Não deveríamos saber onde mora o porteiro de Bolsonaro

Ao expor uma das testemunhas mais importantes do caso Marielle, os veículos de comunicação podem ter dificultado ainda mais a investigação do assassinato vereadora

Por Lucas Guaraldo 

Na noite do dia 29 de outubro veio à público a denúncia, feita por um porteiro até então anônimo, de que o próprio Jair Bolsonaro teria liberado a entrada de um dos assassinos da vereadora Marielle Franco no condomínio Vivendas da Barra, no dia do crime. A acusação repentina, que relacionou pela primeira vez a família Bolsonaro ao caso, deu ainda mais notoriedade a um dos eventos mais importantes da política brasileira nos últimos anos.

Conforme os debates evoluíam na manhã seguinte ao vazamento, com o surgimento de novas gravações e mensagens, os apoiadores do presidente foram direcionando cada vez mais o debate para a figura do porteiro, que passou a ser acusado de trabalhar, a mando da oposição, para destruir a reputação de Jair Bolsonaro. Em uma ação claramente coordenada, as acusações feitas na internet foram seguidas pela abertura de investigações por parte de procuradores ligados ao presidente, que rapidamente o inocentaram.


No dia 8 de novembro, apenas nove dias após as denúncias, foi publicada pela revista Veja uma matéria que revelava o nome, endereço e rosto do porteiro que havia ligado o presidente ao assassinato de Marielle. Além da afirmação de que o funcionário vivia em uma zona do Rio de Janeiro controlada por milícias e que, portanto, corria sérios riscos de vida. Conforme mais informações pessoais eram publicadas, surgiam também os relatos de vizinhos e amigos que afirmavam que o porteiro estaria “feito um animal acuado” e “com medo de morrer” desde o vazamento das informações. 

A divulgação das informações pessoais do porteiro, que não tinham qualquer relevância para a investigação do caso de Marielle, coloca em pauta responsabilidade dos meios de comunicação nesses casos e a forma como os maiores veículos de notícia desse país vêm lidando com a publicação de informações que interessam ao público, mas que são eticamente duvidosas.

No dia 20 de novembro, quase um mês após a postagem original, foi divulgado que o porteiro do condomínio havia recuado e alterado seu depoimento perante a Polícia Federal. Ele alega que havia se sentido “pressionado por ele mesmo” devido ao erro no registro do número das casas. O recuo da testemunha inflamou ainda mais os que criticavam o comportamento da mídia, que passaram afirmar que o porteiro havia sido pressionado indiretamente pelas matérias publicadas sobre o caso, a prestar um depoimento favorável ao presidente como única forma de garantir sua segurança. 
Se a mídia exerceu alguma pressão indevida no desenvolvimento do caso Marielle, nunca saberemos, mas é inegável que o estresse pelo qual o porteiro passou nas últimas semanas é de responsabilidade, em grande parcela, da cobertura inconsequente do caso por parte da mídia. Devemos levar ainda mais a público o debate acerca da atuação da imprensa na apuração de informações que possam ter efeitos desnecessários, ou até mesmo danosos, ao desenvolvimento de investigações ou à segurança de fontes e testemunhas.

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