Coronavírus infecta brasileiros com ignorância

Dois meses após o surgimento do primeiro caso da doença em Wuhan, na China, a epidemia causa alarde em todo o mundo. Porém, casos recentes de xenofobia revelam que o maior perigo da humanidade ainda é o racismo

Por Bruna Yamaguti

Cerca de 1.114 mortos por coronavírus na China. Segundo a Organização Mundial da Saúde, apenas 22% dos infectados não estiveram em território chinês.

No Brasil, apesar de não haver nenhum caso confirmado da doença, o clima é de tensão. Na última semana, 58 brasileiros que estavam na China foram repatriados e estão alocados na Base Aérea de Anápolis (GO). De acordo com o Ministério da Saúde, o risco de chegada da doença no país é baixo, uma vez que todas as medidas cabíveis estão sendo tomadas para conter o vírus. No entanto, casos recentes de racismo e xenofobia contra asiáticos e ocidentais com ascendência asiática mostram que a maior preocupação do brasileiro não deveria ser com o novo patógeno, mas sim com a falta de informação. 

A circulação de fake news nas redes sociais têm inflamado o discurso de ódio e repulsa, principalmente contra  chineses. Fotos de pessoas caindo em aeroportos, vídeos de animais selvagens sendo preparados para o consumo ou textos repudiando hábitos que, na maioria das vezes, sequer dizem respeito à cultura da China. 

Recentemente, uma estudante de direito publicou em seu Twitter um episódio vivido por ela no metrô do Rio de Janeiro. Segundo a moça, uma das passageiras do vagão no qual ela se encontrava esperou-a se dirigir para a porta do veículo para gritar: “olha lá a chinesa saindo, sua chinesa porca”, “nojenta” e “fica aí espalhando doença para todos nós”.

O caso foi exposto em uma coluna de notícias do Uol e a vítima completou o relato com outros absurdos ditos pela mulher: “quando eu vejo um chinês, eu atravesso a rua”, “não compraria uma coca fechada desse povo, porque eles contaminam tudo”, “os coreanos, tailandeses e esse resto também são um horror!”, “invadem nosso país, roubam os empregos do nosso povo, espalham doenças”. O jornalista e autor da coluna, Leonardo Sakamoto, falou sobre a crescente onda de ataques direcionados às pessoas amarelas: “O preconceito e o ódio contra o estrangeiro se aliam à discriminação devido a características físicas, sociais e culturais de grupos étnicos. No Brasil, isso não é novo. Não raro passa despercebido por conta da integração dessas minorias à elite branca brasileira. Mas, inevitavelmente, elas são lembradas que nem toda diferença é tolerada. Por isso, soa estranho falar de racismo e xenofobia a orientais. Mas é preciso, pois diz respeito a um país que não consegue efetivar a dignidade como um valor coletivo”, explica o colunista em seu texto. 

A xenofobia, explícita ou não, é também alimentada pela grande mídia. O popular vídeo da “sopa de morcego”, divulgado em diversos veículos de comunicação e redes sociais como a possível causa da disseminação do coronavírus, foi confirmado como fake news pelo Ministério da Saúde. Segundo o órgão e a OMS, não existe nenhuma comprovação científica que ligue o patógeno com a sopa que, inclusive, não é comum no país asiático. As imagens causaram revolta nos internautas, mas foram feitas em 2016 por uma blogueira em sua viagem ao Palau, um arquipélago no Oceano Pacífico. 

Os hábitos alimentares e culturais do povo chinês muitas vezes são motivo de controvérsia e são retratados pela mídia e pelo cinema de forma estigmatizada. Em entrevista para a BBC News Brasil, o historiador Sören Urbansky aponta que o preconceito com asiáticos não morreu no tempo: “A expressão ‘perigo amarelo(usada no Ocidente como designação preconceituosa contra o Leste asiático a partir do século 19) pode parecer datada, mas definitivamente vemos que algumas narrativas tradicionais contra os chineses continuam hoje (…) Na situação de agora (do coronavírus), algumas representações na mídia e falas de políticos ou pessoas comuns certamente têm paralelos no passado”.

Diferente de outros grupos de minoria, como negros e indígenas, aqueles considerados de raça amarela usufruem de condições sociais favoráveis devido a cor da pele clara e não sofrem com o racismo estrutural, por exemplo. Os asiáticos são considerados a “minoria modelo”, ou seja, educados, inteligentes e civilizados. Aqueles cujo comportamento deveria servir de exemplo para os brasileiros. 

Porém, o jogo muda de direção quando o estilo de vida e as vantagens da maioria são ameaçados de alguma forma. O novo coronavírus foi apenas um pretexto que as pessoas passaram a utilizar para legitimar os seus preconceitos, há muito já existentes.  

Segundo reportagem do jornal O Globo, a página do Instituto Cultural Brasil-China, que criou um Observatório do Coronavírus para repassar informações confiáveis à comunidade, foi alvo de dezenas de ataques preconceituosos. Um levantamento feito pela entidade indica que dos 100 primeiros comentários feitos no primeiro post sobre coronavírus da página no Facebook, 23 eram de conteúdo racista.

Os casos de xenofobia não se restringem ao Brasil. Na França, os relatos de hostilidades direcionadas a pessoas de olhos puxados foram reunidos pela hashtag #JeNeSuisPasUnVirus (#NãoSouUmVírus), que agora circula nas redes como uma forma de protesto em vários países. 

Xenofobia e racismo são crimes previstos na Lei 9.459, de 1997, com pena de até cinco anos de prisão. Porém, parece não ser o suficiente para conter os diversos ataques direcionados àqueles que são considerados “diferentes”. 

A estigmatização de etnias não é uma novidade, bem como o comportamento hostil de uma parcela ignorante (e considerável) da população. Todos os dias, desde sempre, pessoas amarelas são colocadas dentro de caixas onde todos são vistos como iguais, onde a individualidade é posta em cheque por pessoas que jamais saberão o que é ter a sua história reduzida a apelidos como “xing-ling”.   

O coronavírus trouxe à tona algo que já existia no imaginário dos brasileiros e no dia-a-dia dos asiáticos. O racismo, que antes vinha de forma velada, se escondendo atrás de apelidos de mau gosto e piadinhas despretensiosas se revelou, como se estivesse apenas esperando uma oportunidade para performar. 

Só que para este mal, infelizmente, não existe vacina.

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