Pelo jornalismo que ainda não tivemos, temos pressa

A aspiração  de que a redação fosse tão divertida quanto foi para a protagonista Jenna Rink, do filme De Repente 30, se torna distante. A realidade mostra um mercado racialmente estruturado, fazendo com que esse espaço se torne um lugar de disputa, silenciamento e de solidão para os profissionais negros

Por Maria Carolina Brito

De autoria da jornalista Yasmin Santos, o texto “Letra Preta: os negros na imprensa brasileira”, publicado na edição de outubro de 2019 da revista Piauí, chegou até mim por meio da rede de comunicadoras e comunicadores negros que acompanho nas redes sociais. 

A proposta de renovação editorial da “revista para quem tem um parafuso a mais”, como anuncia o slogan do periódico, não é tão inovadora assim. Não há nada de novo em seguir com a tradição de um  jornalismo branco e masculino. “São treze anos de boas histórias sobre o Brasil contadas majoritariamente por pessoas brancas. E, atualmente, a edição da revista está concentrada nas mãos de homens brancos de meia-idade”, relata Yasmin. A articulação do racismo com o sexismo, como nos ensinou Lélia Gonzales, produz efeitos violentos sobre a mulher negra, em específico. 


Yasmin foi a primeira jornalista negra contratada pela Piauí em 13 anos. Maju, a primeira a ocupar a bancada  fixa em 50 anos do Jornal Nacional. Relaciono esses dois veículos para dizer que é muito tempo. A diversidade de rostos brancos que o jornalismo brasileiro repetiu ao longo dos anos fez parecer que o ramo não é para todos. Segundo o jornalista Dodô Azevedo, por aqui, utiliza-se maquiagens para fingir que há avanço no que diz respeito a romper com o apagamento de pessoas não-brancas dos ambientes. 

“Como se quisessem dizer: nós não juntamos esforços para enfrentar a questão da falta de diversidade, mas também não há veículos no Brasil que façam isso. Se ninguém faz, nós também não precisamos”, escreveu Yasmin. Justificar a demora e a ausência de jornalistas negros dizendo que eles não existem em um país cuja maioria da população é negra é culpar o lado errado, assim como utilizar os poucos que compõem as redações como totem  de diversidade é parte de uma estratégia para que tudo permaneça como está. 

Juliana Gonçalves e Bruno Sousa do site The Intercept acrescentam importantes reflexões sobre o assunto. Segundo a matéria “Nós não estamos na “Wakanda do jornalismo” , mais de um terço dos jornalistas do site são negros, mas a maioria são estagiários, ou seja, não estão nos cargos de chefia. Esse é um ponto comum com Letra Preta, a pseudo diversidade. Eis a maquiagem. Yasmin cita como exemplo um episódio da série Marlon da Netflix, na qual a diretoria de uma empresa de publicidade é questionada sobre uma campanha racista e, ao se defender, se gaba do compromisso com a diversidade. O protagonista completa dizendo, “Vocês não têm diversidade! Quer dizer, vocês têm diversidade na sua brancura. Olha, tem branco velho, branco jovem, branco pálido, branco, branco”.

As redações com pouca representatividade seguem produzindo conteúdo questionável. Como fez o Correio Braziliense no último Dia das Crianças. A capa em comemoração à data, com o título “Eles são o futuro do Brasil”, trazia 27 crianças. Todas brancas. Segundo Flávia Lima, ombudsman da Folha, quanto menor a diversidade, menor a pluralidade de visões e de representações. “É por isso que falta sensibilidade para perceber quão absurdo é excluir crianças negras desse tipo de cobertura, sobretudo num momento em que elas enfrentam tanta violência”, completa. A jornalista cita um levantamento informal que mostrou que o grupo tem cerca de 300 profissionais em suas redações, desse total, apenas seis são negros. 

Ao analisar a linha do tempo do cinema nacional, Helena Theodoro Lopes nos mostrou que os filmes que tentaram retratar a vida real na sociedade brasileira ou invisibilizaram setores estruturantes, ou os mostraram de forma folclorizada. Exemplo, Nelson Rodrigues em duas produções diferentes, Rio 40 graus e Tenda dos Milagres, evidenciou essa problemática. Enquanto Rio 40 graus apagou a importância da religião negra do enredo, Tenda dos Milagres apresentou a cultura negra nos ares da sexualidade e da ingenuidade, como se ela estivesse ainda na infância buscando amadurecer. Glauber Rocha e Cacá Diegues se apropriaram de estereótipos em diferentes dimensões. Xica da Silva, de Carlos Diegues, parece uma projeção das fantasias que o diretor tem da mulher negra, com um elevado teor erótico e sensual. São olhares de uma classe média que não conhece a cultura negra, a percebe apenas por meio de ideias preconcebidas.  

Os debates que surgem em torno da programação para o mês da Consciência Negra são um exemplo. Experienciei certa vez uma conversa em uma empresa: discutia-se sobre a programação para o mês da Consciência Negra. A quantidade de mulheres em cargos de destaque lá me chamou atenção, o que já sinaliza algumas mudanças, mas todas muito parecidas, padronizadas. Há poucos os repórteres e produtores negras e negros. Alguém disse: “vamos colocar pessoas negras apresentando os programas”. Hipocrisia que logo foi reconhecida, já que a programação no resto do ano repete dia após dia a falta de diversidade racial. Depois disso, seguiu-se um silêncio, logo mudaram de assunto.

Há o reconhecimento do problema, mas não há políticas de inclusão que, como conclui o ensaio, é fundamental para que o jornalismo se mantenha sustentável. Yasmin Santos traz alguns exemplos. O sucesso que a Teen Vogue teve ao colocar Elaine Welteroth, de 29 anos, como editora-chefe. Ela é a pessoa mais jovem e a segunda mulher negra a ocupar o cargo em 107 anos do grupo editorial. Elaine incluiu questões políticas e sociais no projeto editorial da revista. Após isso, o site da publicação saltou de 2,9 milhões para 7,9 milhões de visitantes.  Visitei o site e a editoria de estilo continua lá, mas na aba sobre política dei de cara com o título: “Departamento de Justiça de Trump diz que não há problema se as mulheres são forçadas a usar saias”. Não consigo pensar nesse tipo de conteúdo nas revistas que lia na adolescência. Imagina que loucura, em meio aos pôsteres do filme Crepúsculo e dos Jonas Brothers, uma explicação sobre a demarcação de terras indígenas e quilombolas, por exemplo. Que necessário!

Talvez não fosse a demanda do público das revistas naquele tempo, mas como Yasmin disse, fazemos parte de uma juventude altamente politizada que anseia por representatividade. Outro exemplo que ela traz é a criação da editoria diversidade do Grupo Folha. Paula Cesarino Costa, jornalista negra, participará de todos os processos, desde a contratação de novos profissionais, até as reuniões de pauta.  Uma pesquisa feita pelo site  É Nois mapeou 64 redações do país e viu que  menos de 30% delas têm políticas voltadas para representatividade racial. Mais da metade das equipes tem menos de três jornalistas negros. 

Uma das dificuldades que podemos citar é o fato de que as empresas de jornalismo no Brasil são comandadas por famílias brancas – às vezes até relacionadas a igrejas – concentradas na região sudeste. A jornalista Catarina de Angola disse, em entrevista ao site Brasil de Fato, que  isso já torna a diversidade de vozes inexistente. “Além de que a visão de mundo desse perfil de pessoas é que constrói a comunicação do país, é um mercado fechado e de pouco espaço para profissionais negros”, completou. 

Yasmin traz outro ponto importante que diz respeito à dificuldade que as pessoas têm de enxergar a diversidade racial nas redações. A capa de junho da Piauí destacava o nome de oito autores: Bernardo Esteves, David Wallace-Wells, Roberto Kaz, Eduardo Escorel, Armando Antenore, Russel Shorto, Andrício de Souza e Primo Levi. No Instagram, uma seguidora comentou: “Só autores homens… Acho que desisti de assinar.” Nenhuma crítica sobre serem todos homens brancos, explicitando as negativas do reconhecimento que o Brasil tem em relação questão racial. 

Em 2015, quando ganhou o Emmy, a atriz Viola Davis citou a abolicionista Harriet Tubman no seu discurso. “Em meus sonhos e visões, eu via uma linha, e do outro lado da linha estavam campos verdes e floridos e lindas e belas mulheres brancas, que estendiam os braços para mim ao longo da linha, mas eu não poderia alcançá-las.” A ausência de políticas de diversidade nos faz questionar a quem interessa manter essa linha intransponível. Ao sujeito “Universal de Direitos”, é construída a imagem do homem europeu, que impôs uma superioridade por séculos construindo o “outro” como sendo tudo aquilo que ele não é?  

O texto de Yasmin nos apresenta muitas questões, mas ele renova esperanças.  Nos leva a outras jornalistas negras, algumas citadas no texto. É importante que as jornalistas em formação se sintam representadas, e se projetem naquele lugar. É  importante que as meninas negras, ao ligar a TV, consigam se enxergar. Ocupar esses espaços têm relevância política, por isso Maju, Glória, Zileide e tantas outras são tão importantes, servem para lembrar que não estamos sozinhas. 
O texto está aberto no site da Piauí para quem não é assinante da revista.

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