Racismo sutil do coque às pontas dos pés

Pequenas barreiras que bailarinas negras ainda enfrentam começam a ser derrubadas

Por Isabela Oliveira

De Benfica, bairro pobre na zona norte do Rio de Janeiro, à renomada academia Dance Theatre of Harlem (DTH), em Nova York. Essa foi a trajetória da primeira-bailarina negra da DTH. Ingrid Silva, hoje com 30 anos, começou a dançar balé aos oito anos de idade, em um projeto social chamado “Dançando para Não Dançar”. A bailarina teve que, por mais de uma década, pintar todas as sapatilhas de ponta com a cor da sua pele. Recentemente, essa barreira começou a ser derrubada. Ingrid e tantos outras bailarinas negras não precisam mais gastar dinheiro com tintas, pois empresas começaram a produzir sapatilhas com outros tons de pele além do cor-de-rosa. A mídia nesse sentido tem mostrado que o racismo sutil existe, é ignorado, mas aos poucos vai diminuindo.

As empresas Freed of London e Gaynor Minden passaram a comercializar outros tons de sapatos, além da própria Dance Theatre of Harlem  ter tido a iniciativa de incentivar a pintura das sapatilhas, o que se tornou uma marca da companhia. Mesmo assim, são poucas as variações de tonalidade.

Em 2019, a DTH completou 50 anos, e é a academia mais renomada do mundo no que se trata de diversidade. Foi fundada por Arthur Mitchell, idealizador das sapatilhas, um dançarino afro-americano. Aos 19 anos, Ingrid fez o teste por vídeo, concorrendo com outras 200 meninas que fizeram audições presencialmente. 

Ingrid compartilhou a conquista no Twitter, o que gerou muitos comentários e retweets. Ou seja, em pouco tempo mais de 100 mil pessoas que estavam sabendo da pequena vitória de todos os bailarinos negros, não só da carioca.

Captura de Tela (94)

A dançarina, a pedido dos seguidores, também mostrou as antigas sapatilhas na rede social, e ainda contou que gastava 12 dólares (aproximadamente 48 reais) com tintas. Foram gastos financeiros e de tempo para que Ingrid tivesse a melhor vivência possível. São um par por semana e cerca de uma hora para pintar. As bailarinas pintam as sapatilhas para que a mudança de cor entre pele e sapato não crie uma linha descontínua em sua perna, já que o corpo é o instrumento de trabalho delas. 

A história de Ingrid teve 577 comentários, quase 17 mil retweets e 104 mil curtidas no Twitter. Mas apenas o El País e a Vogue fizeram uma matéria detalhada sobre a conquista da bailarina e a falta de diversidade racial em um estilo de dança já universalizado como o balé. O jornal espanhol além de retratar toda a trajetória de Ingrid, também reforçou que a falta de inclusão acontece não só no balé como também na venda de outros produtos. Curativos, lápis, maquiagens e sapatos aos poucos deixam de ser vendidos somente  “cor da pele” e passam a ter mais opções. Tanto o El País como a Vogue reforçaram que não se trata de uma simples conquista, pois a alegria ou a emoção de Ingrid, como foi noticiado em ambas as matérias, mostram uma expectativa e um avanço que vem sendo esperado há anos. 

Além disso, pelo motivo da bailarina ser brasileira, isso trouxe uma aproximação, mas as redes sociais ainda sim fizeram com que a notícia viralizasse, já que apenas dois jornais grandes deram enfoque ao acontecido. Por isso, estabelece-se o questionamento implícito do Brasil ainda ser um país com pouquíssimas bailarinas negras, projetos de inclusão e carregado de racismos sutis por todos os lados. 

A matéria da Vogue reitera a quebra de preconceito pela simples entrega de um par de sapatilhas no tom de pele de Ingrid. A academia que a bailarina atua também diz muito da conquista, já que a Dance Theatre Of Harlem é multirracial, apoia a inclusão e tem vários bailarinos negros. O site focou no incentivo da academia e no fato de que a realidade de bailarinos negros é totalmente diferente. Para eles, começa desde o cabelo afro até a venda de sapatilhas cor-de-rosa e que horas gastas pintando sapatilhas para que isso não atrapalhasse na dança. 

O racismo sutil foi até a reportagem feita pelo The New York Times em 2018 sobre a DTH ter tido a iniciativa de pintar sapatilhas, a falta de diversidade no balé e um questionamento se a barreira para a inclusão finalmente foi derrubada. O jornal compartilhou um vídeo que Ingrid postou em seu canal no Youtube, mostrando todo o processo para pintar os pares. 

O jornal estadunidense também reforçou que precisou de 200 anos, sem que ninguém percebesse, para ter sapatilhas de ponta para pessoas negras. Mais raro do que as sapatilhas de outras tonalidades, são as próprias bailarinas negras. Ademais, a matéria do The New York Times ajuda a entender que a questão não é apenas as bailarinas finalmente receberem sapatilhas de acordo com a sua cor, mas que o racismo sutil também está na própria contratação. A diversidade racial em companhias de dança continua baixa.

Recentemente, a carioca veio ao Brasil com a Dance Theatre of Harlem para uma apresentação, que aconteceu em São Paulo e em Trancoso. Foi a primeira vez que vários jornais gravaram com ela, essencialmente para contar sobre sua história de vida: como uma garota de periferia foi parar em NY sem a mãe nunca a ter visto dançar. Quando vem ao Brasil, Ingrid costuma dar aulas de balé nas favelas do Rio de Janeiro. 

Nos EUA, ela é ativista, pioneira e se especializou em dança afro-contemporânea. Ingrid tem parceria com as Nações Unidas para promover a igualdade de oportunidades na educação. Além disso, fundou a plataforma EmpowHerNY, para criar conexões com as mulheres, promover troca de experiências e empoderamento. 

Outra falta de diversidade no balé é o cabelo crespo. Ingrid alisou o cabelo quando se mudou para os EUA, porque todas as meninas negras têm o costume de fazer isso. Depois de um tempo, ela resolveu passar por transição capilar para voltar ao seu cabelo natural. Ela passou a compartilhar todo o processo nas redes sociais e isso gerou uma identificação de que bailarinas negras podem ter sim cabelo black power. Além de ser exemplo, Ingrid é a primeira bailarina brasileira negra a estampar a Pointe Magazine, revista especializada em dança.

Seja falta de diversidade racial, oportunidades, investimento, aceitação ou quebra de padrões, o balé, como qualquer outro estilo de dança, vai apresentar dificuldades. Alguns jornais têm contribuído para que algumas barreiras sejam notadas e aos poucos quebradas. A notícia vem para deixar mais explícito algo sutil, como o fato de só existirem sapatilhas cor-de-rosa. O balé tinha um padrão de ser uma dança europeia para brancos, altamente elitista. Espera-se que mais dificuldades sejam enfrentadas, pois algo simples, que está nas pontas dos pés, já é um grande “relevé” para Ingrid e todas as bailarinas negras das próximas gerações. 

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