JN, 50 ANOS

Por Luiz Martins

Num país com apenas 519 anos de história; dos quais somente 199 com independência e 130 como República, qualquer instituição ou organização que complete meio século é um prodígio. Mais ainda, se é um telejornal, de grande importância num contexto de uma tradição autoritária que remonta ao ano século XVI. Até a chegada de Dom João VI (1808), ter uma tipografia era crime no Brasil. E mesmo sendo Coimbra uma das mais antigas universidades do mundo, a colonização portuguesa foi sovina nesse ponto, enquanto a Espanha precocemente trouxe universidades para as colônias. Ou seja, imprensa e academia nunca foram o nosso forte enquanto fundamentos de uma nação livre e autorreflexiva.

Liberdades de pensamento, de opinião, de empresa, de impressão e de imprensa, no
Brasil ainda são conquistas em risco e a imprensa ainda não é vista como um ente constitutivo da vida civil e pública, mas, na rejeição, o geral das pessoas públicas consideram as informações de interesse público como algo seu, ao seu dispor e comodidade e, neste caso, a ser resguardada do conhecimento geral, a não ser modulada (manipulada), ou seja, mero insumo para manipulações. Mesmo os mais elevados na hierarquia da República, não raro se queixam da imprensa como se ela fosse algo tenebroso e demoníaco. De fato, o preço republicano a se pagar pela liberdade de imprensa sempre foi a tolerância para com uma certa imprensa especializada em separar o joio do trigo para ficar com o joio e o esparramar de forma sensacional e espetaculosa. Mas, daí pegar a pior parte pelo todo também não é razoável.

Assisti comovido as imagens dos telejornais remissivos aos 50 anos do Jornal Nacional e
até ficaram prosaicas para os dias os modos como foram festejadas as incorporações
tecnológicas aos afazeres televisivos. Fiquei, no entanto, um pouco intrigado com a
preocupação de alguns dos oradores em realçar que em todo esse tempo o jornalismo da Rede Globo não abriu mão de seus “valores”. Ficou subentendido que estavam se referindo aos valores fundamentais da imprensa e do jornalismo, mas, com alguma atenção às entrelinhas, podemos ler que “A Globo” promete levar adiante por mais meio século os mesmos “valores”. Pode ser, no entanto, os os referidos “nossos valores” sejam de um âmbito ainda familiar, a família Marinho.

A esperança é a de que as Organizações Globo se aproximem atentamente dos valores
da ética e da independência, como os que se encontram no Guia da BBC (BBC’s Guidelines) e deixem um pouco os valores atávicos à essa verdadeira instituição brasileira, que é “A Globo”, no que eles ainda guardam dos ranços familiares que têm caracterizado os tais “barões da mídia” no Brasil, ou seja, o domínio da “grande mídia” por meia dúzia de famílias, domínios esses que, por vezes, ultrapassam os negócios privados e avançam pelos negócios da política, tanto os da política partidária quanto os das políticas públicas.

Muito da culpa de o Brasil não ter uma política pública de comunicação social, nem um
sistema público de radiodifusão independente (fundação privada de direito público, como é o caso da BBC), se deve à oposição ferrenha desses referidos grupos a que o povo brasileiro tenha acesso a um Sistema Público de Comunicação, previsto na Constituição Federal (ao lado dos sistemas privado e estatal). Em faixa paralela, os políticos que chegaram ao Palácio do Planalto foram tímidos ou até hostis a que o Brasil viesse a ter um grande aparato midiático de natureza PÚBLICA. Gestos nesse sentido existiram desde Getúlio Vargas, mas entendendo o público como estatal; o estatal como governamental; o governamental como partidário; e o partidário como uma chance no páreo do oportunismo.

Uma tênue tentativa de transpor a herança que veio do DIP, mas com realizações de
magnitude, como foi a Rádio Nacional, para um novo paradigma, o da Comunicação Pública, foi feita no governo de Fernando Henrique Cardoso, com a transformação da Radiobrás em Empresa Brasil de Comunicação (EBC), mas, a consolidação não se deu, nem com FHC, nem com os governos do PT. E, por pouco a EBC não deixou de existir nos governos Temer e Bolsonaro, este último, prometendo, ainda em campanha, acabar com “A TV da Dilma”. A EBC ainda não foi expurgada das ingerências governamentais. Ao contrário, o que Bolsonaro fez foi trazê-la de volta com mais força às rédeas palacianas, e ainda jogando para dentro dela o Canal NBR, este sim, uma TV exclusiva do governo federal.

Enfim, nem dá para saber o que tem sido pior no campo da comunicação social
brasileira. Uma Globo, privada, porém de abrangência pública, em audiência e influência. Chegou, nos bastidores políticos, a nomear ministros das Comunicações (em gestões passadas), ou uma emissora pública (a EBC), mas sem nunca ter sido, de fato, da sociedade brasileira. E, agora, restrita a se desempenhar como uma frágil extensão dos humores das autoridades ocupantes dos gabinetes do Palácio do Planalto. Nos primórdios do Golpe de 64, o “Nosso companheiro, jornalista Roberto Marinho”, chegou a ser chamado de “O General Civil da Revolução de 64”. Um dia, falando para um auditório na Sorbone, Roberto Marinho negou que as Organizações Globo devesse favores ao pretérito regime militar.

Em campanha, um ou outro candidato à Presidência da República disse iria enquadrar
“a Globo” (sempre a detentora da maior fatia de publicidade governamental) e que até iria obrigá-la a restituir supostos deslizes ficais. Uma vez na Presidência, “A Globo” é que os enquadra. Ela é muito poderosa. Por simpatia, é capaz de funcionar como o mais eficaz cabo eleitoral. Por antipatia, pode representar o empurrão maior rumo ao impeachment. Em alguns casos, a Globo nutriu expresso e público combate a políticos, como foi o caso de Leonel Brizola.

Em recentes entrevistas, o ministro do STF, Gilmar Mendes, acusou a imprensa de
irresponsabilidade, por ter sido acrítica em relação aos procedimentos ilícitos da Lava Jato e de ter elevado Sérgio Moro e Deltan Dalagnol à categoria de super-heróis, quando, agora se sabe, torceram de forma interessada e vergonhosa os ritos do próprio Judiciário, comprometendo-o em matéria de reputação institucional. Se antes Lula já havia denunciado a existência de uma certa República de Curitiba, agora, um ministro do Supremo denuncia que o tal esquema de Curitiba arrasou com a moralidade da Justiça brasileira, agindo contra a lei e em favor de interesses políticos e até pessoais. Em outras palavras, Lula não teria sido preso não fossem as manobras extra legi de procuradores e juízes da Lava Jato. Muito provavelmente, Lula teria sido eleito. Era o favorito nas sondagens de opinião.

E agora? Não fosse o site de notícias The Intercept, sob o comando de um estrangeiro,
e o Brasil e o mundo não saberiam do que se passou verdadeiramente nos bastidores de uma eleição presidencial, aqui. Já pensou se as mesmas revelações se dessem num país de instituições consolidadas e moralmente responsáveis? Com certeza, o impeachment da chapa eleita com o apoio dos procuradores e juízes envolvidos. E é nesse ponto que merece crítica não somente “A Globo” – neste momento, de vanglórias –, mas tudo que grande mídia deste país têm propalado como Jornalismo Investigativo. O que funcionou, de fato, foi o jornalismo denunciativo, em geral, a serviço de autoridades ávidas por aparecer e para mostrar serviço antes mesmo de o mesmo estar pronto. E não se diga que a precipitação em conceder entrevistas sobre autos em andamento foi uma invenção de Moro e Delagnol. Muito antes já era comum uma autoridade sair do meio de uma oitiva e já “revelar” para a imprensa qual era a acusação. Lembram-se quando um filho de Paulo Maluf foi preso e exibido com algemas?

Pior ainda, nesse contexto, a maior parte da imprensa brasileira se deixou usar como
inocente útil. E útil não a um serviço mal feito, o que já seria ruim, mas útil a um serviço sujo. Agora, poderia pelo menos correr atrás do prejuízo e corrigir vacilos. E sem essa de que não agiu dessa forma para não prejudicar uma devassa na corrupção que se havia alastrado. Fica a esperança que isso aconteça nos próximos 50 anos do Jornal Nacional. Dele se espera que realize mais investigações próprias e cheque mais a veracidade dos conteúdos maliciosamente “vazados”. [Luiz Martins – da série MINICRÔNICAS].

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