Strong black lead

Ao longo de 2019, a Netflix trouxe na programação uma presença maior de produções com temas relacionados a cultura negra, isso se deve a criação de equipe composta por produtores, diretores e atores negros

Por Maria Carolina Brito

Quando foi publicada em junho de 2018, a imagem A Great Day in Hollywood anunciava a criação da equipe de executivos negros Strong Black Lead. Um ano e meio depois, o serviço de streaming Netflix impulsionado pela iniciativa deu mais protagonismo para as produções negras em uma pluralidade maior de  possibilidades. 

A equipe reúne cerca de 47 de escritores, criadores, atores e produtores negros, como a roteirista Lena Waithe (Master of None), a atriz e produtora Laverne Cox (Sophia Burset em 0Orange Is the New Black), o diretor Justin Simien (Cara gente branca), a premiada Ava DuVernay (A 13ª Emenda , Olhos que condenam) e o vencedor do Oscar Spike Lee. 

Em junho de 2018, mesmo mês de criação da Strong Black Lead,  o chefe de comunicação da Netflix, Jonathan Friedland, que ocupou o cargo por mais de seis anos, foi demitido por uso de termo racista em mais de uma ocasião. Na primeira, a empresa se esquivou, como admitiu o presidente, Reed Hastings. Na segunda, houve a demissão do funcionário e uma retratação pública da Netflix. 

Um dos trunfos da Strong Black Lead  é lembrar que existem várias possibilidades de experiência para pessoas negras no audiovisual. Como disse Caleb McLaughlin, o Lucas de Stranger Things,  na narração do vídeo de divulgação do movimento: “Não somos um gênero, porque não há uma maneira de ser negro”. 

As produções consagradas como How to Get Away with Murder, Scandal , da diretora Shonda Rhimes já estavam disponíveis antes da criação da equipe. As duas sagas trazem como protagonistas Viola Davis (Annalise Keating em HGAWM) e Kerry Washington (Olivia Pope em Scandal). 

Seguindo a linha dos dramas, recentemente foi incluída a adaptação da peça teatral American Son. Dirigido por Kenny Leon, o principal diretor afro-americano da Broadway, o filme conta a história de uma mãe que passa a noite inteira em uma delegacia em busca de seu filho desaparecido. O ponto central da trama é a abordagem policial. Durante todo o tempo, a personagem principal Kendra Ellis‑Connor (Kerry Washington) é tratada pelo policial que está na delegacia como a surtada, histérica, nervosa – chegando a ser presa,  e não recebe nenhuma informação sobre o que aconteceu com seu filho. O tratamento do policial só muda quando o ex marido e pai do garoto chega. Um homem branco. 

Durante o interrogatório, o policial faz as seguintes perguntas para Kendra, “Ele tem cicatrizes, tatuagens, dentes de ouro? Ele tem codinome nas ruas?”. Em cena forte ela conta sobre como ensinou desde cedo seu filho a se comportar durante abordagens policiais. Devido aos casos de abordagens truculentas nos Estados Unidos, cenas como essa são comuns nas séries com protagonismo de personagens negros. Foi assim em um dos episódios de Grey’s Anatomy, onde Bailey e Ben orientam sobre como seu filho deve agir diante da polícia. “Sempre mostre as mãos para a polícia e sempre diga o que vai fazer antes de fazer (…) Não revide, não responda, não faça movimentos repentinos (…) Não importa o quanto estiver com medo, nunca corra”. O site Hypeness divulgou um vídeo sobre isso, vale a pena dar uma olhada. 

Um dos destaques da Netflix esse ano foi a narrativa dolorosa de Ava DuVernay: Olhos que Condenam. A série teve 23 milhões de visualizações no mundo todo, em menos de um mês – marca comemorada pela diretora em sua página no twitter, com o seguinte texto: “imagine ter a crença que o mundo não se importa com histórias reais de pessoas negras. Sempre me deixou triste. Então quando Netflix me contou que 23 milhões de usuários viram #WhenTheySeeUs (título em inglês), eu chorei. Nossas histórias importam e podem se espalhar pelo mundo. Uma nova verdade para um novo dia.”

A história conta a vida de Korey Wise (Jharrel Jerome), Antron McCray (Caleel Harris/Jovan Adepo), Yusef Salaam (Ethan Herisee/Chris Chalk),  Raymond Santana (Marquis Rodriguez/Freddy Miyares) e Kevin Richardson (Asante Blackk/Justin Cunningham), acusados em 1989 de um estupro no Central Park. Eles tinham entre 14 e 16 anos e foram coagidos pelo departamento de polícia a confessar o crime e condenados e presos por sete anos. Korey Wise, que tinha 16 anos na época da condenação, cumpriu mais de 13 anos de prisão como adulto.

Olhos que Condenam deixa evidente as diversas formas de manifestação do racismo institucional na justiça criminal. E provocou diferentes reações nos telespectadores. Houve, inclusive, uma recusa em assistir a série. Como demonstrou o cineasta Dodô Azevedo em artigo, “narrativas exclusivamente dolorosas podem ser alienantes”. O ator Lázaro Ramos também deu sua opinião. “Acho que é tão dolorido porque tem a ver com dia a dia da gente. Essa pauta pula todos os dias no colo da sociedade”, disse. Outra história forte, que provoca diferentes sensações é Seven Seconds: um menino é atropelado em um parque por um policial que foge. Ao longo dos episódios, ele recebe ajuda de todo o sistema da cidade para se safar do crime.  

No entanto, para quem quer evitar os dramas temos as outras possibilidades de existência para pessoas negras no audiovisual. Os super heróis, as histórias de amor e os documentários e séries sobre música que a Strong Black Lead divulga em um calendário mostrando que será incluído de “novo e negro” no início de cada mês. 

Um exemplo é a recente Criando Dion. Não sabíamos que precisávamos tanto dessa série até ela ser feita. É sobre a infância do pequeno Dion (Ja’Siah Young), que descobre superpoderes e provoca confusões, ao mesmo em tempo que é protegido pela sua mãe, Nicole (Alisha Wainwright), uma mãe viuva fazendo de tudo para proteger o filho de um mundo que não está aberto a aceitá-lo. Produzida por Michael B jordan, Criando Dion é uma ficção científica, mas tem pés e coração na vida real.

De quantas séries de ficção científica com protagonistas negros você consegue se lembrar? Livros? Esse gênero, segundo a produtora de conteúdo digital e cientista social  Nátaly Nery, é uma grande porta para vislumbrar um futuro. Abre portas para pensarmos no conceito, ou filosofia do Afrofuturismo que foi impulsionado recentemente pelo filme Pantera Negra, mas que tem raízes nos anos 1950 com o músico Sun Ra, com uma proposta estética que misturava o Egito e o espaço. O conceito se refere “a ideia ‘radical’ de que pessoas negras existem no futuro”, define Nátaly Nery. Entre as formas de violência simbólica que o  audiovisual reproduz está essa ideia de que no futuro da tecnologia e da inovação o mundo é povoado por pessoas brancas. 

Das novidades que foram impulsionadas em 2019 temos as produções sobre rap, como Rapture, série que conta a história do hip hop desde os anos 1990 e Hip-Hop Evolution. Sobre música e cultura pop, Homecoming nos mostrou os bastidores das apresentações de Beyoncé no festival de música Coachella, Quincy, que  narra a vida do produtor Quincy Jones. Filmes clássicos como o Blaxploitation Cleopatra Jones e o romântico Love Jones, além das produções da Marvel e a controversa Ela quer Tudo, de Spike Lee, e a irônica Cara gente branca

A mudança na programação, com a inserção de personagens que fogem dos estereótipos e das caixinhas reservadas para pessoas negras nos filmes e séries, é positiva e confirma que é preciso romper com o olhar do mercado tradicionalmente masculino e branco para se ter um audiovisual mais democrático. 

Indicações:

A escritora Octavia Butler aborda a temática do afrofuturismo na sua produção literária. O livro Kindred: laços de Sangue é sobre uma escritora que é transportada para o passado, para uma fazenda escravista nos Estados Unidos, a casa de seus antepassados. A missão dela se torna, além de sobreviver, garantir que seus familiares nasçam, para que ela exista no futuro. 

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