Quando o riso de um leva ao choro do outro

Vídeo polêmico publicado por MC Gui e a banalização do sofrimento alheio através de memes pejorativos

Por Lara Perpétuo

Há uma semana, uma criança se sentia triste na Disney, lugar criado justamente com o propósito de todos se sentirem felizes. Feliz estava, naquele momento, o cantor brasileiro Guilherme Kaue Castanheira Alves, mais conhecido como MC Gui. O artista postou em seus stories do Instagram no dia 21 de outubro, um vídeo em que parecia muito alegre com seus amigos, rindo, no parque de Orlando, na Flórida. O motivo do riso, porém, era uma criança. Uma criança claramente desconfortável e constrangida que sentia olhares e a câmera de um celular sobre si.

Sim, MC Gui expôs para seus mais de sete milhões de seguidores, sem nenhuma autorização ou bom senso, o rosto de uma menina enquanto ria dela. O rosto de uma menina visivelmente fragilizada, que percebia, no momento do vídeo, que estava sendo motivo de piada. Ela, apesar de muito triste e desconfortável com a situação, com certeza não fazia ideia da proporção que, alguns segundos depois, o vídeo que violava sua intimidade iria tomar. Mais de sete milhões de pessoas puderam ter acesso, através de seus celulares, ao conteúdo, antes de o cantor apagá-lo de seu Instagram horas depois, após uma repercussão negativa.

No Twitter, brasileiros se mobilizaram e criaram uma hashtag (#JullyPrincessInDisneyworld) em que pediam para a Disney oferecer um dia de princesa a Jully, nome que ilustra a hashtag mas que ainda não se sabe se pertence à menina, cuja identidade não se conhece. O assunto se tornou um dos mais comentados do mundo inteiro na rede social por algumas horas. Porém, apesar da boa intenção de mobilizar o parque, a rede social acabou virando mais um espaço de exposição: prints do vídeo, já apagado a essa altura, mostravam o rosto de “Jully” e circularam com muita facilidade, à mostra para um público bem maior. Além do nome, histórias foram inventadas, como a de a criança estar passando por um processo de quimioterapia.

Apesar da repercussão negativa, a partir da terça-feira, dia 22, um dia após a publicação do story, MC Gui ganhou mais de 90 mil novos seguidores no Instagram. Na quarta-feira, o cantor tinha 95,7 mil seguidores a mais do que na segunda, de acordo com o site da Veja

Esses números refletem, sem querer, uma realidade triste. De dias em que são propagados rápida e indiscriminadamente fotos e vídeos, muitas vezes pessoais, de pessoas comuns, constantemente crianças, que servem na internet como apoio para alguma frase engraçada. O desconforto e a humilhação do outro são transformados rapidamente em memes.

Embora felizmente esse não tenha sido o caso de “Jully”, inúmeras pessoas sofrem diariamente com o pesadelo de ter sua imagem divulgada em publicações de humor. É o caso de Débora, que, de um dia para o outro, teve uma selfie que havia publicado em sua página no Facebook sendo divulgada por pessoas que não conhecia. A “diva da Oakley”, como Débora ficou conhecida pelos internautas em função de um óculos que portava na foto, estava sendo usada como meme de forma pejorativa por pessoas que nunca tinha visto na vida. Por conta do meme, Flávia, com apenas 15 anos na época e no nono ano do Ensino Fundamental, se viu obrigada a sair da escola e até tentou suicídio. “Eu me sentia muito feia, muito humilhada e inferior às outras meninas. Nos comentários sobre os memes com a minha foto, falavam muito sobre a minha aparência e isso me chateava”, contou em uma entrevista à BBC Brasil (https://www.bbc.com/portuguese/geral-49041846). 

As consequências do cyberbullying são cruéis e definitivas. O constranger o outro ganhou uma dimensão muito maior em tempos de alta tecnologia, em que o viral é instantâneo e permanente. Uma vez publicado, o autor se perde, o meme já não tem mais dono e todos podem usá-lo, para sempre; e o dono legítimo da foto ou do vídeo, quem realmente tem seu rosto e sua intimidade expostos, se vê impossibilitado de fazer qualquer coisa para mudar essa situação. Já está em diversos sites, em diversas páginas, e nenhuma permissão foi pedida. O sofrimento alheio se banaliza em meio a likes e compartilhamentos.

Depois de receber críticas reprovando sua atitude, MC Gui publicou um story, também em sua conta do Instagram, afirmando que não havia praticado bullying com a criança e que a internet estava “muito chata”, por conta da desaprovação que havia recebido. Novamente, a resolução não foi a melhor alternativa; o story foi apagado e um novo vídeo foi postado em sua conta, em que o cantor finalmente admitia que havia errado e pedia perdão pela publicação “infeliz”.

Com shows e contratos cancelados, MC Gui, com 21 anos, diz, através de uma assessoria de imprensa recém contratada, precisar de um tempo para amadurecer. 

E nós, amantes do humor pejorativo e impulsionadores do viral, quando vamos parar para refletir e amadurecer?

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