Why so serious?

Análise das polêmicas em torno do filme Coringa

Por Marina Dalton

Coringa, dirigido por Todd Phillips, chegou ao Brasil há duas semanas. Desde antes da estreia, já havia expectativas e opiniões divergentes sobre a construção e direcionamento do filme. Parte do público enaltece a visão humanizada e realista que é conferida ao vilão, enquanto outras pessoas criticam a violência e a tentativa de abordagem social. O longa-metragem, já premiado e ovacionado no festival de Veneza, provoca pensamentos discordantes.

Um ponto de convergência das opiniões é a atuação de Joaquin Phoenix. Entregue ao personagem, cria uma atmosfera de desconforto constante e possibilita uma identificação gigantesca com o filme. O espectador é cativado e levado a compreender o Coringa como um ser humano – doente, mas humano -, que é justamente a proposta do diretor do filme. Phoenix cumpre seu papel de forma espetacular.

A risada criada pelo ator para contemplar a característica marcante do personagem traz nuances realmente perturbadoras. Risos agudos e nervosos provocam um sentimento de pena angustiante, enquanto as versões mais graves e macabras de outros momentos causam certo medo, também cheio de angústia.

Esse aspecto do Coringa é a exteriorização de uma de suas doenças psíquicas. Segundo o Observatório do Cinema, é a representação de um transtorno real chamado afeto pseudobulbar, distúrbio resultado de um dano cerebral que causa choro ou riso incontrolável. Além disso, o site também destaca os indícios de depressão (pensamentos suicidas), psicose ilusória e transtorno de personalidade narcisista (alucinação com a realização de desejos pessoais). Há, de fato, a construção de um personagem doente.

Porém, o perigo que gira em torno do filme está em sua mensagem. A fórmula geral para explicar o surgimento de vilões é seguida no começo: a vida trágica transforma uma pessoa comum, com um coração inicialmente “bom”, em um assassino cruel. No princípio, o público chega a compreender o personagem e sentir pena. Em algum momento, há uma virada no roteiro e “cai a ficha” de que se trata de um psicopata, um vilão. Essa quebra não acontece em Coringa. Do começo ao fim, o protagonista é descrito como um ser digno de compaixão.

Mesmo em cenas violentas, o roteiro é construído para que o público não chegue a perder a empatia. Uma vida poupada, um assassinato “justificado” e as massas o enxergando como justiceiro são toques que prendem o espectador na visão humanizada do Coringa. Há até mesmo uma sutil comparação do protagonista com Charles Chaplin em Tempos Modernos – ambos como defensores do proletariado. 

 

A música Smile, de Chaplin, faz parte da Trilha Sonora.

Existe uma tentativa de crítica social. O preconceito com pessoas que possuem doenças mentais, o descaso da elite com o povo, políticos que não enxergam a realidade das massas e o sistema corruptor são temas que o filme se propõe a abordar. A polêmica está justamente no tratamento direcionado a vitimizar o protagonista.

Coringa é um filme cheio de referências. Conta com uma fotografia de tirar o fôlego e uma trilha sonora totalmente capaz de criar a atmosfera sombria que paira pela cidade de Gotham. Possui habilidade de perdurar na mente de quem o assiste. Traz Joaquin Phoenix em uma atuação excelente com nuances e transformações no personagem. E certamente receberá indicações ao Oscar.

Inovador em relação à fórmula de abordagem vilanesca, o longa-metragem apenas se perde na profundidade da compaixão que puxa do público. O endeusamento do Coringa como um messias salvador das massas é controverso.

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