A planta que floresce milhões

Desacreditada pelos colegas de confinamento e contrariando todas as expectativas, a final da 20º edição do Big Brother Brasil, exibido pela Rede Globo, consagrou Thelma Regina Maria dos Santos, 35 anos, médica, passista e, principalmente, mulher preta como a grande vencedora do prêmio de 1,5 milhão.

Por Maria Carolina Brito e Luiz Oliveira

Em uma disputa entre as sisters Rafa Kaliman e Manu Gavassi, Thelma Regina obteve 44,10% dos votos, deixando claro que era a favorita, ao contrário do que se comentava nas redes sociais. Única participante do grupo pipoca, composto apenas por inscritos, era menosprezada por diversos colegas que a classificavam como “sem chance de ganhar”, que na linguagem do reality era o participante visto como a planta da edição.  

O apresentador do show, Tiago Leifert, foi preciso no discurso sobre o  porquê a sister era a única candidata possível de ganhar o jogo. “O BBB não podia terminar sem uma vitória histórica, então o BBB20 só pode ser seu, Thelma”, finalizou. Histórica. É assim que ficará marcada a conquista da médica, pois, em 20 anos de programa, apenas 4 vitórias foram para negros. Em 2004 Cida Matos; 2006 Mara Viana; 2018 Gleici Damasceno e, por fim, 2020 Thelma Regina. 

A trajetória da médica até a final e, consequentemente o prêmio, foi marcada pela coerência, carisma, dedicação e lealdade em que acreditava, mesmo que isso custasse ser julgada. Principalmente quando se tratava de sua relação com o outro participante negro, o ator Babu Santana. 

Desde o início do programa os dois já demonstravam que tinham uma relação de identificação, respeito e admiração por compartilharem algo em comum, a cor da pele. É como disse a sister, em tom amigável, certa vez a Babu: “a nossa cútis sempre nos aproxima”.

Então, mesmo não sendo aliados durante boa parte do jogo, sempre defenderam um ao outro todas as vezes que foi necessário. A ação não era compreendida pelos outros participantes, tornando-se evidente quando Thelma disse que se ganhasse o anjo daria para o ator, postura que a fez ganhar o castigo do monstro e o afastamento daquelas que se diziam amigas no reality

Thelminha, como ficou conhecida, é natural da cidade de São Paulo, do bairro do Limão. Adotada com apenas três dias de vida pela funcionária pública aposentada Yara Assis e o gráfico Carlos Alberto de Assis, logo após ter sido rejeitada pela mãe biológica. Yara contou, em uma entrevista ao jornal Extra, que o sonho da filha de se tornar médica surgiu ainda pequena, no entanto o caminho que percorreu para alcançar o que almejava não foi nada fácil. 

Após a conclusão do ensino médio, começou a dedicar-se integralmente aos estudos. Com muito esforço e sacrifício dos pais, que chegaram a ficar sem luz em casa para pagar a mensalidade, entrou para um cursinho preparatório com bolsa de 50%. 

A persistência, enfim, começou a ter frutos, pois após três anos de tentativas, a paulistana foi aprovada no vestibular da Pontifícia Universidade Católica (PUC)  de Sorocaba com uma bolsa de 100%, e passou a receber R$ 300 de auxílio do governo para manter os estudos. 

Entretanto, as dificuldades não terminaram porque, ao entrar para um curso tão majoritariamente branco e elitista, tendo a origem que tinha, iria enfrentar novos desafios. Para ter uma renda extra chegou a vender cervejas, xerocava os livros e almoçava em restaurantes populares a R$ 1. 

O caminho que Thelma percorreu durante os anos de faculdade é bastante comum para os alunos negros vindos de origem humilde. Em uma conversa com outras colegas de confinamento, ela exemplificou bem como é a situação: “eu estudei com filho de políticos, filho de fazendeiro, o kit básico para entrar na faculdade era ganhar carro e apartamento, eu não tinha um livro”. 

 A presença de Thelma Regina no BBB trouxe para o centro dos debates de raça e gênero o conceito, e as várias interpretações da interseccionalidade. Kimberle Crenshaw,  no artigo “A intersecionalidade na discriminação de raça e gênero”, explica que a discriminação racial e a discriminação de gênero operam juntas, limitando as possibilidades de sucesso das mulheres negras, segundo ela, a visão tradicional dos direitos humanos tende a trabalhar essas discriminações como se fossem restritas a grupos distintos, quando, na verdade, elas se sobrepõem, “é a raça das mulheres negras que determina se as pessoas acreditarão nelas ou não.”

   Após a final do reality, a filósofa Djamila Ribeiro, por meio da rede social instagram, fez a seguinte declaração: : “não é uma questão de votar em alguém num reality show, mas de visibilizar as consequências desse locus social (negra, mulher), como alta taxa de feminicídio, mortalidade materna. Porque  quando universalizamos as categorias de gênero e raça, não nomeamos a realidade da mulher negra”. Homens negros e mulheres negras experimentam formas de racismo especificamente relacionadas ao gênero. Para exemplificar basta fazermos o exercício de resgatar casos recentes, em alguns sites encontramos manchetes que reforçam diversos estereótipos sobre o homem negro, como o título no texto da coluna de Daniel Castro, “Segundo sol: Rochelle usa ‘sexo com negão’ para se vingar de irmã drogada””. 

         Um dos casos mais fortes sobre a sobreposição da discriminação racial e de gênero sobre mulheres negras é a Globeleza, figura que reforçou por anos a hipersexualização e a exotização que limita o corpo de pessoas que pertencem a esse grupo, e que não tem nada a ver com um símbolo de liberdade sexual, mas sim com o “lugar comum” que foi reproduzido e fixado pelas novelas e outras mídias para a mulher negra. Quem é a “mulata exportação”, a “barraqueira”, ou a “empregada” que está lá, novela após novela na TV? Ler Lélia Gonzales, Racismo e sexismo na cultura brasileira

      Segundo relatório da Globo, essa edição do BBB teve um alcance de 37 milhões de pessoas e quebrou diversos recordes de votação, ou seja, o engajamento do público foi muito grande. Na noite da premiação, logo após ser anunciada como campeã, Thelma foi mencionada por mais de 1,04 milhão de pessoas, só no Twitter, em poucos minutos.

   O programa iniciou com um forte debate sobre o machismo, mas logo  levantou a questão de que é impossível repensar a sociedade patriarcal, o sexismo e outros sem levar em conta a questão racial, envolveu personalidades e grupos que se identificaram com a trajetória de Thelma e Babu; fizeram mutirões de votação e derrubaram torcidas fortes de participantes tidas favoritas, como Manu Gavassi. 

   Lázaro Ramos, Ludmilla, Preta Gil e Pablo Vittar são apenas alguns dos famosos que torciam para Thelminha. Um post da atriz Taís Araújo, com a frase de Angela Davis, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, foi compartilhado pela premiada atriz Viola Davis e teve quase cem mil curtidas. Após a vitória de Thelma, a cantora Iza postou em seu Instagram uma série de fotos de sua vida escolar, mostrando como é solitária a trajetória acadêmica de pessoas negras. O registro da formatura de Thelma, única negra da sua turma de medicina, também circulou pelas redes sociais e trouxe outras histórias de vivências semelhantes à tona.

   O coletivo Potências Negras criou uma campanha com influências negras para aumentar as chances de vitória de Thelma. Influenciadores enviaram para a página do coletivo no Instagram vídeos de apoio a médica. O resultado foi fruto de uma mobilização muito grande via redes sociais, formada em sua maioria por pessoas que se identificaram com a única finalista que se inscreveu para participar do programa, com uma das trajetórias mais coerentes no confinamento.  

Após perder uma das provas de liderança para Thelma, que durou 26 horas, Mari Gonzalez, influenciadora que participou do reality, deu a entender que a médica só teria vencido porque a deixou ganhar, apagando todo o esforço da campeã, que foi chamada de arrogante quando pediu explicações. A vencedora foi julgada dentro e fora do programa, inclusive, quando demonstrou personalidade e firmeza nos posicionamentos, comportamento que, em regra, é aclamado quando vem de pessoas brancas, que são tidas como ícones e viram memes e figurinhas de redes sociais. O mesmo aconteceu com Babu Santana, que foi rotulado como agressivo, chato e até monstro. 

Durante os três meses em que esteve no programa Thelma enfrentou diversos casos de racismo. Um dos mais repercutidos foi feito pelo ex-diretor de TV Rodrigo Branco, que ao participar de uma live com a influencer Ju de Paula afirmou que torcer para a médica seria “racismo” e prosseguiu dizendo que ela ganhou apenas uma “provinha” e que a sua torcida era formada por aqueles que a enxergavam como “negra e coitada”. 

Não é de hoje que estamos acostumados a ver brancos altamente privilegiados e medíocres serem racistas com mulheres negras, e que quando são confrontados a assumirem  os atos criminosos não compreendem verdadeiramente o quanto estão errados. Acreditam que um simples pedido de “desculpa” resolve-se tudo.

Esse não foi o único caso, várias ofensas foram referidas à participante nas redes sociais, evidenciando o quanto o país que se construiu no mito da “democracia racial” é, de fato, muito racista, pois não aceita uma mulher preta médica que não corresponda ao estereótipo estabelecido sobre os corpos negros. 

A mídia é uma das grandes responsáveis por perpetuar e legitimar o racismo que ocorre diariamente no país, basta ver a manchete que a Folha de S. Paulo, um dos mais tradicionais jornais do Brasil, publicou no Twitter em seguida a vitória da médica: “Rafa Kallimann fica em segundo lugar atrás de Thelma”. Não demorou para que diversos usuários questionarem o título da notícia: “o destaque não deveria ser a vencedora?”; “a mulher preta vence o BBB, mas a manchete é o segundo lugar?”. O post sobre a campeã só veio horas depois. 

A pergunta que fica é até quando os grandes meios de comunicação hegemônicos irão negligenciar e diminuir as conquistas do povo negro em detrimento do pacto com a branquitude? Por fim, que venham cada vez mais Thelmas, clamamos por mais pessoas como ela ganhando o Big Brother Brasil.

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