A equidade que lute

Modo como jornais tradicionais retratam mulheres que se tornam mães está longe de ser o justo

Por Talita de Souza

Na Semana de Moda de Paris, Isis Valverde desembarcava na cidade francesa para assistir o desfile da marca, também francesa, Dior. Apesar do evento ter atraído outras atrizes brasileiras, foi a presença de Ísis sem o filho que chamou a atenção do jornal O Globo.

Isis Valverde deixa o filho, Rael, com o marido no Rio para ir ao desfile da Dior em Paris foi o título escolhido pelo veículo carioca, em contraste a outro assunto da matéria – e com maior relevância para o evento -, a experiência de Isis no desfile e a sua opinião sobre a nova coleção. A notícia viralizou no Twitter e causou polêmica

A chamada revela, ao menos, duas coisas: o entendimento ultrapassado de que crianças são responsabilidade apenas do sexo feminino e a tendência em resumir a vivência de mulheres que têm filhos em ser apenas mães. O rebento da atriz não é mais um recém-nascido, que demanda cuidados especiais e é extremamente dependente da progenitora para alimentar-se, mas sim, uma criança que comemora o primeiro ano de vida em novembro e que ficou sob os cuidados do pai, um adulto cujo compromisso paternal é da mesma proporção que o dela.  

Por que um jornal acredita que Isis deixar o filho com o pai para viver seus interesses é valor-notícia? As respostas podem ser diversas, mas todas se enquadram em um machismo cultivado pelo veículo. Ao pesquisar, no site do O Globo, o nome de Tatá Werneck e Rafa Vitti, casal de famosos que estão grávidos, vemos a tendência da publicação em tratar mães como mulheres que só podem viver em função de seus descendentes. 

Os resultados de Tatá Werneck, ao se tratar de entrevistas, são sempre sobre os momentos da gravidez, como a rotina dela, a dinâmica de gravar o programa que apresenta mesmo com enjôos, o relato das ultrassonografias e outras coisas afins. Entretanto, as matérias referentes à Rafael Vitti, pai, se tratam apenas de assuntos relacionados a sua atuação na novela Verão 90. Outro fator revelador é que o jornal entrevistou a mãe do ator para falar sobre a gravidez de Tatá, mas não há matérias com o depoimento de Rafael.  

Em navegação pelo site, pode-se ver outras escolhas de manchetes duvidosas, como uma lista de famosas grávidas. Uma série de cantores, atores e empresários famosos também se tornaram pais neste anos e não há registro de matéria semelhante. Afinal, se os dois são pais, por que somente a um sexo é atribuído às responsabilidades e as cobranças? 

Seria compreensível – mas não normal e aceitável – ouvir tais pensamentos no almoço de domingo de famílias conservadoras ou em citações acaloradas de deputados pela bancada da família do Congresso Nacional; mas não é admissível ver tal entendimento replicar-se por um dos jornais mais renomados do país. 

Quando o veículo de comunicação com abrangência nacional e anos de publicações perpetua estereótipos misóginos, contribui para reforçar a visão objetificada e dominada da mulher, como alguém que sempre deve se anular para assumir atividades que são parte da rotina de ambos gêneros. 

Não somente isso, ao publicar matérias com teor machista, o jornal infringe o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, no qual traz como dever do jornalista “opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;” (inciso I do artigo 6º) e “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;” (inciso XI do mesmo artigo). Casos como o do O Globo mostram que a equidade ainda está distante do tratamento ideal de gênero nos veículos tradicionais. 

Por outro lado

A capa deste mês da revista Inc., periódico de negócios criado em 1979, traz, pela primeira vez, uma empresária grávida na capa, Audrey Gelman. Ao contrário do que se pode pensar, a foto não ilustra uma matéria sobre gravidez e negócios, mas serve somente para ilustrar a entrevistada no momento em que estava quando deu a entrevista. A manchete que acompanha a foto de Audrey é O mundo está mudando, Audrey Gelman é co-criadora de um coworking exclusivo para mulheres e está liderando um time de executivas

The world is changing. A afirmação da mulher de negócios mostra uma realidade que caracteriza um novo mundo, um espaço igualitário no qual as brasileiras ainda lutam para fazer parte. 

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