A queda de Regina Duarte

Ex-secretária de Cultura fez declarações problemáticas em relação ao período da Ditadura Militar

Por Lara Costa

 No dia 7 de maio, a então secretária de cultura do governo federal, Regina Duarte, concedeu entrevista para a CNN Brasil. Na entrevista, a atriz disse: “Bom, mas sempre houve tortura. Meu Deus, Stálin, quantas mortes? Hitler, quantas mortes? Se a gente for ficar trazendo as mortes e ficar arrastando esse cemitério. Desculpe, mas não quero ficar arrastando um cemitério de mortos nas minhas costas”. O comentário se referia às mortes da ditadura militar no Brasil. Além disso, a secretária se negou a comentar as mortes de dois artistas: Aldir Blanc e Flávio Migliaccio.

  Regina Duarte, antes de assumir o cargo de Secretária de Cultura, é conhecida por seus trabalhos como atriz, desde 1965, em filmes, peças teatrais e novelas da Rede Globo. Foram nas novelas, porém, que ela conseguiu maior reconhecimento nacional, fazendo uma variedade de obras. Além disso, ela recebeu, nos anos 1970, o título de “Namoradinha do Brasil”. 

 Malu Mulher foi uma minissérie que contava a história de uma socióloga recém-divorciada que sofre preconceitos por tentar viver a vida de forma independente. Roque Santeiro e Santo Inquérito foram duas novelas que mostram como foi a Ditadura Militar, tanto as duas novelas quanto o autor “Dias Gomes” foram censurados pelo governo. O que essas três obras audiovisuais têm em comum? Regina Duarte, como atriz, teve personagens relevantes em todas elas.

 Na ditadura militar, artistas, jornalistas, professores e políticos foram perseguidos; muitos torturados; alguns morreram, outros tiveram graves sequelas. Carlo Alexandre de Azevedo, filho de Dermi Azevedo – jornalista e cientista político –, foi torturado quando tinha um ano e meio de idade e, em 2013, aos 37 anos, se matou. Segundo Azevedo, pai da vítima, o filho nunca se recuperou da tortura que sofreu, dizendo: “Nunca mais se recuperou. Como acontece com os crimes da ditadura de 1964/1985, o crime ficou impune. O suicídio é o limite de sua angústia”

     Quem também exalta esse período histórico é Jair Bolsonaro, que exalta a época. “Era completamente diferente de hoje (na ditadura militar). Naquele tempo você tinha liberdade, segurança, ensino de qualidade, a saúde era melhor”, disse.  Ele também exaltou Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador de Dilma Rousseff, na votação do Impeachment da então presidenta.

     Apesar da imprensa exercer corretamente a sua função de relatar a entrevista com Regina Duarte, é muito importante que ela ajude com o telespectador a fazer uma reflexão maior acerca dessas falas, porque tem gente que ainda acredita que a ditadura militar foi boa. Segundo uma pesquisa do Datafolha  feita em 2019, 57% acredita que o dia que marcou o golpe de 1964 deve ser desprezado, mas 36% é a favor da comemoração dessa data, que é um número preocupante.

  Um discurso minimizando esse período, vindo da secretaria da cultura, é perigoso, porque nega a história do Brasil e de vários cidadãos brasileiros que viveram essa época. Além disso, manipula os telespectadores, pela disseminação de informações sem um pingo de verdade. Esse último motivo é mais grave porque – como diz a definição de discurso – existe um conjunto de ideias expressas ali, que leva ao público, em questão, a formar senso crítico a respeito daqueles pensamentos expressos.

     Vivemos hoje uma era em que existe o questionamento de fatos comprovados, a era da Pós-Verdade, e a ditadura militar é um dos alvos desse fenômeno. É importante que os meios de comunicação divulguem esse tipo de notícia, mas trazendo dados históricos necessários aos telespectadores, para que eles obtenham conhecimento sobre o que foi aquela época e, daí, analisarem criticamente se discursos como esse são válidos.

      Perpetuar pensamentos que negam a gravidade do que foi a ditadura militar ajudam a afundar um país que tem história de democracia recente (31 anos) e que tem resistido a momentos tão difíceis, como o Brasil. 

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