Cinquenta tons de amarelo: a representatividade asiática em produções audiovisuais

Por Bruna Yamaguti

“A minha vida inteira, tive uma relação complicada com a cor amarela. Desde ser chamado de formas depreciativas durante a escola, até assistir filmes onde uma pessoa chamava a outra, covardemente, de amarela” 

Jon M. Chu (tradução livre do inglês). 

Este, é um dos trechos de uma carta escrita pelo cineasta Jonathan Murray Chu, diretor do filme Crazy Rich Asians (2018), sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, mas pouco divulgado no Brasil. 

Disfarçado de elogios e piadas, o preconceito contra pessoas asiáticas ainda é tema pouco explorado, haja vista o caráter velado das atitudes e comentários pejorativos direcionados ao grupo. Os estereótipos, por exemplo, são uma das formas mais enraizadas de reforçar o racismo e, infelizmente, estão presentes nas mais diversas obras de entretenimento. Quantas vezes você já se deparou com o asiático sendo exposto como extremamente inteligente, que entende de tecnologia, sabe matemática, luta artes marciais ou fala errado?  

Bem, esse asiático pode até existir, mas, fora do imaginário estereotipado das grandes telas, existe uma infinidade de pessoas que se sentem reduzidas e invisibilizadas. No entanto, esse cenário, embora pouco motivador, tem se mostrado aberto a mudanças, com novas obras e formas de representação, que buscam romper com os preconceitos antes estabelecidos. 

Crazy Rich Asians e o orgulho da cor amarela 

Crazy Rich Asians (2018), ou Podres de Ricos, no Brasil, é um exemplo de obra cinematográfica com boa bagagem de representatividade, cuja repercussão foi muito positiva em seu país de origem, Estados Unidos. O filme foi o primeiro de Hollywood em 25 anos a contar com um elenco inteiramente composto por asiáticos-americanos e seu diretor, Jon M. Chu, é também descendente de pai e mãe asiáticos. A obra foi baseada no livro de mesmo nome, escrito pelo autor chinês Kevin Kwan. 

A atriz Constance Wu, que dá vida à personagem principal no filme, usou um vestido amarelo durante a premiação do Oscar e divulgou em seu instagram uma carta do diretor  direcionada à banda britânica Coldplay. Nela, o cineasta desabafa sobre as dificuldades de ser amarelo vivendo na américa e pede para utilizar uma famosa música da banda, Yellow, como parte da trilha sonora do filme. 

“O filme dará a uma geração inteira de asiáticos-americanos e outros, o mesmo senso de orgulho que eu tive com a sua música. Quero que todos eles tenham um hino que os façam se sentir tão bonitos, quanto as suas palavras e a sua melodia fizeram eu me sentir, quando eu mais precisava”, disse ele.

O longa, elogiado por representar a cultura asiática sem estereótipos, arrecadou cerca de US$ 238 milhões e contou com a participação da produtora e roteirista, Adele Lim, única asiática a participar do roteiro da trama. 

Lim, no entanto, anunciou sua saída na sequência do filme, Crazy Rich Asians 2, por questões de disparidade salarial. Segundo informações do Hollywood Reporter, a oferta da Warner Bros. para Lim coescrever o projeto foi US$ 110 mil, enquanto o outro roteirista, Peter Chiarelli, receberia entre US$ 800 mil e US$ 1 milhão. 

O produtor e escritor norte-americano ofereceu que seu salário fosse parecido com o da colega, mas ela recusou: 

“Pete sempre foi incrivelmente gracioso, mas eu não deveria depender apenas da generosidade de um roteirista branco”, disse. “Se eu não consigo receber um salário igual após Podres de Ricos, nem consigo imaginar como deve ser para todo os outros, dado o padrão altíssimo de filmes no seu currículo para contratarem mulheres de cor. Não há forma realista de atingir equidade desse jeito.”

veja mais em: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/09/04/podres-de-ricos-2-roteirista-abandona-producao-por-salario-desproporcional.htm

No Brasil, o filme foi pouquíssimo divulgado, sendo colocado em cartaz em apenas alguns cinemas, durante poucos dias. 

Para Todos os Garotos Que Já Amei e a normalização da descendência 

Para Todos os Garotos Que Já Amei (2018) é uma comédia romântica da plataforma de streaming Netflix. Um filme com um enredo simples, onde a protagonista é Lara Jean (Lana Condor), uma garota normal, que vive um romance de escola enquanto enfrenta os problemas e dramas típicos da adolescência. 

Poderia ser apenas mais um filme genérico de romance colegial, se não fosse pela forte representatividade trazida por ele. A protagonista é descendente de uma mãe coreana, vive com suas irmãs e seu pai em uma casa com costumes tipicamente americanos, mas com algumas características que evidenciam a descendência asiática. 

Essa descendência, no entanto, é naturalizada e mostrada como um elemento agregador, e não como o mais importante da trama. Os personagens coadjuvantes e os possíveis romances de Lara Jean (atriz) gostam da menina pelas características intrínsecas à sua personalidade, e não por fetichização forçada ou estereótipos da mulher asiática, reforçados muitas vezes pela indústria de animes e dramas coreanos, bem como seus consumidores. 

Mulan e a valorização da cultura asiática (ou quase)

Recentemente, foi anunciado pela Disney que Mulan, animação lançada pelo estúdio em 1998, será a próxima a ganhar um live-action, com um elenco composto majoritariamente por atores e atrizes chineses. 

Na adaptação, o roteiro procurará ser mais fiel à cultura chinesa, diferente da animação, que é fantasiosa e conta com elementos bastante americanizados. No entanto, o lançamento do teaser do novo filme gerou algumas críticas vindas dos fãs chineses. 

Em publicação da revista  Rolling Stone, um doutorando explica o porquê da revolta:

“Este filme está tentando se insinuar para o público do Ocidente. É como se eles tivessem simplesmente reunido qualquer elemento chinês ou oriental e colocado no filme para fazer todos sentirem que ele é muito chinês”, conta, “não é sobre os produtores apreciando elementos de uma cultura que é diferente daquela de Hollywood, mas sim usando isso para criar algo apelativo e confortável para os americanos”. 

Além disso, todos os cargos criativos do filme são ocupados por pessoas brancas, como a própria diretora, e não amarelas. O que faz com que se questione sobre o que é, de fato, representatividade dentro da obra, e o que é disfarce para se fazer mais do mesmo. 

Um longo caminho

Ser descendente de asiático e viver no ocidente é um caminho de dualidade muito longo, vivido tanto pelos ancestrais, quanto pela atual geração, em maior ou menor grau. Se sentir incluso e, paralelamente, completamente deslocado, é uma característica compartilhada por muitos amarelos Brasil afora. 

A importância da representatividade asiática se dá exatamente pelo fato de que ela alcança diferentes grupos de pessoas amarelas, com diferentes vivências, e dá a elas uma oportunidade que possivelmente lhes foi tirada em algum momento: a de pertencimento. Mostrar ao público que essas pessoas são mais do que estereótipos e que não existe um roteiro de como um asiático deve ser. A vida real não é um filme onde todos são representados da mesma forma, seguem o mesmo estilo de vida e se comportam da mesma maneira, porque alguém (branco) lhes disse que era assim que deviam se comportar. 

As produções audiovisuais têm um grande impacto sobre determinado grupo, quando este se sente representado, acolhido, seja por uma ideia, uma história ou um personagem. Não, asiáticos não são todos iguais e não devem ter suas histórias reduzidas a preconceitos reforçados pelas maiorias que dominam a indústria cinematográfica. 

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