de Janeiro desapareceriam. A popularização que o estilo vinha ganhando, virando trilha sonora de novelas em horário nobre e de filmes nacionais não adiantou muito, os estigmas continuariam sendo afirmados. Entender as relações culturais dentro das comunidades ajudaria a combater preconceitos, mas essas sempre foram descritas com um olhar estrangeiro e enviesado. 

Em março de 2010, a revista Veja Rio trouxe como destaque a reportagem “Ligações Perigosas”, que transformou em ato inapropriado a ida dos jogadores do Flamengo Adriano e Vagner Love a bailes funk realizados nas comunidades onde nasceram. Na época, até a presidência do Flamengo foi procurada para dar explicações sobre presença dos jogadores naquelas “festas de bandidos”. Ao final do texto, o projeto social do também jogador Cafu, no bairro Jardim Irene, é citado como um tipo de ligação salvadora, exemplo que deveria ser seguido por Adriano e Love. Nessa narrativa, a favela foi construída como um lugar do mal, perigosamente contagioso, que deveria ser evitado até mesmo por quem cresceu nela. 

Depois que o funk atingiu o público de fora da favela, a resenha jornalística incluiu o ritmo na pauta cultural. A partir de 2003, ele surge com referências do consolidado hip-hop norte-americano. Mais tarde, em meados de 2007, o funk ostentação vira capa de revista, trazendo um enfoque diferente do que era visto até então. Um momento importante nesse período é a morte do MC Daleste, assassinado no palco, no auge do sucesso. Imediatamente surgiram especulações na mídia sobre possíveis relacionamentos do artista com o tráfico e com garotas de programa, como forma de justificar o crime. O caso foi arquivado sem nenhum preso. O funk chega em 2019 com variações que vão do “fluxo” paulista ao 150 bpm do Rio.

O que chamou atenção na reportagem sobre a prisão de Rennan da Penha no Fantástico foi a utilização de imagem fora do contexto para reforçar ainda mais a criminalização do DJ e a série de estigmas que seguem sendo reiterados em torno das favelas. As imagens que foram ao ar são parte de um inquérito de cinco anos atrás, quando ele foi inocentado das acusações. Falar sobre a criminalização do funk é falar da criminalização da pobreza também. Rennan é um dos precursores do 150 bpm, que surgiu no contexto de retorno da realização dos bailes, que haviam sido limitados a partir da implementação das Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs. A primeira unidade foi instalada, em 2008, no Morro Dona Marta, em Botafogo. A resolução 013 pedia autorização do Estado para a realização das festas e permitia o cancelamento sem aviso prévio. 

O jornal O dia publicou, na época da prisão do Dj, uma matéria com o título: “A vida de luxo de Rennan da Penha: viagens, grifes e mimos para a namorada”, com pouco texto e muitas fotos da namorada dele, Lorenna Vieira. Essa abordagem, ou enquadramento, deu margem a uma série de interpretações. Destaco duas delas. Primeiro, a forma como exploraram a imagem de Lorenna, que sequer era alvo das acusações; segundo, a premissa de que determinadas pessoas não podem ter acesso ao padrão de vida que é  vendido pelas propagandas e pela ordem de consumo do capitalismo, sem levantar suspeitas de práticas ilícitas. 

Após a condenação de seis anos e 18 meses de prisão pelo crime de associação para o tráfico ter sido determinada, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), soltou uma nota que relembrou a trajetória de criminalização de outras práticas populares da cultura carioca, como o samba e a capoeira, e reforçou que essa criminalização é um processo racializado. “O controle das classes sociais subalternas e marginalizadas pelo Estado brasileiro é realizado por intermédio de processo de criminalização cujo critério determinante é a posição de classe do ‘autor’ e de sua cor de pele”. A cultura, para essas pessoas, se torna, além de trabalho, forma de visibilidade pública e de contranarrativa, que tensiona a quase folclorização da favela como um lugar da violência.

Para o advogado Nilo Batista,  no século XXI, o funk é o novo alvo cultural de perseguição criminal. Nem com nomes como Anitta, que construiu e projetou sua carreira internacional levantando a bandeira do funk, e KondZilla, produtor e dono do 4º maior canal do Youtube do mundo;  ou marcando em um dos maiores festivais de música do mundo, o Lollapalooza, e sendo presença constante na programação da TV aberta, as narrativas de criminalização do funk desapareceram das mídias. A legitimação que o estilo ganhou veio do próprio público, em oposição à narrativa hegemônica,  mostrando a importância do processo de identificação em grupos que norteiam as interações sociais desta era.  

A frase  que dá título a esse texto é da música Evoluiu, do MC Kevin o Chris, cria do Baile da Gaiola.

Indicação de documentário: Por Dentro do Funk 150 BPM

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